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Julie Tétart conta desafios como pivô trans no basquete francês

Julie Tétart - Instagram
Foto: Julie Tétart - Instagram
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Julie Tétart nasceu em Saint-Quentin, no norte da França. Antes de virar referência no basquete feminino, ela passou mais de vinte anos disputando ligas masculinas, principalmente pelo ESC Tergnier, clube amador multiesportivo da cidade. Segundo relatos de quem acompanhou sua trajetória, ela vivia, nas próprias palavras, “um verdadeiro inferno”.

Em outubro de 2021, aos 29 anos, ela se assumiu publicamente como transgênero. A repercussão negativa a afastou das quadras por três anos. Ao voltar pelo Monaco, virou símbolo dentro e fora do jogo, a ponto de despertar interesse de clubes da Ligue 1 francesa, da seleção da França e da WNBA, a liga norte-americana.

Desde os 5 anos, quando começou a jogar em sua cidade natal, ela sentia que não pertencia àquele universo. Foi por isso que, entre 2022 e 2024, decidiu passar por seis cirurgias de redesignação sexual e por terapia hormonal antes de retomar a competição.

“Este esporte é toda a minha vida, minha válvula de escape desde os 5 anos de idade. Quando voltei a jogar, me disseram que eu tinha talento, mas que estava fora de forma e não tinha as habilidades necessárias para competir. Tive que trabalhar muito duro para conseguir competir nesse nível. Meu objetivo nunca foi me tornar um símbolo, mas se eu puder ajudar alguém a dar um passo importante na vida, melhor ainda”, disse Tétart, em entrevista à emissora esportiva francesa RMC Sport.

Ela completou o raciocínio logo em seguida.

“Naquela época, eu gostaria de ter podido conversar com alguém, ter um ponto de referência em relação à identidade trans. Sei que estou me expondo ao falar abertamente, mas prefiro dedicar tempo e energia para explicar como é, e espero ter paz de espírito pelo resto da minha curta carreira. Ser transgênero é como ter olhos azuis ou ser canhoto: não é uma escolha, nem uma tendência. Sempre fez parte de mim. É algo que simplesmente aconteceu comigo, como o destino. Ser transgênero é como estar trancado no próprio corpo atrás das grades. É violento. É terrível”, afirmou.

Mesmo assim, ela seguiu em frente. Cada procedimento trazia dor considerável, mas também a sensação de estar mais próxima de si mesma.

“O principal procedimento foi nas minhas cordas vocais; minha laringe estreitou, e isso afeta minha respiração. Perdi capacidade pulmonar e massa muscular. É irreversível, mas não estou reclamando porque eu queria isso. Finalmente me tornei eu mesma, a verdadeira Julie, livre de todas as restrições e finalmente feliz”, contou a jogadora.

Fora das cirurgias, ela também precisou lidar com ataques constantes, dentro e fora das quadras. Nas redes sociais, recebeu mensagens como “morte às pessoas trans” e comentários transfóbicos direcionados ao seu corpo. Mesmo em partidas da Ligue 2, competição em que se destaca, ela é alvo frequente de insultos das arquibancadas.

A ala-armadora Stervinou Maud, companheira de Tétart no Monaco, comentou o assédio sofrido pela pivô.

“Os insultos são chocantes e nunca nos acostumaremos com eles. Tentamos defendê-la da melhor maneira possível. No entanto, não entendo por que ninguém intervém”, declarou Maud.

A própria Tétart lamenta a ausência de reação de árbitros e da segurança dos ginásios diante dos episódios.

“Infelizmente, nada acontece. Eles agem como se não tivessem ouvido ou visto nada e continuam jogando como se nada tivesse acontecido. É algo novo, sem precedentes, não estamos acostumados com isso, mas os comentários são degradantes e humilhantes. Quando há racismo, há sanções, e aqui nada acontece”, afirmou.

Aos 34 anos, Tétart é a artilheira da Ligue Féminine 2 pelo Monaco, com média de 21,9 pontos por partida, além de líder em rebotes, com 19,7 por jogo. Ela é a segunda jogadora transgênero a disputar o campeonato, depois de Aurore Pautou, de 43 anos, atleta do La Tronche-Meylan que sempre evitou aparecer publicamente.

