Excesso de peso lidera fatores de risco para mortes precoces e supera pressão alta no Brasil

Obesidade, sedentarismo - Studio Romantic / shutterstock.comObesidade, sedentarismo - Studio Romantic / shutterstock.com

Obesidade, sedentarismo - Studio Romantic / shutterstock.com

O índice de massa corporal elevado assumiu o primeiro lugar entre os fatores de risco para mortes precoces e anos vividos com incapacidade no Brasil, superando a hipertensão arterial. A conclusão consta no Estudo Global de Carga de Doenças, publicado na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, que analisou a evolução dos indicadores de saúde da população brasileira ao longo de mais de três décadas.

A virada no ranking ocorreu em 2023, após um crescimento acumulado de 15,3% no risco atribuído ao sobrepeso e à obesidade desde 1990. No sentido oposto, a pressão alta caiu para a segunda posição e a glicemia elevada passou a ocupar o terceiro lugar nacional, refletindo políticas de atenção primária que controlaram problemas cardiovasculares clássicos, mas não impediram a expansão do ganho de peso.

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Estudo aponta avanço de 15,3% no risco ligado ao IMC elevado

Foto: Obesidade, Cirurgia Bariátrica – Foto: Africa Studio/ Shutterstock.com

A análise mobilizou uma rede com cerca de 200 pesquisadores brasileiros em cooperação com o Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde, da Universidade de Washington. O levantamento científico Burden of disease and life expectancy decomposition in Brazil, disponibilizado pelo periódico em 17 de março de 2026, detalhou como as causas de mortalidade se transformaram no território nacional desde o início da série histórica.

Em 1990, o quadro epidemiológico brasileiro era liderado por hipertensão arterial, tabagismo e poluição do ar. Naquele período, o excesso de peso figurava apenas na sétima colocação. Trinta e três anos depois, o controle do tabagismo e a ampliação de tratamentos reduziram a mortalidade geral por acidente vascular cerebral, mas as doenças cardíacas superaram o AVC e assumiram o posto de principal causa de morte no país.

A divulgação desses dados ganha relevância nesta terça-feira (29), data em que se celebra o Dia Mundial do Coração, momento em que entidades médicas reforçam o alerta sobre os impactos da gordura corporal no sistema circulatório.

  • IMC elevado: subiu da 7ª posição em 1990 para o 1º lugar em 2023, com alta de 15,3% no risco atribuído.
  • Hipertensão arterial: recuou da 1ª colocação em 1990 para o 2º lugar em 2023.
  • Glicemia elevada: consolidou-se como o 3º principal fator de risco à saúde da população.
  • Poluição do ar por material particulado: registrou redução de 69,5% no risco atribuído no período.
  • Tabagismo, prematuridade e colesterol LDL: apresentaram queda de cerca de 60% nos riscos relacionados desde 1990.
  • Proporção de fumantes: diminuiu de um terço da população brasileira para cerca de um décimo em três décadas.

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Comparativo dos fatores de risco avaliados no Brasil entre 1990 e 2023

Obesidade atinge vasos sanguíneos e sobrecarrega o coração

O diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia e professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, Elzo Mattar, explica que entre 70% e 75% das pessoas diagnosticadas com obesidade também sofrem de hipertensão arterial. A gordura corporal em excesso provoca inflamação crônica nos tecidos vasculares, danificando a parede das artérias e acelerando a formação de placas de gordura.

“A obesidade não tem cura, tem controle. O organismo guarda a memória do maior peso e trabalha o tempo todo para recuperá-lo”, afirmou Elzo Mattar. O médico pontuou ainda as barreiras biológicas enfrentadas pelos pacientes em tratamento contínuo: “Quem emagrece está sempre subindo uma escada rolante no sentido contrário”.

A localização do tecido adiposo interfere diretamente no prognóstico clínico. A gordura visceral, que se acumula profundamente no abdômen, libera substâncias inflamatórias no sangue com maior intensidade do que o tecido adiposo subcutâneo. Os limites indicativos de obesidade visceral são fixados em 88 centímetros de circunferência abdominal para mulheres e 102 centímetros para homens.

O cardiologista e coordenador da Cardiologia do Hospital Samaritano Paulista, Felix Ramires, ressalta a importância do diagnóstico preventivo para evitar infartos silenciosos, frequentes em pacientes com resistência à insulina: “A melhor forma de tratar a doença do coração é nunca chegar a tê-la”. O especialista recomenda exames periódicos de glicemia, colesterol, hemoglobina glicada e tomografia de escore de cálcio para avaliar a presença precoce de placas coronárias.

Desafios sociais e histórico de cortes orçamentários afetam o tratamento

A disparidade econômica influencia os hábitos alimentares e favorece o crescimento do sobrepeso no território nacional. Alimentos ultraprocessados apresentam custo financeiro mais acessível do que itens in natura, como verduras e frutas, gerando um ambiente que atinge de forma severa as famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica.

Além das barreiras alimentares, o suporte farmacológico básico enfrentou oscilações recentes na rede pública. O programa Farmácia Popular, essencial para o fornecimento gratuito de medicamentos contra pressão alta para a população de menor renda, sofreu cortes orçamentários entre 2018 e 2022, tendo sua recomposição orçamentária executada a partir de 2023.

Para Elzo Mattar, o preconceito social também atrasou o combate clínico da enfermidade nas últimas décadas: “O hipertenso recebia tratamento, e o fumante era visto como dependente. Já a pessoa com obesidade ouvia que lhe faltava força de vontade”. Diante desse histórico, pesquisadores defendem a inclusão definitiva do combate à obesidade como política prioritária nas diretrizes contra doenças crônicas.

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Impacto na rotina de pacientes em reabilitação cardíaca

A complexidade de manter o peso sob controle é vivenciada pelo aposentado Martino Galliano, de 57 anos. Em 2013, ele descobriu por acaso uma obstrução de 98% no tronco da coronária esquerda durante exames preventivos, sem apresentar dor ou sintomas aparentes na época em que pesava 130 kg, após já ter atingido a marca de 172 kg.

“Minha caçula tinha 3 anos, e eu tive muito medo de não vê-la crescer”, relatou o paciente sobre a internação imediata na Unidade de Terapia Intensiva. Ele recordou o momento em que tomou conhecimento do quadro: “A cada seis horas, o médico que saía repetia para o que entrava: descobriu lesão grave de tronco e aguarda cirurgia”.

Após a cirurgia de revascularização cardíaca e exercícios diários, Galliano reduziu o peso corporal para 92 kg. No entanto, a quebra de rotina durante a pandemia de covid-19 culminou em reganho ponderal. Em 1 de fevereiro de 2022, pesando 115 kg, ele sofreu um infarto agudo do miocárdio e precisou passar por dois procedimentos de angioplastia com implante de stents.

Atualmente com 115 kg, o aposentado treina diariamente às 6h30 em academia e realiza fisioterapia na piscina do hospital duas vezes na semana para preservar a capacidade circulatória. “Saiu da linha, tem que pôr na linha de novo. Senão, complica”, declarou Martino Galliano sobre a necessidade de acompanhamento médico ininterrupto.