Um novo estudo conduzido por cientistas da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia em San Diego revela uma promissora terapia genética experimental. A abordagem busca salvaguardar o cérebro de danos e do declínio cognitivo associados à proteinopatia TDP-43, uma forma de neurodegeneração que é um dos principais fatores em casos de demência frontotemporal (DFT), doença de Alzheimer (DA) e esclerose lateral amiotrófica (ELA). A pesquisa foi detalhada na revista científica Alzheimer’s & Dementia.
Embora o TDP-43 não seja tão conhecido pelo público em geral, essa proteína é cada vez mais reconhecida por neurocientistas como um fator crucial em doenças cerebrais relacionadas à idade avançada. Seu acúmulo anormal está associado à ELA, também chamada de doença de Lou Gehrig, e à DFT, que ganhou atenção pública após o diagnóstico do ator Bruce Willis em 2023. Mais da metade dos casos de Alzheimer também apresentam a proteína TDP-43, e sua presença está ligada a um declínio cognitivo mais rápido, atrofia cerebral acentuada e uma piora significativa na perda de memória, destacando a urgência de tratamentos direcionados a essa condição.
A inovadora terapia utiliza um vírus modificado e inofensivo para entregar um gene benéfico, o SynCav1, diretamente às células cerebrais. Diferentemente da maioria das terapias genéticas que exigem injeções diretas no tecido cerebral ou medular, esta abordagem emprega um vírus capaz de ser administrado sistemicamente. Ele estimula a produção de caveolina-1, uma proteína neuroprotetora que organiza vias de sinalização cruciais no cérebro, focando em fortalecer a resiliência neuronal contra o estresse da doença e preservar a função cerebral.
“Enquanto muitas terapias para doenças neurodegenerativas se concentram em remover proteínas tóxicas, os neurônios também perdem a capacidade de lidar com esse estresse”, explicou Brian Head, professor de anestesiologia na Escola de Medicina da UC San Diego. Segundo Head, os resultados da pesquisa sugerem que fortalecer a própria resiliência dos neurônios pode ser uma estratégia terapêutica eficaz, mesmo na presença de proteínas nocivas.
Ao testarem a abordagem em roedores, os pesquisadores observaram descobertas importantes:
- A terapia conseguiu ultrapassar a barreira hematoencefálica, elevando a expressão da caveolina-1 em neurônios por todo o cérebro e medula espinhal.
- Nos ratos tratados com SynCav1, houve preservação do aprendizado, da memória e da extinção do medo, processo que leva à diminuição do medo de um estímulo ameaçador após exposições repetidas.
- O tratamento com SynCav1 resultou na redução dos níveis de TDP-43 patológico no córtex e no hipocampo, áreas do cérebro associadas a funções cognitivas elevadas, movimento voluntário e comportamento social.
- A terapia também trouxe benefícios intracelulares, como a proteção de mitocôndrias (estruturas produtoras de energia) e a conservação de microdomínios lipídicos da membrana, essenciais para a comunicação entre células neuronais.
Além de explorar uma nova via de tratamento, as descobertas contribuem para um melhor entendimento da neurodegeneração em níveis celular e molecular. Esse conhecimento aprofundado pode capacitar os cientistas a identificar e desenvolver futuros candidatos a terapias.
“Este estudo nos oferece uma nova e crucial pista mecanística sobre o que de fato acontece no cérebro durante a neurodegeneração”, afirmou Shanshan Wang, coautora correspondente do estudo e professora assistente de anestesiologia na Escola de Medicina da UC San Diego. Ela ressaltou que a TDP-43 não só se acumula em compartimentos subcelulares inadequados, mas também interfere em processos celulares vitais para a comunicação neuronal, e o SynCav1 parece ajudar a preservar essa maquinaria molecular.
Embora ainda sejam necessárias mais investigações para refinar a abordagem antes de sua aplicação em pacientes, os resultados atuais demonstram o vasto potencial do SynCav1 como um candidato a tratamento neurocêntrico, com aplicabilidade em diversas doenças neurodegenerativas.
“É particularmente entusiasmante observar proteção em múltiplos níveis comportamento, sinapses, axônios, sinalização da membrana e estrutura mitocondrial”, acrescentou Brian Head. Ele concluiu que essa neuroproteção abrangente é exatamente o que se busca em distúrbios complexos como as demências ligadas ao TDP-43, e a equipe está motivada a continuar explorando seu potencial.
