Geely ganha força no Brasil e ameaça BYD e GWM mais do que a Omoda & Jaecoo

Geely EX2

Geely EX2 - Foto: Divulgação

Novas marcas chinesas, Geely e Omoda Jaecoo, iniciaram suas operações no Brasil recentemente e já disputam a terceira colocação entre as empresas asiáticas, logo após BYD e GWM. Ao considerar os dados de emplacamentos, a estrutura industrial disponível e o portfólio de produtos, é possível analisar qual das duas gera maior apreensão no setor automotivo brasileiro em 2026.

Atualmente, a perspectiva de um impacto mais duradouro se inclina para a Geely, embora a Omoda Jaecoo tenha apresentado um desempenho inicial superior em volume de vendas.

Emplacamentos mostram um cenário inicial da disputa

A Omoda Jaecoo registrou 2.451 veículos emplacados, enquanto a Geely somou 1.375 unidades. Conforme os dados fornecidos pela Fenabrave, a marca do Grupo Chery demonstrou um começo mais forte entre as montadoras chinesas recém-chegadas.

Por outro lado, BYD e GWM operam em uma categoria diferente no mercado. A BYD alcançou a 5ª posição entre as marcas com maior volume de vendas no Brasil, e a GWM está na 11ª posição, já possuindo uma base industrial no país.

| Marca | Chegada ao ciclo atual | Desempenho no Brasil | Vantagem imediata |
| BYD | 2022 | 5ª marca em vendas | Ampla escala, fábrica e portfólio diversificado |
| GWM | 2023 | 11ª marca em vendas | Forte presença em híbridos e produção local |
| Omoda Jaecoo | 2025 | 2.451 emplacamentos iniciais | Impulso com SUVs e receptividade ao lançamento |
| Geely | 2025 | 1.375 emplacamentos iniciais | Aliança industrial estratégica e gama de produtos |

O volume de vendas é um fator importante, mas não é o único determinante para o sucesso.

No Brasil, a credibilidade de uma nova marca se estabelece quando há garantia de peças de reposição, agilidade nas revisões, prazos de entrega consistentes e um valor de revenda minimamente estável. É neste ponto que a competição se transforma de marketing em realidade de mercado.

Parceria com a Renault impulsiona estratégia da Geely

A Geely não entrou no mercado brasileiro isoladamente. Sua colaboração com a Renault oferece um atalho significativo, evitando desafios que outras marcas chinesas enfrentam ao estabelecer uma operação do zero.

Essa parceria permite à Ge Geely utilizar a rede de vendas, os serviços de pós-venda e a fábrica localizada em São José dos Pinhais, no Paraná. Para uma empresa que ainda busca consolidar sua reputação no país, esses recursos valem muito mais do que ações de publicidade.

Adicionalmente, o grupo Geely possui uma trajetória consolidada no setor automotivo global, controlando marcas renomadas como Volvo, Lotus, Smart e Zeekr. A capacidade de produção em larga escala já é uma característica do grupo.

O interesse do consumidor brasileiro, no entanto, foca em outros aspectos: quais modelos serão oferecidos em grande volume e qual será o custo de manutenção desses veículos.

O modelo EX2 mira o segmento dos carros elétricos de entrada, uma faixa de mercado sensível onde o BYD Dolphin Mini é um forte competidor. Se a Geely conseguir equilibrar preço, disponibilidade de estoque e custo do seguro, poderá ganhar terreno rapidamente.

Já o EX5 em-i, um SUV híbrido plug-in com preço inicial de R$ 180 mil, tem uma proposta mais ambiciosa. Ele compete diretamente com modelos como BYD Song Pro, Song Plus, Haval H6 e Jaecoo 7, em um segmento com alta concorrência.

Essa faixa de preço é crucial, pois os consumidores comparam o financiamento com veículos estabelecidos como Corolla Cross, Compass e HR-V nas versões topo de linha, exigindo alta qualidade de acabamento, garantia e um bom valor de revenda.

Caso a montagem do EX5 em-i comece efetivamente no segundo semestre de 2026 no Paraná, a Geely ganhará vantagens na reposição de peças, na redução da exposição cambial e no fortalecimento de seu posicionamento comercial. A indústria nacional, por meio da Anfavea, tem acompanhado de perto esse movimento de nacionalização.

geely EX5 – Divulgação

Omoda Jaecoo avança em vendas, mas busca modelo de volume

A chegada da Omoda Jaecoo ao mercado foi marcada por um forte impacto e obteve resultados positivos.

O Jaecoo 7 teve boa aceitação, ganhou uma versão mais acessível e se inseriu com força no segmento de híbridos plug-in. O Omoda 5, com 204 cv, encontrou seu espaço ao combinar o preço de um carro compacto com o porte de um SUV maior, resultando em cerca de 1.000 unidades vendidas mensalmente.

A experiência prévia do Grupo Chery no Brasil é um fator favorável, pois difere de iniciar do zero sem conhecer o perfil de consumo, a dinâmica de preços e a sensibilidade do pós-venda.

Contudo, há uma lacuna na estratégia da marca: a ausência de um produto verdadeiramente popular dentro de sua gama.

O Omoda 4 pode preencher essa necessidade. Ele chega para competir com modelos como Volkswagen Tera, Fiat Pulse e Renault Kardian, justamente na categoria que gera maior volume de vendas e define a reputação de uma marca no mercado.

Se o lançamento for bem-sucedido em termos de preço, pode alterar significativamente o panorama. Se o valor for muito elevado, o modelo pode se tornar mais um SUV de nicho, com um apelo moderno, mas com vendas limitadas.

Ainda é relevante o aspecto industrial. A expectativa de construção de uma fábrica no Brasil já circula, mas o impacto real surgirá apenas com a confirmação da operação, um cronograma de produção definido e uma rede de suporte mais robusta. Sem esses elementos, o crescimento dependerá das importações e da variação cambial.

jaecoo 7 – Divulgação

As diferenças na perspectiva do comprador nacional

Para o consumidor, essa competição é uma excelente notícia. O aumento do número de marcas disputando espaço geralmente resulta em ofertas de desconto, pacotes de equipamentos mais vantajosos e serviços de revisão mais competitivos.

Contudo, não basta considerar apenas o valor da parcela. O seguro para veículos eletrificados ainda apresenta grande variação, o IPVA depende de cada estado e um carro importado pode gerar longas esperas por peças. Quem planeja trocar de carro a cada dois ou três anos também precisa levar em conta a desvalorização do veículo.

Nessa análise, a Geely parece mais preparada para oferecer uma operação mais sólida desde o início. A conexão com a Renault beneficia a rede de oficinas, a logística de peças e inspira confiança em compradores que podem estar receosos com uma marca nova no mercado.

A Omoda Jaecoo teve um bom começo em vendas e conquistou a atenção rapidamente. O desafio agora é converter esse impulso em uma presença duradoura, com produtos mais acessíveis e uma infraestrutura capaz de suportar um aumento de volume sem dificuldades.

Observando o cenário atual, a Omoda Jaecoo pode gerar um impacto mais imediato, mas a Geely demonstra maior potencial para exercer pressão sobre BYD e GWM a longo prazo. A verdadeira batalha, contudo, terá seu auge quando os modelos de entrada conquistarem o público e o pós-venda funcionar sem problemas. Essa etapa decisiva ainda está por vir.