Crimes

Criminosos usam TikTok e Telegram para vender abuso sexual infantil

Criminoso usa PIX para vender conteúdo de abuso sexual infantil - Reprodução
Criminoso usa PIX para vender conteúdo de abuso sexual infantil - Reprodução

Criminosos que vendem material de abuso sexual infantil utilizam comentários em postagens do TikTok como vitrine para redirecionar compradores a canais restritos no Telegram. A apuração conduzida pelo repórter Darlan Helder revelou que os operadores do esquema prometem falsamente que os pagamentos efetuados via Pix não deixam rastros, utilizando contas bancárias abertas em nome de terceiros para receber os repasses ilícitos.

Em uma das negociações monitoradas pelas apurações divulgadas neste domingo (27), um vendedor confirmou o esquema ao declarar que operava com a conta de uma terceira pessoa para mascarar a origem dos recursos. “Não [será rastreado], porque esse banco que eu tô usando é de uma menina. Eu recebo muito PIX nele. Já já cai a conta. Daí seu PIX nunca existiu kkkk”, afirmou o interlocutor durante o contato mantido no aplicativo de mensagens.

Falsas promessas de anonimato no Pix e ação da Polícia Federal

Abuso infantil
Foto: Abuso infantil – Tinnakorn jorruang/Shutterstock.co

A Polícia Federal esclareceu que qualquer transferência realizada pelo arranjo Pix gera registros bancários permanentes, vinculando os dados do pagador e do recebedor nas instituições financeiras. Esses registros são fornecidos aos investigadores mediante autorização legal, permitindo que a corporação identifique tanto quem lucra com a exploração sexual quanto os compradores individuais dos arquivos ilícitos. Diferentemente da alegação disseminada nos fóruns clandestinos, o encerramento posterior de uma conta bancária não apaga o histórico de transações armazenado nos sistemas do Banco Central.

Os investigados utilizavam como chave de identificação bancária um endereço de correio eletrônico corporativo com o sufixo “@estudante.rs.gov.br”, vinculado à estrutura educacional do Rio Grande do Sul. Questionada formalmente sobre o envolvimento de seu domínio na movimentação de valores, a Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul declarou que “está em contato com as autoridades policiais para a apuração desse caso”.

Saiba mais: Índia intensifica vigilância sobre Telegram por suspeitas de crimes cibernéticos e abuso infantil

Dados da apuração jornalística sobre o comércio ilegal

  • Data da apuração complementar: 27 de setembro de 2026, às 04h00
  • Perfis monitorados no aplicativo TikTok: mais de 30 contas sob análise
  • Instituição de ensino ligada ao e-mail fornecido: rede estadual do Rio Grande do Sul
  • Plataformas digitais envolvidas: TikTok para atração e Telegram para envio de arquivos
  • Data inicial da investigação sobre a vitrine virtual: 25 de setembro de 2026

Valores cobrados por pacotes de fotos e grupos clandestinos

Dentro dos canais operados no aplicativo Telegram, os envolvidos apresentavam tabelas com cobranças escalonadas conforme o volume de arquivos digitais oferecidos, variando desde quantias baixas para arquivos compactados até taxas maiores para adesão definitiva a comunidades virtuais restritas.

Leia também: Ex-estrela pop Gary Glitter nega oito acusações de abuso sexual histórico

  • R$ 10: pacote inicial contendo 3 gigabytes de arquivos de fotos e vídeos
  • R$ 20: taxa estipulada para garantir entrada vitalícia em canal com atualizações de conteúdo
  • R$ 35: pacote intermediário composto por 15 gigabytes de material de violência
  • US$ 25 (cerca de R$ 130): cobrança internacional para ingresso em grupo com acervo de milhares de vídeos

Contas de vítimas e manobras contra Coaf e Banco Central

Investigadores da Polícia Federal constataram que os exploradores recorrem com frequência a contas pertencentes a ex-namoradas ou às próprias crianças e adolescentes que foram vítimas de abusos anteriores. O mecanismo tem como objetivo desvincular o operador principal do fluxo financeiro, transferindo a titularidade aparente da transação para pessoas em situação de vulnerabilidade, que muitas vezes desconhecem a totalidade da movimentação operada em seu nome.

Para contornar os sistemas de conformidade do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e as exigências prudenciais do Banco Central, as redes especializadas têm migrado as operações financeiras para bancos digitais e empresas de tecnologia financeira caracterizadas por controles cadastrais mais frágeis. Em determinados casos averiguados pelos agentes federais, os suspeitos chegam a constituir pessoas jurídicas formais no próprio segmento de serviços financeiros para movimentar valores ilícitos sem responder a requisições de órgãos fiscalizadores.

Antes de fechar os pagamentos via transferência bancária, os distribuidores costumavam encaminhar prévias visuais configuradas com mecanismo de autodestruição após visualização única. Esse procedimento técnico servia como demonstração de posse dos arquivos para atrair os clientes e dificultar a coleta de provas pelas equipes de segurança das plataformas.

Moderação no TikTok e remoção de canais no Telegram em 2026

As empresas responsáveis pelos aplicativos informaram as medidas de segurança adotadas para coibir a distribuição desse tipo de arquivo em suas estruturas. O Telegram reportou ter eliminado mais de 339.760 canais e grupos vinculados à exploração de menores durante o ano de 2026, valendo-se do cruzamento de bases de dados mantidas por organizações de proteção e da análise de conteúdos públicos.

O TikTok informou que atua de forma permanente contra usuários que burlam regras com termos disfarçados em áreas públicas. “Utilizamos tecnologia de ponta e sistemas robustos para monitorar e remover qualquer conteúdo que tente explorar ou causar danos a jovens”, declarou o porta-voz do serviço, destacando que 99,8% das postagens que violaram as políticas contra violência e exploração infanto-juvenil no primeiro trimestre de 2026 foram suprimidas proativamente pelos filtros automatizados.

Apuração em andamento e canais oficiais para denúncias

A identidade civil do suspeito que comercializava o acervo nas salas virtuais ainda não foi confirmada pelos investigadores. Permanece sem confirmação oficial se a titular da conta de e-mail institucional pertencente à rede pública gaúcha figurava como vítima direta do grupo criminoso ou se teve seus documentos pessoais usurpados sem consentimento para a abertura da chave bancária.

Casos de risco iminente ou agressão contra crianças e adolescentes devem ser comunicados à Polícia Militar pelo telefone 190 ou ao Disque 100, serviço público federal que acolhe registros sob garantia de anonimato para encaminhamento aos conselhos tutelares e delegacias especializadas.

To Top

Sua privacidade

O Mix Vale usa cookies para medir audiência e exibir anúncios que sustentam a redação. Você escolhe. Saiba mais.