Pular para o conteúdo
Menu
Mix Vale

Um laudo exclusivo da Polícia Federal, ao qual o Mix Vale teve acesso em 5 de agosto de 2026, revelou detalhes sobre a queda do avião da Voepass que resultou na morte de 62 pessoas em Vinhedo, interior de São Paulo, em 2024. A investigação recriou os últimos instantes da aeronave e apontou uma série de falhas no sistema de degelo, que já eram conhecidas pela tripulação e persistiram em voos anteriores sem impedir a operação.

Problemas com o sistema já tinham se manifestado antes do acidente fatal. No voo imediatamente anterior à tragédia, que partiu de Guarulhos com destino a Cascavel, o comandante fez menção ao acúmulo de gelo na aeronave.

O que foi registrado na cabine da aeronave

Queda do voo 2283 da VoePass Vinhedo

Foto: Queda do voo 2283 da VoePass Vinhedo – Foto: Reprodução/Tv Globo

Em um dos diálogos da cabine, o piloto comenta sobre a situação do gelo: “O lá o gelo… o gelo foi embora agora, finalmente. Escutei um barulho aqui, foi o gelo que voou.”

Após o pouso, em um tom de alívio, ele se dirigiu ao copiloto.

O copiloto respondeu: “Muito bom, comandante.”

O piloto então declarou: “Chegamos vivos.”

Pouco tempo depois daquele voo, a mesma aeronave decolou novamente para a viagem que culminaria na tragédia.

Ainda durante a subida, um primeiro alerta crucial surgiu na aeronave.

O piloto disse: “É o ‘Airframe’ que deu ‘fault’… pode tirar, pode tirar… pelo menos a gente já sabe que tá…”

Segundos depois, com a continuidade dos alertas, o comandante fez uma comparação que chamou a atenção dos investigadores.

O copiloto questionou: “Olha a situação, se bem que não tá reportado isso aí, mas pra gente não pegar gelo teria que ir no 110, né?”

O piloto replicou: “Foi só eu falar. O avião escutou. Esse avião parece aquele Fusquinha, Herbie lá… Herbie, filme bem antigo.”

Na sequência, o copiloto expressou preocupação com a rota que seguiam.

Conforme o relatório da Polícia Federal, o alerta “AIRFRAME FAULT” naquele instante indicava uma falha no sistema pneumático de degelo do avião. As diretrizes do fabricante exigiam que a tripulação saísse imediatamente da área com formação de gelo, mas os dados do gravador de voo revelaram que esta ação não foi realizada.

Quase uma hora mais tarde, quando a aeronave se aproximava de São Paulo, a situação se tornou ainda mais grave.

O copiloto observou: “Bastante gelo.”

Em seguida, ele tentou reativar o sistema de degelo.

O copiloto disse: “Ligar o airframe.”

A resposta do comandante foi bastante direta.

O piloto afirmou: “Essa bosta não tá funcionando, né?”

O copiloto confirmou: “É”.

O copiloto alertou novamente: “Gelo”.

Um alarme de estol soou, indicando a condição por 48 segundos.

O copiloto reiterou: “Gelo”.

Um alerta de proximidade do solo foi acionado.

O sistema TAWS alertou: “Pull-up… Pull-up”.

Esse sinal sonoro significa que o sistema de aviso e consciência de terreno da aeronave (TAWS/GPWS) emitiu um aviso para que os pilotos interrompessem a descida e elevassem o nariz do avião, devido ao risco iminente de colisão com o solo. O comando de voz “Pull up” é um dos alertas mais graves na aviação, não estando relacionado ao gelo ou ao estol, mas sim à proximidade perigosa do terreno.

Estol é a perda de sustentação de uma aeronave, causada por um aumento excessivo do ângulo de ataque ou pela redução drástica da velocidade.

Os computadores do avião começaram a emitir uma sequência de alertas, incluindo “Performance Degradada”, “Increase Speed” e, logo depois, o alarme de estol. Em menos de um minuto, a aeronave perdeu sustentação, entrou em estol e, em seguida, em parafuso, até colidir com o solo.

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) conduz investigações para prevenir novos acidentes, sem buscar culpados, enquanto a Polícia Federal realiza perícia criminal para apurar responsabilidades e identificar possíveis crimes.

