Especialistas analisam eSports: estudo compara gasto calórico de jogadores a um bolinho de peixe
O reconhecimento dos eSports como uma modalidade esportiva ainda gera discussões, apesar do crescimento expressivo em diversas plataformas de jogos. Um novo artigo científico, intitulado “Gasto Energético de Atletas de ESports Durante o Jogo: Uma Revisão Sistemática”, foi publicado por Jiří Kotas, pesquisador de ciências do esporte da Universidade Masaryk, e sua equipe. O objetivo da pesquisa é detalhar a energia consumida por atletas de eSports e os elementos que afetam suas reações metabólicas durante as partidas. O trabalho organiza e analisa cinco estudos prévios, focando na carga fisiológica imposta pelo jogo.
A equipe liderada por Kotas, da Universidade Masaryk, composta por seis pesquisadores, realizou uma ampla busca em várias bases de dados para selecionar artigos pertinentes. Cinco estudos que se alinhavam aos critérios estabelecidos foram integrados e analisados, abordando uma variedade de gêneros de eSports, como MOBA, FPS e simulação. Títulos famosos como League of Legends, Dota 2, Counter-Strike: Global Offensive, Overwatch, Paladins Champions e FIFA estiveram entre os jogos examinados.
Contudo, é fundamental considerar as diferentes metodologias de cada experimento, visto que os participantes incluíam tanto jogadores amadores quanto profissionais. As variáveis, como o tipo de jogo e os métodos usados para medir as respostas físicas, também apresentaram variações entre as análises. Os pesquisadores indicaram que, embora os estudos possam ser comparados dentro de certos limites, confrontos diretos são difíceis por causa das inconsistências nas condições, amostras reduzidas e a falta de randomização adequada.
Análise do gasto calórico durante as partidas
A metodologia principal utilizada nos cinco artigos revisados para determinar o gasto energético dos participantes foi a calorimetria indireta. Este processo mede o volume de oxigênio absorvido e de dióxido de carbono liberado pelo corpo. Ao quantificar essas trocas gasosas durante a respiração, é possível estimar a energia despendida na atividade. Várias das pesquisas investigaram o impacto dos eSports no consumo de calorias, comparando o gasto energético em estado de repouso (sentado) com o período de jogo competitivo.
A seguir, um resumo dos principais resultados dos cinco estudos analisados:
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- Haupt et al.: 1 participante (amador) jogando Paladins. Gasto mínimo de 1,38 kcal/minuto durante o jogo (não mediu repouso).
- Ketelhut e Nigg: 27 participantes (amadores), divididos entre FIFA 21 (14) e League of Legends (13). Em repouso, 1,51 kcal/min (LoL) e 1,63 kcal/min (FIFA 21). Durante o jogo, 1,86 kcal/min (LoL) e 2,06 kcal/min (FIFA 21).
- Kocak: 11 participantes (amadores) em Dota 2 e League of Legends. Em repouso, 1,75 kcal/min; durante o jogo, 2,44 kcal/min.
- Nicholson et al.: 13 participantes (especialistas) em League of Legends, Overwatch, Rocket League, CS:GO e VALORANT. Em repouso, 1,28 kcal/min; durante o jogo, 1,45 kcal/min.
- Zimmer et al.: 30 participantes (amadores) em CS:GO e FIFA 20. Em repouso, 1,98 kcal/min; durante o jogo, 1,99 kcal/min.
Um dos artigos examinados, de Nicholson e colaboradores, investigou 13 jogadores considerados especialistas, com alta proficiência em diversos jogos dos gêneros FPS e MOBA. A pesquisa revelou que o consumo calórico cresceu cerca de 17%, partindo de 1,28 kcal/min em estado de descanso para 1,45 kcal/min enquanto jogavam. Analogamente, uma investigação conduzida por Kocak com 11 jogadores amadores registrou um aumento de aproximadamente 40%, com a taxa subindo de 1,75 kcal/min em repouso para 2,44 kcal/min durante a prática.
Em contraste, o estudo liderado por Zimmer, que analisou 30 jogadores amadores, demonstrou achados distintos. Em termos de gasto calórico, foi constatado um incremento marginal de apenas 0,01 kcal/minuto durante a atividade em comparação com o repouso, não havendo uma diferença estatisticamente relevante. Isso sugere que, embora algumas análises apontem para um acréscimo no consumo de calorias com a prática de jogos competitivos, há situações onde a alteração foi mínima ou inexistente.
Jogadores experientes gastam mais energia que amadores?
Adicionalmente, a investigação de Kocak identificou uma ligação entre as Ações por Minuto (APM) e os METs nos jogos. APM indica o número de movimentos realizados por minuto, enquanto METs medem a intensidade da atividade física, sendo 1 MET o equivalente ao corpo em repouso sentado. Isso significa que jogadores com maior volume de ações nos games podem demandar mais energia. A pesquisa de Ketelhut e Nigg também registrou valores de METs entre 1,6 e 2,0 durante os jogos. Para ilustrar, atividades como “lavar louça”, “passar roupa” e “guardar roupa” equivalem a 2 METs. Tais resultados indicam que os jogos eletrônicos podem gerar um leve acréscimo no esforço físico, mas o aumento é insuficiente para ser classificado como “exercício”.
