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O Papa Leão XIV recebeu uma obra de arte singular, a “Esfera da Humanidade”, em um gesto que marca a intensificação de uma campanha para proteger a dignidade humana e definir os limites da inteligência artificial (IA). A entrega do objeto ocorreu durante uma Audiência Geral no início de setembro, sinalizando o apoio do pontífice a uma iniciativa que busca estabelecer diretrizes éticas para o avanço tecnológico.

A organização Saint Peter for Humanity foi a responsável pela apresentação, que visa iniciar um diálogo global sobre o papel da humanidade em um cenário tecnológico em constante evolução. Segundo Olivier Francois, presidente da entidade, é fundamental que a discussão sobre a IA inclua uma força crucial: a própria humanidade. O objetivo é assegurar que a tecnologia sirva às pessoas, amplie o potencial humano e promova o bem comum, em vez de se tornar uma ferramenta de dominação.

O simbolismo da “Esfera da Humanidade”

A “Esfera da Humanidade” é uma escultura de vidro de Murano, na cor verde, que incorpora passagens manuscritas da primeira encíclica do Papa Leão XIV, intitulada “Magnifica Humanitas”. A obra reflete sobre temas como dignidade humana, vulnerabilidade, solidariedade, consciência e os desafios impostos pela inteligência artificial. A peça, baseada em um design original da arquiteta e designer italiana Gae Aulenti, carrega uma mensagem central do pontífice: “Na era da inteligência artificial, quando a dignidade humana é ameaçada por novas formas de desumanização, nosso dever premente é permanecer profundamente humano.”

Este presente simbólico precede um evento crucial que a Saint Peter for Humanity está organizando. A iniciativa busca traduzir os princípios da encíclica em ações concretas, reforçando a visão do papa de que a tecnologia deve ser um instrumento para o avanço e não para a subjugação da essência humana. A escolha do vidro de Murano e a inclusão das palavras do próprio pontífice conferem à esfera um peso espiritual e cultural significativo.

A iniciativa “Codex Humanitatis” em Nova York

Na próxima semana, a organização Saint Peter for Humanity reunirá cerca de 70 líderes em Nova York para iniciar a redação do “Codex Humanitatis”. Este documento, uma iniciativa independente inspirada no chamado do Papa Leão XIV, visa salvaguardar a dignidade humana à medida que a inteligência artificial se torna cada vez mais poderosa e influente na vida das pessoas. O encontro contará com a participação de diversas personalidades:

  • Laureados com o Prêmio Nobel
  • Artistas e pensadores
  • Filantropos
  • Especialistas em tecnologia e IA

O foco principal do debate será a pergunta mais desafiadora dos nossos tempos: “À medida que a inteligência artificial se torna ainda mais poderosa, o que deve permanecer humano?”. Olivier Francois enfatizou a importância de definir o que mais valorizamos em nós mesmos antes de delegar tarefas e decisões às máquinas. Este esforço coletivo busca, portanto, estabelecer um marco ético para a coexistência entre a humanidade e a IA, garantindo que os avanços tecnológicos estejam alinhados com valores fundamentais.

Os alertas do pontífice sobre a inteligência artificial

Em sua encíclica “Magnifica Humanitas”, lançada em maio, o Papa Leão XIV alertou que a IA corre o risco de se tornar uma ferramenta de “dominação, exclusão e morte”. O pontífice sublinhou que cada geração herda a tarefa de moldar sua própria era, guiando a história para um futuro onde a dignidade de cada pessoa seja protegida, a justiça promovida e a fraternidade seja possível. No entanto, ele também ressaltou que “toda era corre o risco de criar um mundo desumano e mais injusto”.

Para que a IA respeite a dignidade humana e sirva verdadeiramente ao bem comum, o Papa defende que a responsabilidade deve ser claramente definida em todas as etapas, desde o design e desenvolvimento dos sistemas até o uso e a confiança em suas decisões. A opacidade dos processos internos da IA, segundo ele, dificulta a atribuição de responsabilidade e a correção de erros, tornando a prestação de contas um aspecto crucial. A capacidade de identificar quem deve “responder” por decisões, justificá-las, monitorá-las e, se necessário, contestá-las e remediar danos é essencial para um desenvolvimento ético da tecnologia.

O apelo do Papa Leão XIV por prudência, avaliação rigorosa e, por vezes, um ritmo mais lento na adoção da IA não significa uma oposição ao progresso. Pelo contrário, é um exercício de cuidado responsável pela família humana. Esta necessidade é ainda mais urgente devido ao desequilíbrio frequente entre a velocidade do crescimento tecnológico e o desenvolvimento mais lento da consciência, normas, salvaguardas e instituições capazes de governar seus efeitos. O pontífice enfatiza que não basta invocar a ética em abstrato; são necessários quadros jurídicos robustos, supervisão independente, usuários informados e um sistema político que não abdique de sua responsabilidade, para evitar que a mudança seja governada apenas pelo pensamento tecnocrático e imposta como inevitável por aqueles que controlam dados, infraestrutura e poder computacional.

Próximos passos e alcance global

A Saint Peter for Humanity detalhou que os participantes do encontro em Nova York trabalharão em dez grupos distintos para desenvolver um primeiro rascunho do “Codex Humanitatis”. Este documento abordará questões essenciais para o futuro, incluindo o futuro do trabalho, a responsabilidade, a integridade da informação, a supervisão humana e a proteção de crianças e famílias na era digital. Esta abordagem colaborativa visa cobrir uma ampla gama de impactos da IA na sociedade.

Após a elaboração do rascunho inicial, o Codex entrará em um processo de consulta global, permitindo a contribuição de diversas perspectivas e culturas. Somente após essa fase de refinamento, o documento será transformado em um conjunto final de princípios. A organização planeja engajar governos, empresas e instituições internacionais para traduzir esses princípios em práticas concretas, incluindo a participação ativa no Fórum Econômico Mundial em Davos. Este plano ambicioso demonstra o compromisso de garantir que a IA seja desenvolvida e utilizada de forma a beneficiar toda a humanidade, respeitando seus valores mais profundos.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2011. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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