O telescópio espacial Chandra, operado pela Nasa, permitiu a identificação de uma classe inédita de corpos celestes batizada como fontes de raios X hipersuaves. O estudo científico detalhando as características dos corpos celestes saiu na revista Nature Astronomy após análise de arquivos coletados ao longo de quase duas décadas de operação em órbita.
Os pesquisadores detectaram incialmente 84 emissores com esse comportamento peculiar ao vasculhar registros obtidos entre 1999 e 2017. “Nunca encontramos um grupo de objetos que age desse jeito. O próximo passo, claro, foi tentar descobrir o que essas coisas são”, afirmou Mustafa Muhibullah, pesquisador da Universidade do Alabama e autor principal do trabalho.
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Chandra desvenda faixa oculta de radiação cósmica
Os objetos recém-classificados destacam-se por emitir radiação quase que unicamente em frequências de baixíssima intensidade energética, sumindo completamente nas leituras de raios X tradicionais. O sinal medido concentra-se na faixa entre 0,15 e 0,3 quiloeletronvolts (keV), gerando também fluxos contínuos no espectro do ultravioleta extremo.
Nas observações registradas pelos instrumentos, os corpos celestes registraram uma proporção mínima de emissão de oito fótons na faixa inferior a 0,3 keV para cada fóton individual identificado na faixa imediatamente superior. Esse desequilíbrio acentuado explica a invisibilidade desses pontos luminosos nos catálogos tradicionais compilados nas últimas décadas.
Durante muito tempo, dados captados nessa faixa inferior acabavam descartados pelos astrofísicos devido ao receio de falhas de calibração no instrumento ACIS ou interferência de ruídos nos sensores. Além disso, a radiação no extremo ultravioleta sofre forte bloqueio pelos átomos neutros de hidrogênio e hélio presentes na própria Via Láctea, o que gerou um ponto cego histórico nas buscas por emissores celestes suaves.
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M31 Andrómeda galaxy by Ben's astropotograpy. pic.twitter.com/OtQ7hebtoH— The Space Tech Guy (@Thespacetechguy) September 28, 2026
A identificação inicial concentrou-se em galáxias vizinhas com estruturas distintas, analisando tanto formações espirais quanto sistemas elípticos mais massivos:
- M31, conhecida popularmente como a galáxia de Andrômeda;
- M101, estrutura espiral catalogada como Galáxia do Catavento;
- NGC 3115, galáxia elíptica com alta densidade estelar;
- NGC 3379, formação elíptica localizada no grupo Leo I;
- NGC 4697, aglomerado elíptico situado no grupo de Virgem.
Mistério das supernovas do Tipo Ia ganha novas pistas
O achado oferece respostas potenciais para dois enigmas da astrofísica contemporânea. O primeiro envolve a busca pelos sistemas precursores das supernovas do Tipo Ia, explosões termonucleares uniformes utilizadas pelos cientistas como réguas cósmicas para calcular distâncias e medir a taxa de aceleração da expansão do universo.
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“Se conseguíssemos encontrar uma forma de identificar essas explosões de supernova tipo Ia antes que aconteçam, isso seria muito importante”, declarou o professor de Física e Astronomia Jimmy Irwin, coautor do estudo na Universidade do Alabama. “Eles não são anomalias insignificantes e raras difíceis de encontrar”, completou o professor, em tradução livre.
O segundo enigma diz respeito aos mecanismos que mantêm ionizado o gás disperso nos espaços interestelar e intergaláctico. Como essas fontes hipersuaves liberam quantidades gigantescas de fótons no ultravioleta extremo, a presença acumulada de milhares desses sistemas pode fornecer a energia térmica necessária para arrancar elétrons dos reservatórios gasosos dispersos pelo cosmos.
Amostragem do Chandra cresce para 145 objetos
Depois de consolidar o primeiro catálogo com 84 corpos celestes, a equipe estendeu o método de triagem e examinou outras quatro galáxias vizinhas. O rastreamento ampliado elevou para 145 o total de fontes hipersuaves confirmadas nos dados de arquivo. A astrofísica Rosanne Di Stefano, do Center for Astrophysics Harvard e Smithsonian, apontou que a revisão criteriosa de imagens antigas abriu uma frente de pesquisas que estava obscurecida.
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Os astrônomos trabalham agora na delimitação física dos sistemas encontrados, avaliando hipóteses concorrentes sobre a estrutura interna desses emissores:
- Sistemas binários formados por anãs brancas que acumulam matéria de estrelas companheiras até a borda de instabilidade;
- Estrelas de nêutrons e buracos negros compactos capturando material circum-estelar;
- Remanescentes térmicos de explosões de pós-novas em processo gradual de resfriamento superficial.
A definição sobre qual modelo corresponde à realidade física de cada emissor ainda depende de medições espectroscópicas adicionais e do monitoramento contínuo das galáxias vizinhas.