Embora a maioria dos estudos confirme um crescimento no consumo de calorias durante as partidas, esse aumento é considerado pouco expressivo. O estudo de Kocak, por exemplo, demonstrou o maior acréscimo entre as análises comparadas, passando de 1,75 kcal/min em repouso para 2,44 kcal/min durante o jogo, resultando em um ganho de apenas 0,69 kcal/minuto, ou 41,4 kcal/hora. Para contextualizar, aproximadamente 40 calorias podem ser encontradas em “uma laranja”, “um chikuwa (bolinho de peixe)”, “duas colheres de sopa de arroz cozido” ou “quatro a cinco batatas fritas”. Assim, é improvável que os e-sports ofereçam benefícios significativos para a perda de peso.
Os pesquisadores também apontaram que esses processos metabólicos não são uniformes e podem variar conforme o nível de perícia do jogador. No estudo de Nicholson e colegas, que envolveu jogadores experientes entre os 10% mais bem classificados em cada título, o gasto de energia durante o jogo cresceu cerca de 17% em relação ao repouso, acompanhado por um maior consumo de oxigênio e liberação de dióxido de carbono. Já a pesquisa de Zimmer, focada em jogadores amadores, indicou um aumento de apenas 1% em comparação ao estado de descanso, sem relevância estatística, e nenhuma alteração notável no metabolismo ou nas reações ao estresse.
Os resultados levam a crer que, quanto mais habilidoso um jogador é, maior pode ser seu gasto energético durante as partidas. É plausível que atletas experientes, submetidos a uma carga cognitiva mais intensa e uma densidade de desempenho elevada, necessitem de mais energia. Contudo, os autores recomendam cautela ao interpretar as disparidades entre amadores e profissionais, considerando as marcantes diferenças nas condições de cada estudo. Novas investigações são essenciais para confirmar se jogadores de alto nível realmente despendem mais energia que a média.
Como a frequência cardíaca se comporta em jogadores de eSports
Enquanto o consumo de energia apresentou variações entre as pesquisas, todos os estudos indicaram um aumento na frequência cardíaca dos participantes durante os jogos. Um exemplo é o estudo de Haupt e colaboradores, que registrou um salto da frequência cardíaca de 85 batimentos por minuto (bpm) em repouso para aproximadamente 137 bpm em apenas 10 minutos de jogo. Esse comportamento é comparável ao observado em situações de alto estresse, como em corridas automobilísticas ou exames desafiadores.
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Outras análises também notaram elevações na frequência cardíaca, sinalizando uma ativação intensa do sistema nervoso simpático. Adicionalmente, foram identificados aumentos regulares nos índices de glicose e cortisol no sangue, e uma redução na Variabilidade da Frequência Cardíaca (VFC). Esses indicadores apontam que os jogadores estão sob estresse psicológico durante a prática dos eSports.
A pesquisa de Haupt comparou as reações físicas de um indivíduo em atividades como ciclismo e jogos eletrônicos. Os resultados mostraram que, embora os eSports elevem significativamente a frequência cardíaca, o gasto de energia é substancialmente inferior ao do ciclismo. Diferentemente dos esportes convencionais, onde o movimento “acelera o metabolismo e a frequência cardíaca”, os eSports se distinguem por uma condição de “alta frequência cardíaca e baixa demanda física”. Isso indica que, mesmo com pouca exigência física, o componente psicológico pode ter um impacto no corpo. Os autores do artigo sugerem que um fenômeno similar ao observado em partidas de xadrez, que também provocam alterações fisiológicas, pode estar presente nos eSports.
eSports: não são exercício, mas podem ser definidos como esporte
A pesquisa indica que a prática de eSports pode elevar o consumo de energia. Adicionalmente, foram registrados aumentos na frequência cardíaca e em indicadores de estresse, o que sugere que os jogadores entram em um estado fisiológico distinto do normal. Entretanto, o crescimento no gasto energético é mínimo, dificultando a classificação das atividades de eSports como “exercício físico”. Surge então a questão: se os eSports não demandam grande esforço físico, eles ainda assim podem ser chamados de “esportes”?
No artigo, os autores propõem que fenômenos similares podem ocorrer nos eSports, apoiados em estudos que evidenciam mudanças fisiológicas durante jogos de xadrez. É pertinente lembrar que o xadrez possui reconhecimento oficial do Comitê Olímpico Internacional (COI) como um “esporte”. Sob essa ótica, assim como o xadrez foi redefinido, os eSports, que exigem elevada capacidade de raciocínio e tomada de decisões rápidas, mesmo sem intensa movimentação corporal, poderão eventualmente ser aceitos formalmente como um “esporte”.
















