Brasileira sofre aborto espontâneo, entra em crise e é presa pelo ICE nos EUA

Polícia ICE, EUA - Mehaniq / Shutterstock.comPolícia ICE, EUA - Mehaniq / Shutterstock.com

Polícia ICE, EUA - Mehaniq / Shutterstock.com

A faxineira brasileira Iara do Carmo Santana, de 29 anos, foi liberada da custódia do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) em Massachusetts após uma decisão judicial conceder habeas corpus de emergência em favor da imigrante. A retenção ocorreu depois que o companheiro dela acionou o serviço telefônico de emergência 911 para solicitar atendimento médico durante um quadro de depressão decorrente de perda gestacional.

O juiz federal Leo T. Sorokin, do Tribunal Distrital de Massachusetts, determinou a soltura imediata da brasileira, impedindo que ela fosse transferida para outro estado ou deportada sumariamente do país. O advogado de imigração e defesa de Iara, Todd Pomerleau, contestou a ação das autoridades policiais no episódio. “O Gabriel não estava dizendo ‘ei, prendam ela, ela está me machucando’. Ele estava dizendo ‘ei, ajudem ela’”, declarou o defensor.

Chamado médico e atuação policial em Malden

O noivo de Iara, Gabriel Lemos, possui residência permanente legal no país e relatou ter feito a ligação para conseguir auxílio médico diante do sofrimento emocional da companheira. No fim de agosto de 2026, a imigrante havia sofrido um aborto espontâneo na sexta semana de gestação, passando por procedimento cirúrgico de esvaziamento uterino e necessitando de tratamento medicamentoso contínuo para conter um quadro infeccioso.

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“Eu moro neste país há 11 anos e já tinha chamado a emergência outras vezes”, afirmou Gabriel Lemos, indicando que esperava a chegada de uma equipe de socorristas. Ao chegarem ao endereço, agentes do departamento de polícia local detiveram a brasileira sob acusação de agressão doméstica com arma perigosa, alegando que ela havia atingido o companheiro com uma prancha de cabelo, versão rejeitada formalmente pelo casal perante a Justiça.

Transferência da custódia local para agentes federais de imigração

Iara permaneceu por seis horas na delegacia de polícia da cidade de Malden. Durante o procedimento de triagem, as impressões digitais da brasileira foram cadastradas no sistema integrado do Departamento Federal de Investigação (FBI), ferramenta compartilhada com agências federais norte-americanas que alertou as equipes de fiscalização migratória.

Agentes do ICE abordaram e interceptaram a imigrante no momento em que ela recebia a liberação da custódia municipal. O órgão federal planejava transferir a mulher para um centro de detenção localizado no estado da Louisiana, procedimento que acabou barrado pela decisão da Justiça Federal.

Iara do Carmo Santana presa ICE – Reprodução

Condições no centro de retenção de Burlington

A brasileira permaneceu por quatro dias, somando três noites, sob a guarda do escritório de campo da imigração em Burlington, instalação temporária que acumulava registros anteriores de denúncias por ausência de camas, falta de assistência médica adequada e permanência prolongada de detidos. Iara relatou ter dormido no chão da cela, sem acesso aos antibióticos prescritos, o que provocou o agravamento da infecção uterina e dificuldades de locomoção.

“Lá dentro você não sabe se é dia ou noite, não tem como contar as horas, e eu precisava tomar o medicamento certinho, mas eles não me davam”, afirmou a imigrante, que também apontou a ausência de tradutores da língua portuguesa durante o período de isolamento. Sobre as queixas referentes à estrutura e aos cuidados oferecidos aos detidos na instalação de Burlington, um porta-voz do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos declarou previamente que as alegações de falta de assistência eram “categoricamente falsas”, em tradução livre.

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Histórico do processo migratório e situação judicial

Os registros oficiais detalham a trajetória documental e os prazos legais que envolvem a estadia da família nos Estados Unidos:

  • 1 de julho de 2021: Iara entrou no território americano pela região de San Ysidro, na Califórnia, sendo liberada para responder ao processo regular de pedido de asilo humanitário com autorização formal de trabalho.
  • 6 semanas e 3 dias: período de desenvolvimento da gestação quando houve a interrupção dos batimentos cardíacos fetais em agosto de 2026.
  • 6 anos: idade do filho de Iara que reside com o casal no estado de Massachusetts.
  • 8 de setembro de 2026: expedição da ordem de soltura pelo Tribunal Distrital de Massachusetts, garantindo que ela não fosse expulsa sumariamente.
  • 2029: ano agendado para a realização da audiência principal que avaliará a concessão definitiva do pedido de asilo da brasileira.

Com a atuação do advogado Jason Thomas na corte municipal de Malden, Iara Santana responde atualmente em liberdade à acusação formulada pela polícia local. A data exata para a próxima sessão judicial sobre a queixa de agressão doméstica na comarca de Malden não foi informada publicamente.