Em março, a pivô francesa marcou 21 pontos e capturou 30 rebotes em uma única partida, número que estabeleceu novo recorde da liga. O desempenho lhe rendeu os títulos de Jogadora Nacional do Ano, Jogadora Defensiva do Ano e Jogadora do Ano da competição, embora ela não tenha sido eleita MVP da Ligue Féminine 2, decisão que provocou críticas de grupos de defesa de direitos trans.

Um treinador da liga, que preferiu não se identificar em reportagem da RMC Sport, afirmou que a presença de Tétart muda o equilíbrio dos jogos: “Há uma grande diferença no físico em relação às outras jogadoras e na sua capacidade de salto”. No podcast francês “Club Five”, as jogadoras Sara Crudo e Martina Bestagno debateram a possibilidade de a pivô francesa se inscrever no Draft da WNBA de 2027, depois de terem enfrentado Tétart na temporada 2025-26.

Bestagno, que já disputou partidas contra pivôs como Brittney Griner e Isabelle Yacoubou, descreveu o que torna Tétart diferente em quadra.

“Já enfrentei jogadoras muito altas como Brittney Griner e Isabelle Yacoubou, e elas são enormes. Provavelmente até maiores. Mas não se trata apenas de altura; o que faz Tétart se destacar é a combinação de tamanho e força, algo que eu nunca tinha visto antes. Fiquei incrivelmente impressionada com a diferença de força. A diferença é enorme”, disse Bestagno. Tétart tem 1,90 metro de altura e 91 quilos.

Já a italiana Sara Crudo, de 31 anos, foi mais dura ao avaliar as chances de Tétart chegar à WNBA.

“É injusto que estejam deixando Tétart jogar? Sim, absolutamente. Isso é demais, e eu detesto dizer isso, mas não entendo por que ninguém está falando nada. Ninguém chega à primeira divisão por acaso; é porque se trabalha muito duro. E aí, talvez, surja uma situação como a da Julie, que aos 30 anos, depois de ter passado pela puberdade, pode entrar na WNBA. Eu lutei a vida inteira para chegar a esse nível. Ela está tirando o lugar de outra mulher”, disse Crudo.

A ex-jogadora da WNBA Audrey Sauret, francesa, também se manifestou em abril sobre o caso, alertando ligas de todo o mundo.

“A Ligue 2 serve como uma espécie de campo de testes para a introdução de ideias da moda, mas ao permitir que elas participem de competições profissionais, criamos uma competição desleal, especialmente para as jogadoras mais jovens. Isso pode fechar portas e desmotivar atletas promissoras. Essa situação corre o risco de se tornar a norma, mesmo que seja regulamentada. Homens e mulheres não são iguais. Alterar os hormônios não elimina as diferenças de gênero”, escreveu Sauret.

Apesar das opiniões divergentes, a temporada de recordes disputada por Tétart na França reacendeu a discussão sobre um eventual futuro dela na liga americana.

“Se me contatarem, não direi não. Mas temos que ser realistas: sou mais velha e existem jogadoras muito melhores do que eu. É o sonho de qualquer jogadora, mas não sei se será possível, não por causa da liga, mas por causa do país”, disse Tétart, em entrevista ao veículo esportivo americano Outkick.

A própria WNBA nunca esclareceu publicamente se atletas trans podem disputar a liga. Nesse cenário, a armadora Sophie Cunningham, do Indiana Fever, ganhou repercussão ao declarar que quer “proteger o esporte feminino” e que atletas designadas do sexo masculino ao nascer não deveriam competir na liga.

“Quero proteger as jovens mulheres no vestiário, ou as jovens atletas que não deveriam ter que competir contra homens biológicos”, disse Cunningham, em entrevista à emissora esportiva americana ESPN.

O nome de Julie Tétart segue gerando debate no basquete feminino francês, entre torcedores, dirigentes e jogadoras que discutem seu possível caminho até a liga norte-americana.

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