Liminar obriga INSS a cobrir acidentes do iFood e impacto pode chegar a R$ 189 milhões

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Entregador do iFood Foto: Entregador do iFood -J.P. Junior Pereira / Shutterstock.com

O cofre da Previdência Social pode sofrer um impacto financeiro anual de até R$ 189,03 milhões para custear o afastamento médico de motoboys e ciclistas vinculados ao iFood que sofrerem acidentes de trânsito. Essa projeção bilionária ganha força após uma recente ordem da Justiça, que coloca em pauta a vulnerabilidade dos trabalhadores da chamada economia gig e obriga o Estado a assumir a conta das licenças de saúde.

O montante final, no entanto, dependerá diretamente do volume de sinistros registrados nas vias brasileiras. Caso a taxa de ocorrências siga uma curva mais conservadora e o trânsito faça menos vítimas, o gasto do governo federal cairia drasticamente, estacionando na casa dos R$ 8 milhões a cada doze meses.

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INSS – Pedro Gustavo/ Gv.br

Quem assina esse levantamento estatístico é Leonardo Rolim, especialista em contas previdenciárias que atua como consultor na Câmara dos Deputados. O estudo tomou como base os números apresentados em uma ação civil pública movida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) no estado da Bahia. Durante a última semana, o judiciário baiano concedeu uma liminar favorável ao órgão, determinando que o Estado garanta a cobertura previdenciária para os parceiros da plataforma digital, o que encerra a prática de recusas automáticas e obriga a análise pericial de cada trabalhador machucado.

Projeções financeiras revelam cenários distintos para os cofres públicos

Para chegar a essas cifras, a equipe técnica cruzou a base de 600 mil prestadores de serviço ativos no aplicativo com duas fontes distintas de sinistralidade: os relatórios da Metlife, empresa de seguros parceira da gigante do delivery, e as estatísticas apuradas pelos procuradores do MPT.

Sob a ótica da seguradora, o trânsito faria cerca de 1.600 vítimas anuais entre os entregadores. Considerando o pagamento do salário mínimo vigente de R$ 1.621 durante um trimestre de recuperação médica, a União desembolsaria os já citados R$ 8 milhões. Por outro lado, a perspectiva do Ministério Público traça um panorama muito mais grave, estimando que 45,4% da frota sofra algum tipo de acidente, o que elevaria a conta governamental para a margem dos R$ 189 milhões anuais, mantendo o mesmo piso salarial e tempo de repouso.

Empresas de tecnologia e órgãos do governo reagem à determinação judicial

Até o momento, tanto a autarquia previdenciária quanto a Advocacia-Geral da União (AGU), responsável pela defesa jurídica do Estado, declararam via assessoria que aguardam a notificação formal da comarca baiana. Os órgãos federais prometeram apresentar seus contrapontos nos autos do processo assim que tiverem acesso ao teor completo do documento expedido pelo juiz.

Na iniciativa privada, a direção do iFood agiu rápido e protocolou um pedido para derrubar a decisão provisória. A multinacional brasileira de entregas argumenta que o veredito ocorreu de forma unilateral, sem que a equipe de defesa da companhia pudesse expor seus argumentos antes da deliberação judicial.

A plataforma de tecnologia sustenta que a peça acusatória ignora nuances fundamentais do setor de entregas rápidas. Segundo os advogados da marca, as exigências impostas pela magistratura ferem o conceito de trabalho autônomo, que é a espinha dorsal da relação jurídica estabelecida entre os aplicativos de intermediação e os profissionais do guidão.

Para rebater as acusações de desamparo, a empresa listou uma série de benefícios já oferecidos gratuitamente aos parceiros logísticos, que se assemelham aos pleitos do MPT. O pacote corporativo inclui apólices contra acidentes de trajeto, atendimento psicológico, orientação legal, suporte financeiro para casos de invalidez permanente ou doença, além de auxílio-funeral e seguro de vida.

A Metlife, citada no imbróglio por fornecer as apólices privadas, adotou um tom cauteloso e informou que também desconhece oficialmente o despacho. A multinacional de seguros reiterou que, tão logo receba a intimação, avaliará o escopo da sentença para adotar os procedimentos legais cabíveis dentro das normas do mercado segurador brasileiro.

Entenda os números que baseiam o pedido de cobertura para os motoboys

A discrepância entre os cenários otimista e pessimista nasce dos critérios adotados por cada instituição para medir o risco da profissão. Veja a seguir a radiografia dos dados utilizados no processo:

  • Segundo o levantamento do MPT, a base de cálculo envolve 600 mil trabalhadores cadastrados na plataforma.
  • A taxa histórica de acidentados bate a marca de 45,4% no período acumulado entre os anos de 2019 e 2025.
  • Isso representa uma média anual de 6,5% de profissionais feridos, totalizando 38.871 ocorrências a cada doze meses.
  • Com um afastamento médio de três meses recebendo o piso de R$ 1.621, o rombo anual chegaria a exatos R$ 189.031.757,14.
  • Já o balanço fornecido pela Metlife trabalha com o mesmo valor de benefício (R$ 1.621) e idêntico tempo de licença médica (três meses).
  • A diferença brutal está no volume de sinistros: a seguradora projeta apenas 1.600 acidentes por ano em todo o território nacional.
  • Com essa sinistralidade reduzida, o impacto financeiro para os cofres da União ficaria restrito a R$ 7.780.800,00 anuais.

Mudanças operacionais exigem adaptação imediata do sistema previdenciário

O impacto da canetada baiana vai além das cifras e afeta a infraestrutura tecnológica do INSS. A ordem judicial proíbe que os robôs do governo neguem pedidos de auxílio-doença de forma automática, exigindo uma triagem humana e individualizada. Para que isso funcione, o portal governamental precisará criar um campo específico para identificar a categoria do entregador, enquanto o cidadão terá o ônus de anexar provas digitais de que estava com o aplicativo logado no momento da colisão.

O advogado Rômulo Saraiva, que acompanha de perto as diretrizes previdenciárias, faz um alerta importante sobre a aplicação prática da medida: a vitória nos tribunais não significa dinheiro na conta para todos de forma irrestrita. Como o setor carece de uma lei trabalhista específica, o perito médico avaliará caso a caso, exigindo que o motoboy comprove sua qualidade de segurado, ou seja, que esteja pagando suas contribuições mensais em dia como autônomo ou Microempreendedor Individual (MEI).

Saraiva pontua ainda que a autarquia federal foi obrigada a criar um canal de atendimento especializado para essa demanda crescente. O objetivo é garantir que o servidor público analise o chamado nexo técnico — a relação direta entre a lesão física e a rotina exaustiva no trânsito. Toda essa movimentação jurídica nasceu justamente porque o Estado vinha fechando as portas para esses profissionais, indeferindo os atestados médicos sem sequer avaliar as condições em que o acidente de trabalho aconteceu.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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