O processo de cisão da Azzas 2154 em duas companhias abertas e independentes na B3 colocou a marca Farm Rio no centro das atenções de analistas financeiros e investidores. A reorganização anunciada em 2 de setembro de 2026 prevê a separação dos negócios entre Arezzo&Co e Grupo Soma, enquanto a grife carioca permanecerá isolada em uma estrutura societária própria. Com a nova modelagem corporativa, analistas de mercado estimam que a avaliação econômica isolada da Farm Rio gire em torno de US$ 500 milhões, cerca de R$ 2,5 bilhões, montante muito próximo de todo o valor de mercado atribuído ao conglomerado antes do anúncio da cisão, que somava pouco mais de R$ 3 bilhões.
A divisão encerra imediatamente as disputas judiciais e procedimentos arbitrais que ocorriam entre os empresários Alexandre Café Birman e Roberto Luiz Jatahy Gonçalves, que haviam iniciado litígios após a união de ativos em 2024. Segundo fato relevante divulgado pela companhia, “a próxima etapa de desenvolvimento dos negócios exige maior foco, autonomia de gestão, clareza de responsabilidades e disciplina na alocação de capital”.
Valuation da grife carioca e expansão no mercado internacional
A avaliação expressiva atribuída à Farm Rio pelos analistas reflete os números de expansão da marca fora do Brasil. No acumulado de 2025, a grife registrou faturamento de R$ 3,4 bilhões, dos quais R$ 2,1 bilhões foram gerados no mercado doméstico e R$ 1,3 bilhão em operações no exterior, o que representou uma alta de 22,4% na comparação com o ano anterior. A empresa opera lojas físicas nos Estados Unidos, no Reino Unido e nos Emirados Árabes Unidos, além de pontos de venda temporários em cidades europeias como Ibiza.
Para Roberto Kanter, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), a independência da operação evidencia ativos que ficavam escondidos dentro da holding. O especialista afirmou que “Arezzo, Schutz, Farm, Hering, Animale e Reserva possuem posicionamentos, públicos, margens e perspectivas de crescimento diferentes. Por isso, duas marcas com faturamentos semelhantes podem receber avaliações econômicas bastante distintas”. Danielle Lopes, sócia e analista de ações da Suno Research, avalia que o diferencial externo da grife carioca tem capacidade de se sobrepor às oscilações habituais do consumo brasileiro.
Divisão dos portfólios entre calçados e vestuário
O acordo societário definiu a partilha de ativos e participações entre os dois grupos industriais:
- Arezzo&Co: concentrará os calçados e bolsas de Arezzo, Schutz, Anacapri, Alexandre Birman, Vans, Vicenza, Paris Texas e Brizza, além da marca de vestuário básico Hering, da grife Carol Bassi e do shopping virtual ZZ Mall, sob comando do bloco de Alexandre Birman, que deterá 32,13% do capital social.
- Grupo Soma: reunirá os selos de vestuário premium feminino e masculino Animale, Cris Barros, Maria Filó, NV, Reserva e suas linhas derivadas, Oficina e Foxton, com 25,95% de participação nas mãos do bloco liderado por Roberto Jatahy.
- Sociedade Farm Rio: funcionará como empresa independente fora da divisão direta, com fatia de 57,4% pertencente à Arezzo&Co e 42,6% ao Grupo Soma, com Roberto Jatahy exercendo a presidência executiva.
Encolhimento de valor na Bolsa motivou cisão do conglomerado
A perda expressiva de capitalização da Azzas 2154 ao longo de dois anos pesou de forma determinante para que os blocos controladores decidissem desfazer a integração operacional. Em 5 de fevereiro de 2024, quando a proposta de união entre Arezzo&Co e Grupo Soma foi firmada, a combinação de negócios chegou a ser avaliada em R$ 12 bilhões. No entanto, quando as ações começaram a ser negociadas sob a nova estrutura em agosto de 2024, o valor de mercado inicial recuou para R$ 10 bilhões, acumulando desde então uma desvalorização de quase R$ 7 bilhões em decorrência de atritos na governança corporativa, desentendimentos em torno da marca Reserva e do cenário macroeconômico desfavorável para o varejo de moda.
Impacto para os investidores e próximos passos do processo
Os acionistas com posições na Azzas 2154 na B3 passarão por uma permuta de ações, recebendo papéis distribuídos proporcionalmente entre Arezzo&Co e Grupo Soma quando a cisão for efetivada. A operação não exige desembolso de recursos pelos investidores minoritários, mas a liquidez definitiva das duas novas empresas abertas ainda depende do cumprimento de exigências regulatórias e da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
O prazo máximo fixado para o encerramento de todas as etapas regulatórias e formalização da reorganização na B3 é 31 de março de 2027. Antes disso, o mercado aguarda a conclusão da análise conduzida pelo banco Morgan Stanley, contratado em 19 de junho de 2026 para negociar opções estratégicas e eventual venda da Farm Rio, com prazo final fixado em 30 de setembro de 2026 para a entrega de propostas não vinculantes por fundos e grupos interessados.

