O cabelo humano não é empurrado de baixo para cima pela multiplicação de células na raiz, mas sim puxado ativamente para fora por forças mecânicas exercidas pelo tecido ao redor do folículo. A descoberta foi realizada por cientistas da L’Oréal Research and Innovation, na França, e da Queen Mary University of London, no Reino Unido, após filmagens tridimensionais em tempo real de folículos capilares mantidos vivos fora do corpo humano.
A investigação contraria os manuais clássicos de biologia e dermatologia ao demonstrar que o motor principal da saída do fio é a bainha radicular externa, estrutura celular que reveste internamente o folículo. Conforme afirmou Inês Sequeira, professora e pesquisadora de Biologia Oral e Cutânea na Queen Mary University of London, os resultados revelam uma coreografia no interior do folículo capilar, superando décadas de suposição de que o cabelo era empurrado por células em divisão no bulbo e demonstrando que ele é ativamente puxado para cima pelo tecido circundante, que age quase como um pequeno motor.
Microscopia 3D em tecidos humanos revela movimento em espiral no folículo capilar
Para desvendar o processo físico de crescimento, os pesquisadores utilizaram microscopia multifotônica em três dimensões com técnica de time-lapse, método que captura imagens sequenciais em intervalos regulares para compor vídeos de alta precisão. Os tecidos analisados foram obtidos a partir de procedimentos cirúrgicos humanos, como cirurgias plásticas de rejuvenescimento facial, dispensando o uso tradicional de camundongos nos testes laboratoriais.
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As análises mostraram que a bainha radicular externa, até então descrita na literatura médica como um invólucro estático de suporte, realiza um movimento contínuo e descendente em espiral, direcionado para a base do bulbo capilar. Esse deslocamento funciona de maneira análoga a uma rosca mecânica: ao se moverem para baixo enquanto permanecem conectadas às camadas internas do fio por filamentos contráteis de actina, as células exercem uma tração vertical que impulsiona o miolo do cabelo para a superfície da pele.
“Enquanto imagens estáticas fornecem apenas instantâneos isolados, a microscopia em time lapse 3D é indispensável para realmente desvendar os intrincados e dinâmicos processos biológicos dentro do folículo capilar”, disse Nicolas Tissot, pesquisador da equipe de Pesquisa Avançada da L’Oréal e primeiro autor do estudo.
Fio de cabelo continuou subindo por 24 horas após remoção cirúrgica do bulbo
A equipe conduziu experimentos específicos para isolar a influência da divisão celular da matriz capilar da força exercida pela bainha radicular. Os pesquisadores removeram cirurgicamente a base do bulbo onde ocorre a mitose celular e observaram que a extrusão do fio continuou de forma autônoma pelo tecido restante.
- 24 horas foi o período em que o fio capilar continuou a se deslocar para cima mesmo após a extração cirúrgica completa do bulbo
- 90 horas consistiu no tempo total de monitoramento individual contínuo das células em folículos mantidos vivos sob observação tridimensional
- 24% representou a taxa de desaceleração na velocidade de subida do fio quando aplicada uma substância química inibidora da divisão celular
- 82% correspondeu à redução na velocidade de avanço do cabelo ao ser introduzida a latrunculina B, inibidor que relaxa as fibras contráteis de actina
Os números demonstraram que a proliferação de novas células na matriz da raiz contribui de maneira secundária para a velocidade de saída do fio. O elemento determinante para a ejeção física é a tensão gerada pela contração das fibras proteicas da bainha radicular externa, que puxa a haste capilar para fora do couro cabeludo de forma coordenada.
Nature Communications publicou estudo que supera modelo do bulbo capilar como pistão
Durante décadas, o modelo aceito pela comunidade científica estabelecia que o acúmulo de novas células produzidas na base do bulbo criava uma pressão interna ascendente contínua, semelhante ao funcionamento de um êmbolo ou pistão que empurrava as partes queratinizadas para a superfície externa da pele. O novo modelo demonstra que a produção de massa de queratina na base e a extrusão mecânica são fenômenos biologicamente conectados, mas executados por forças distintas.
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O artigo científico intitulado “Mapeamento da dinâmica celular em folículos capilares humanos ex vivo sugere mecanismo de tração no crescimento capilar”, em tradução livre, foi publicado na revista Nature Communications em 21 de novembro de 2025. O projeto foi detalhado institucionalmente pela Queen Mary University of London em 3 de dezembro de 2025 e divulgado pela imprensa em 27 de setembro de 2026.
“Isso revela que o crescimento do cabelo não é impulsionado apenas pela divisão celular – em vez disso, a bainha radicular externa puxa ativamente o cabelo para cima”, declarou Thomas Bornschlögl, pesquisador e líder de projeto na L’Oréal Research and Innovation.
Descoberta sobre cabelo abre caminhos contra alopecia, mas não tem remédio no mercado
A descoberta abre novas frentes de estudo para condições como alopecia e outras formas de queda de cabelo, permitindo direcionar futuras investigações para o tônus celular e a capacidade de contração da bainha radicular externa em folículos enfraquecidos. A possibilidade de cultivar e monitorar folículos humanos vivos fora do organismo também acelera ensaios pré-clínicos sem dependência de cobaias animais.
Até o momento, não existe nenhuma aplicação clínica, fórmula cosmética ou medicamento disponível no mercado que tenha como base a ativação da contração mecânica da bainha radicular externa. Os dados obtidos pertencem ao campo da pesquisa biológica fundamental, e testes adicionais em escala laboratorial continuam em desenvolvimento pelas instituições responsáveis.