O relatório da Polícia Federal detalha que os pilotos não executaram, no momento apropriado, os procedimentos estabelecidos pelo fabricante para falhas no sistema de degelo, degradação de performance, condições severas de gelo e recuperação de estol.

Havia um lapso de aproximadamente 20 segundos entre o alerta de “Increase Speed” e o início do parafuso, período em que ainda existia a possibilidade de intervenção por parte da tripulação.

Ao analisar os computadores de bordo, os peritos constataram que a mensagem “AIRFRAME FAULT” foi registrada no voo do acidente e em três voos anteriores. Em todas essas ocasiões, as tripulações repetiram o mesmo procedimento de desligar e ligar o sistema de degelo na tentativa de restabelecer seu funcionamento.

No voo anterior ao acidente, o PTB 2282, o alerta foi registrado oito vezes, e o sistema passou por pelo menos cinco tentativas de reinicialização.

Para a Polícia Federal, esses fatos demonstram que o comandante tinha conhecimento das falhas intermitentes do sistema. Apesar disso, ele aceitou decolar novamente em uma rota onde havia previsão oficial de formação de gelo.

O laudo policial ressalta que, se essas falhas tivessem sido documentadas formalmente pelas tripulações anteriores, a aeronave não deveria ter sido liberada para operar nessas condições, uma vez que a Lista de Equipamentos Mínimos impede a operação com o sistema de degelo inoperante.

O relatório da PF afirma: “Quando as tripulações dos voos anteriores deixaram de registrar falhas do sistema de degelo, permitiram que discrepâncias repetitivas e críticas permanecessem ocultas, contribuindo para que o sistema de degelo pneumaticamente comandado continuasse operando com intermitência não sanadas.”

Outro desvio identificado na investigação refere-se ao despacho operacional da aeronave. Embora não tenha sido uma causa direta do acidente, o avião foi liberado para voar com uma falha no limpador de para-brisa, o que contrariava a Lista de Equipamentos Mínimos diante da previsão de chuva no destino. Segundo a PF, houve falha tanto por parte do Despachante Operacional de Voo quanto do comandante.

A conclusão da Polícia Federal sobre o acidente

Em suas quase 200 páginas, a conclusão da Polícia Federal é que a tragédia resultou da combinação de falhas recorrentes no sistema de degelo, operação em uma área com formação severa de gelo, erros na execução dos procedimentos do fabricante e falhas sucessivas nas barreiras de segurança antes do voo que causou a morte de 62 pessoas.

Em 13 de agosto de 2026, a Polícia Federal deverá finalizar o inquérito sobre a queda do avião da Voepass e apontar os responsáveis pelo acidente.

Indiciamentos são esperados, marcando este como o primeiro acidente aéreo na história da aviação brasileira a resultar na responsabilização criminal dos investigados em grandes voos comerciais.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

Notícias relacionadas

Mais lidas

  1. Brasil

    Fibras de pitanga e cambuci reduzem a viabilidade de células de câncer colorretal em laboratório, diz USP

  2. Destaques

    Bob Dylan se encontra com o Papa Leão XIV no Vaticano após mediação cultural

  3. Destaques

    Tornado no Aeroporto de Chapecó atinge 126 km/h, arranca teto de terminal e cancela voos em Santa Catarina

  4. Destaques

    Janaína Barbosa, ex-apresentadora do TV Fama, morre aos 48 anos em São Paulo

  5. Serasa

    Feirão Limpa Nome da Serasa oferece descontos de até 99% para quitar dívidas no Brasil até 6 de dezembro

  6. Benefícios

    13º salário 2026: empresas devem pagar 1ª parcela até 30 de novembro no Brasil com metade do rendimento sem desconto

  7. EUA

    Eleição para governador nos EUA: Keisha Lance Bottoms vence na Geórgia e Byron Donalds fatura a Flórida

  8. EUA

    Donald Trump vai deixar a presidência dos EUA? derrota republicana no Congresso não cassa o mandato do presidente

  9. EUA

    Eleição nos EUA: Trump esvazia agenda pública após democratas confirmarem série de vitórias no Congresso

  10. EUA

    Eleição para o Senado na Carolina do Sul: Annie Andrews lidera apuração sobre Darline Graham e ameaça hegemonia republicana nos EUA

Sua privacidade

O Mix Vale usa cookies para medir audiência e exibir anúncios que sustentam a redação. Você escolhe. Política de privacidade.