Uma mulher haitiana de 31 anos morreu de hipotermia três dias após ser liberada da custódia do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos Estados Unidos (ICE). O legista do condado de Allegheny, na Pensilvânia, classificou a morte como homicídio.
Daphy Michel foi encontrada em um ponto de ônibus em Pittsburgh. Imagens de câmeras de segurança mostram que ela permaneceu sentada no mesmo banco por dias, vestindo apenas um moletom, com uma sacola contendo seus pertences ao lado. Socorristas a levaram para o hospital no dia 2 de março, onde ela faleceu.
Legista classifica morte como homicídio
O médico legista descreveu Michel como uma adulta vulnerável, com graves problemas de saúde mental não tratados e barreira linguística significativa no momento da liberação pelo ICE, em 27 de fevereiro. A conclusão de homicídio indica que a morte resultou de ações ou omissões de terceiros, mas não equivale a uma acusação criminal.
Caso se repete em 2026
Esta é a segunda morte por complicações de hipotermia envolvendo imigrantes liberados pelo ICE neste ano. Em fevereiro, em Buffalo, no estado de Nova York, o refugiado Nurul Amin Shah Alam, de 56 anos, originário de Mianmar e com deficiência visual, foi deixado do lado de fora de uma cafeteria fechada em dia frio. Seu corpo foi encontrado dias depois e a morte também foi classificada como homicídio.
As semelhanças entre os dois casos reacendem o debate sobre os protocolos de liberação do ICE para pessoas com vulnerabilidades. As regras internas da agência preveem que agentes considerem condições de saúde, forneçam ligação telefônica gratuita e escolham locais próximos a transporte público em horário de funcionamento.
Histórico de Michel
Michel chegou aos Estados Unidos em 2022 pedindo asilo humanitário. Ela vivia na comunidade haitiana de Charleroi, na Pensilvânia. Em setembro do ano passado, foi presa pela polícia local após incidentes na rua envolvendo “pessoas imaginárias”, o que levou a acusações de ameaças terroristas e assédio. Passou seis meses na prisão, onde passou por avaliações psiquiátricas. Um juiz arquivou o caso, entendendo que não havia como processá-la por ameaças contra pessoas inexistentes.
Após a prisão, o ICE a deteve novamente. Colocou uma tornozeleira eletrônica e a transferiu para Pittsburgh, a cerca de 40 km de distância. Seu irmão, com quem morava, não foi avisado da liberação. Ele só soube do ocorrido quando o necrotério o contatou, três dias após a morte.
O advogado da família, Joseph Patrick Murphy, criticou a forma como a liberação ocorreu. “Até uma criança de 10 anos poderia fazer mais para ajudar”, disse ele. A família pretende processar o ICE.
Contexto migratório haitiano
Michel deixou o Haiti em meio à instabilidade que se agravou após o assassinato do presidente Jovenel Moïse em 2021. Muitos haitianos buscaram proteção nos EUA durante o governo Biden, mas enfrentaram maior risco de deportação com o retorno de Donald Trump à Presidência. Organizações como a Haitian Bridge Alliance cobraram do Departamento de Segurança Interna (DHS) medidas para evitar que imigrantes em situação de vulnerabilidade sejam abandonados.
Em nota, o DHS afirmou que Michel foi liberada com todos os pertences e que o ICE “não teve nada a ver com a morte”. A porta-voz Lauren Bis destacou que a mulher faleceu três dias após o contato com a agência. Na data, as temperaturas em Pittsburgh chegaram a 13°C durante o dia, mas caíram drasticamente à noite com a chegada de uma frente fria.

