Completar oitenta anos é um feito notável para qualquer pessoa, superando a média de vida brasileira, que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta em torno de 76 anos. No entanto, para João César Melchiori, conhecido como Neno, essa marca representa uma conquista ainda mais extraordinária, que lhe rendeu um reconhecimento inédito.
Morador da cidade de São Manuel, em São Paulo, Neno recebeu recentemente o título de “Mais Longevo com Síndrome de Down” do país. O feito foi oficialmente certificado pelo RankBrasil, o Livro dos Recordes Brasileiro. Mais do que um troféu ou um certificado, suas oito décadas simbolizam a força do afeto e a capacidade de superação.
As celebrações pelos 80 anos de Neno ocorreram em 30 de maio de 2026. A festa foi um encontro de familiares e amigos, proporcionando ao idoso a oportunidade de fazer o que mais gosta: cumprimentar e abraçar as pessoas.
Rosane Melchiori, sobrinha de Neno, comentou sobre a alegria do tio. “Ele aguardou a festa com muita expectativa e ficou radiante quando chegou, cumprimentando a todos. No momento do parabéns, ele aproveitou intensamente, visivelmente eufórico. Ele adora abraçar e interagir, e isso foi muito gratificante”, relatou ela.
Outro momento marcante foi a entrega do troféu e do certificado que confirmam seu recorde de longevidade. “Neno ficou emocionado com o troféu, chegando a chorar de alegria. Nós, da família, também ficamos muito felizes por sua vida e por ele continuar conosco”, afirmou a sobrinha.
Reconhecimento nacional da longevidade
O processo para o reconhecimento junto ao RankBrasil foi iniciado pela própria família, inspirada pelos constantes comentários de médicos sobre a notável longevidade de Neno durante suas consultas de rotina. A instituição de recordes concedeu o título após analisar cuidadosamente os documentos e laudos médicos apresentados.
Rosane atribui a longevidade de Neno aos cuidados e ao carinho que ele sempre recebeu desde a infância. Atualmente, ele vive com a irmã, Hermínia, e conta com o suporte de uma cuidadora. “Em setembro, ele teve um AVC isquêmico e notamos que ele não vira o pescoço para um lado e tem um pouco mais de dificuldade na fala, mas, de modo geral, ele está muito bem”, explicou a sobrinha.
A importância do afeto e do cuidado familiar
Apesar de Neno sempre ter contado com a atenção da família, Rosane reconhece que houve uma certa superproteção. “Neno nunca andava sozinho, e essa preocupação, embora protetora, pode ter limitado sua evolução em alguns aspectos. Hoje vemos pessoas com síndrome de Down que são totalmente independentes. Ele tem certa autonomia, mas não aprendeu a escrever ou a usar o transporte público sozinho, por exemplo, sempre precisando de acompanhamento”, detalhou ela.
A sobrinha, contudo, pondera que Neno nasceu em uma época com poucas informações sobre a síndrome de Down e muito preconceito. “Muitas famílias escondiam seus filhos com a síndrome. Não foi o caso dele, que sempre esteve integrado à família e conviveu em sociedade. Mas a proteção o fez desenvolver certas habilidades apenas dentro de casa”, explicou Rosane.
Foram o cuidado e o amor familiar que permitiram a Neno alcançar os 80 anos com qualidade de vida, superando as barreiras do preconceito. “Convivo com ele desde que nasci, e hoje percebemos a grandiosidade de Neno chegar aos 80 anos. E também vemos o quanto ele é querido na cidade”, disse Rosane.
Lições de amor e inclusão para a sociedade
Para Rosane, o amor, o acolhimento da família e a inclusão na comunidade são as principais lições para quem convive ou tem um familiar com síndrome de Down.
“O preconceito ainda persiste, as pessoas ainda olham de forma diferente, mas precisamos mudar isso. O cromossomo extra que ele e outras pessoas com síndrome de Down carregam é o cromossomo do amor. A sociedade deve colaborar ativamente para essa inclusão”, finalizou a sobrinha de Neno.
