EUA expandem revogação de vistos na América Latina sob nova tática diplomática

Visto americano
Foto: Visto americano - Mehaniq/Shutterstock.com

Um funcionário do governo americano, conhecido nas redes sociais como “O Revogador de Vistos”, tem adotado uma abordagem teatral ao utilizar o cancelamento de permissões de entrada como ferramenta de pressão diplomática. Ele inclusive comemora o apelido, que associa a uma imagem de “Bat-Sinal” em referência a um herói em resgate.

Christopher Landau, que ocupa o cargo de Subsecretário de Estado dos EUA, revitalizou essa ferramenta diplomática, transformando-a em uma estratégia de pressão. Ele usa o sensacionalismo nas plataformas digitais para confrontar aqueles que se opõem às diretrizes políticas de Washington.

Um dos episódios mais marcantes aconteceu em setembro de 2025, quando o Departamento de Estado comunicou o cancelamento do visto do então presidente da Colômbia, Gustavo Petro. A medida foi justificada por Petro ter incentivado militares dos Estados Unidos a desobedecerem ao presidente Donald Trump durante um discurso em Nova York.

No mesmo dia, Landau divulgou uma imagem no X, consolidando seu apelido recém-adquirido. Ele já era conhecido por ações semelhantes contra cidadãos mexicanos, país onde atuou como embaixador dos EUA entre 2019 e 2021.

Anteriormente, o Departamento de Estado havia informado sobre o cancelamento dos vistos do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e de outros magistrados brasileiros. A justificativa era de que estes estariam conduzindo uma “caça às bruxas política” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Embora Landau não tenha sido o responsável por divulgar a medida publicamente, ele endossou as críticas direcionadas ao ministro, o que contribuiu para agravar as tensões diplomáticas entre os governos de Washington e Brasília.

Progressivamente, Landau assumiu o papel de censor nas plataformas digitais, monitorando e removendo conteúdos que pudessem impactar negativamente a imagem dos Estados Unidos. Em junho de 2025, ele declarou ter sido o responsável direto pelo cancelamento do visto de Melissa Cornejo, uma conselheira estadual pró-governo em Jalisco. A ação foi motivada por uma “postagem vulgar” na rede social X, onde ela protestava contra a revogação de vistos de apoiadores de manifestações pró-imigrantes após operações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) dos EUA.

Em outro incidente, Landau interagiu com a ativista mexicana Arlín Medrano em relação a uma publicação pró-Palestina. Ele usou a já conhecida imagem da “revogação de visto” para reforçar a ameaça, apesar de Medrano ter informado que não possuía tal documento.

Visto Americano
Visto Americano – Foto: MistikaS/istock

Durante os primeiros 10 meses do governo Trump, mais de 50 vistos de políticos mexicanos foram suspensos devido a alegadas conexões com o narcotráfico. A maioria das identidades não foi revelada, mas entre os afetados estava o governador da Baja California, que negou veementemente qualquer envolvimento com o crime organizado.

Recentemente, em meados de agosto, Andrés Manuel López Beltrán, filho do ex-presidente do México Andrés Manuel López Obrador, declarou que seu visto foi cancelado pelo governo americano, atribuindo a responsabilidade a Landau e ao secretário de Estado Marco Rubio.

Na ocasião, Landau replicou a uma mensagem que tratava da possível revogação de vistos com um tom sarcástico, dizendo: “Gostando do espetáculo? Preparem a pipoca, vocês vão adorar a próxima parte.”

Sob a administração do ex-presidente Joe Biden, o Departamento de Estado utilizava restrições de visto em categorias mais abrangentes, visando autoridades nicaraguenses por desrespeito aos direitos humanos e centenas de guatemaltecos, incluindo membros do Congresso, por “minarem a democracia”. Atualmente, o Departamento de Estado conta com um funcionário que se destaca por empregar uma teatralidade diplomática na aplicação dessa ferramenta, adotando uma abordagem distinta.

Essas ações são também interpretadas como elementos da crescente disputa geopolítica entre Washington e Pequim.

Em julho, a Embaixada dos EUA na Argentina notificou executivos de uma empresa sobre a possibilidade de restrição ou cancelamento de vistos caso realizassem negócios com a companhia chinesa Huawei. Esse alerta gerou um embate verbal entre representantes americanos e a Embaixada da China na Argentina.

Em março, os Estados Unidos suspenderam os vistos de três funcionários chilenos que estavam envolvidos no projeto do cabo submarino Chile-China Express.

Beata Wojna, professora de Relações Internacionais do Tecnológico de Monterrey e ex-embaixadora da Polônia no México, comentou em uma publicação no X que “Muitos vistos foram revogados recentemente, e há duas lições importantes a serem aprendidas”.

Ela continuou sua análise, afirmando que “Obter um visto não é mais suficiente; agora também é preciso saber como mantê-lo. Vistos, assim como os de comércio, energia ou minerais críticos, estão se tornando instrumentos de pressão”.

Governo americano prepara nova estratégia de cancelamento em massa de vistos

O Departamento de Estado dos EUA confirmou que está desenvolvendo planos para cancelar vistos de trabalho ou negócios de milhares de indivíduos que entraram no país com essas permissões e, posteriormente, apresentaram pedidos de asilo.

Influenciadas pelas políticas anti-imigração da gestão Trump, as autoridades agora agem com menos hesitação na aplicação de medidas severas. Estima-se que o número total de pessoas impactadas por pedidos de asilo desde 2016 possa atingir 200 mil. Essa seria a maior iniciativa de revogação de vistos na história dos Estados Unidos.

Tommy Piggott, porta-voz do Departamento de Estado, confirmou que “Estamos coordenando com o Departamento de Segurança Interna para identificar e revogar os vistos de não imigrante de estrangeiros que vieram aos Estados Unidos alegando serem visitantes temporários, mas que depois solicitaram asilo para permanecerem aqui permanentemente”.

A respeito dos números, o porta-voz acrescentou: “Este é um processo contínuo, pois estamos zelando pela integridade de nossas leis de vistos e asilo. (…) O número de revogações continua a flutuar e será realizado gradualmente.”

A comunicação do Departamento de Estado reforçou ainda a declaração anterior do Secretário Rubio e do Subsecretário Landau: “Estamos deixando claro que um visto é um privilégio, não um direito”.

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