Plano da Fifa para vender direitos comerciais da Copa do Mundo gera controvérsia
A intenção da Fifa de comercializar cotas de suas principais competições, incluindo a Copa do Mundo, para investidores particulares tem agitado o cenário do futebol, provocando reações adversas de diversas federações desde 30 de julho de 2026. A iniciativa de negociar partes dos direitos dos torneios foi apresentada por Gianni Infantino, presidente da organização que administra o futebol global.
Entenda a proposta da Fifa para suas competições
A proposta da Fifa inclui a criação da FIFA Forward Enterprise (FFE), uma nova subsidiária encarregada da administração comercial de torneios importantes como a Copa do Mundo, a Copa do Mundo de Clubes, o Intercontinental e campeonatos de base. O propósito dessa estrutura é impulsionar os rendimentos da entidade e atrair recursos financeiros privados para suas competições de maior destaque. Avaliada em cerca de US$ 20 bilhões (equivalente a R$ 102,6 bilhões), a nova companhia poderia oferecer até 20% de suas cotas a investidores, visando levantar aproximadamente US$ 4,2 bilhões (cerca de R$ 21,5 bilhões).
Relatos indicam que Infantino projeta ceder essa participação a um consórcio de investidores privados, entre os quais está Joshua Kushner, que é irmão de Jared Kushner, genro e ex-conselheiro sênior de Donald Trump. O projeto também envolve nomes relevantes do setor financeiro americano, como o JP Morgan, que serve como consultor financeiro da Fifa para avaliar as propostas. A concepção do plano tem ainda a contribuição de Greg Maffei, CEO da BANN Ventures e antigo presidente da Liberty Media, empresa controladora da Fórmula 1.
“A FIFA Forward Enterprise (FFE) é uma proposição, uma oferta”, explicou o presidente da Fifa. “Ela integra um processo democrático e consultivo. Principalmente, representa uma chance, não uma exigência. Inicia o diálogo. Caso seja aprovada pela maioria das 211 Associações-Membro e pelo Conselho da Fifa, será uma subsidiária sob controle e propriedade da Fifa, unificando as operações comerciais e de eventos da organização.”
Infantino acrescentou que “a empresa ficaria encarregada da comercialização e organização de todas as competições pertencentes à Fifa, além de patrocínios, direitos de transmissão, licenciamento e novos negócios, tudo em benefício das 211 Associações-Membro da Fifa, liberando um potencial comercial ainda inexplorado.”
Investidores não terão poder de decisão nos torneios da Fifa
De acordo com o comunicado emitido pela organização, a presidência e a direção da Fifa têm a responsabilidade de gerir o desenvolvimento do projeto. Investidores externos teriam apenas uma cota minoritária, não na própria Fifa, mas sim em uma de suas subsidiárias.
A Fifa assegura que manterá o controle total da FFE, incluindo a organização das competições, o calendário global de partidas e todas as determinações regulatórias e esportivas. Isso significa que os investidores não possuirão autoridade para implementar modificações na Copa do Mundo ou em outras competições.
“Evidentemente, a Fifa continuará a gerir o futebol sem intromissões externas. E os seus torneios mais importantes sempre prosseguirão”, assegurou Infantino. “Maiores receitas destinadas às associações-membro representam mais aplicações em campos de melhor qualidade, seleções mais fortes e mais chances para jovens de ambos os sexos em todo o planeta.”
Ele completou: “Preocupamo-nos com todos, e os frutos de investimentos constantes já são evidentes: dez anos de suporte crescente através do programa Fifa Forward auxiliaram países como Cabo Verde, Curaçao, Jordânia e Uzbequistão a estrear na Copa do Mundo da Fifa. Nosso objetivo é fomentar o surgimento de novos ‘Cabos Verdes’.”
Processo de aprovação do projeto ainda está em andamento
A proposta ainda não recebeu aprovação. Sua concretização depende da maioria dos votos das 211 associações-membro e do Conselho da Fifa. Infantino divulgou o plano aos membros e conselheiros em 17 de julho de 2026, durante um evento em Nova York, às vésperas da final da Copa do Mundo. A Fifa reafirmou que a participação dos investidores será sempre inferior, variando entre 20% e 30% das ações.
Fontes indicam que Infantino estabeleceu um prazo de 53 dias para que as 211 federações votem o projeto. Se a proposta não for aceita, as associações que se opuserem correm o risco de perder 75% do acesso ao sistema de financiamento. Para incentivar a aprovação, o presidente planeja disponibilizar até US$ 10 bilhões (R$ 51 bilhões) a partir de 1º de janeiro de 2027, e também oferecer acesso a até 30 milhões de libras (R$ 205 milhões) através da FFE.
Detalhes sobre o uso dos recursos financeiros
A Fifa declarou que a constituição da nova empresa possibilitaria a distribuição imediata de US$ 20 milhões (R$ 102,29 milhões) para cada uma das 211 associações que aderirem ao Fifa Fast Forward Programme (FFFP). Adicionalmente, prevê-se um crescimento das receitas do programa nos anos seguintes: US$ 22 milhões (R$ 112 milhões) no período de 2031 a 2034, e US$ 24 milhões (R$ 122,75 milhões) entre 2035 e 2038.
A iniciativa é vista, ainda, como um movimento estratégico para o futuro de Infantino após o término de seu mandato. O dirigente, que é apontado como favorito à reeleição em 2027, poderia, conforme análises, assumir a liderança da nova empresa ao deixar a presidência da Fifa, em 2031.
Federações expressam forte oposição à proposta
A resposta das federações tem sido negativa. Uefa (União das Associações Europeias de Futebol), Concacaf (Confederação das Associações de Futebol da América do Norte, Central e Caribe), AFC (Confederação de Futebol da Ásia) e FA (Federação Inglesa) já se manifestaram contra a proposição da Fifa. A Uefa, sendo a primeira a se pronunciar, descreveu a ideia como um limite “que não deve ser ultrapassado”. Até o momento da publicação desta matéria, a Conmebol não havia emitido posicionamento.
“A essência e a administração do futebol não são ativos comercializáveis, especialmente sem total transparência sobre quem se beneficiará financeiramente”, declarou a Uefa. “O futebol não pertence a ninguém; não compete à Fifa vendê-lo.” A entidade europeia, que se manifestou em 29 de julho de 2026, posteriormente reiterou sua posição em um novo comunicado.
“Depois de dialogar com vários agentes do futebol, a Uefa constatou uma oposição notável e crescente ao projeto da Fifa”, comunicou a entidade. “A Fifa não pode seguir explorando nosso esporte para enriquecer a si mesma e seus parceiros. Temos a capacidade de desenvolver o futebol de forma adequada. Chegou o momento de dar prioridade às associações, aos clubes, às ligas, aos jogadores e aos torcedores.”
A notícia sobre o plano da Fifa causou grande insatisfação, particularmente entre as federações europeias. Há informações de que as entidades debatem a possibilidade de boicote à Copa do Mundo de 2030, prevista para ocorrer na Espanha, Portugal e Marrocos. Uma reunião online está programada para definir a estratégia de oposição à formação da empresa que venderia participações a investidores privados.
