O canto da araponga-de-garganta-nua e o da seriema-de-pernas-vermelhas ultrapassam a marca de 120 decibéis de pico na natureza. O volume sonoro gerado pelas duas espécies nativas do Brasil supera a intensidade de máquinas pesadas, como britadeiras e motosserras, de acordo com uma pesquisa publicada nesta terça-feira (29) na revista científica Evolution.
O levantamento foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Massachusetts Amherst, nos Estados Unidos, que mapearam a amplitude sonora de 123 espécies de aves distribuídas em território brasileiro e nas imediações do estado norte-americano de Massachusetts. A análise em campo identificou que o som emitido por esses animais atinge os limites máximos de pressão acústica já registrados por biólogos no reino animal.
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Pesquisa da UMass Amherst analisa 123 espécies de aves
A pesquisa representa a catalogação inicial da amplitude de vocalização para a maioria dos animais avaliados pelos cientistas. Das 123 espécies incluídas no levantamento, 113 nunca haviam passado por medições acústicas padronizadas pela literatura científica internacional. O grupo de trabalho foi liderado pelo biólogo evolucionista brasileiro João C. T. Menezes, pesquisador associado à instituição norte-americana, em conjunto com Jeffrey Podos, professor do Departamento de Biologia da universidade.
Para obter os dados sem interferir no comportamento das populações silvestres, os pesquisadores combinaram telêmetros a laser com medidores de pressão sonora portáteis de alta resolução. As ferramentas permitiram calcular com exatidão a distância física entre o microfone e as aves no momento exato do canto, evitando distorções decorrentes da dispersão acústica na vegetação ou do relevo em áreas de mata e campos abertos.
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Variação acústica entre o beija-flor e a araponga-de-garganta-nua
A amplitude das espécies catalogadas no estudo revelou uma distância sonora de 58 decibéis entre a ponta mais suave e a mais intensa da escala. O menor registro pertenceu ao beija-flor, com marca de 64 decibéis, intensidade similar à de uma conversa habitual entre duas pessoas adultas. Já no topo do levantamento figuraram a araponga-de-garganta-nua e a seriema-de-pernas-vermelhas, ambas superando os 120 decibéis.
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De acordo com João Menezes, as características físicas foram os fatores que melhor explicaram os picos de intensidade observados durante o trabalho de campo. O pesquisador explicou que aves maiores e com uma abertura de bico mais larga tendem a cantar mais alto, modelo ilustrado pela seriema, maior espécie da amostra, e pelas arapongas, que apresentam aberturas de bico expressivamente amplas em relação às suas proporções corporais.
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A investigação também verificou que as espécies com maior capacidade acústica compartilham uma musculatura robusta voltada para a compressão de ar. A anatomia do crânio e do trato vocal funciona como a campânula de instrumentos de sopro de metal, permitindo que a energia gerada na siringe seja irradiada no ambiente sem perda acentuada de potência ao passar pelo bico aberto.
Histórico de medições acústicas em aves silvestres
- Antes de 2019 — O cricrió figurava historicamente entre as aves mais ruidosas documentadas pela literatura ornitológica mundial, alcançando picos em torno de 116 decibéis.
- 2019 — Registro acústico conduzido por Jeff Podos e o biólogo Mario Cohn-Haft confirmou a araponga-da-amazônia em 125,4 decibéis de pico, marca formalizada no Guinness World Records.
- 29 de setembro de 2026 — Publicação na revista Evolution expande os dados com medições em 123 espécies e atesta marcas acima de 120 decibéis para a araponga-de-garganta-nua e a seriema.
Fatores ecológicos e limites da evolução vocal
Os biólogos testaram hipóteses ecológicas prévias para explicar a necessidade de cantos tão potentes, incluindo a suposição de que as aves barulhentas seriam voadoras lentas, habitantes exclusivas de florestas densas ou praticantes de poligamia reprodutiva. A coleta de dados refutou a generalização desses cenários, indicando que nenhuma dessas variáveis ambientais dita uma regra comum para a evolução dos picos de amplitude.
Segundo Menezes, não há clareza entre os elementos ecológicos investigados sobre o motivo de certas espécies terem desenvolvido vocalizações tão intensas. Ele apontou que a comparação mais próxima em sons do dia a dia seria o de uma britadeira, e destacou que as arapongas da Amazônia e da Mata Atlântica, juntamente com a seriema, emitem com segurança as manifestações sonoras mais fortes já mensuradas.
A ciência ainda não confirmou qual das três espécies que ocupam o topo das medições detém o posto absoluto de ave mais barulhenta do planeta, em razão das variações individuais de cada animal e dos limites práticos da medição acústica em campo aberto. Os próximos passos da equipe incluem avaliar de forma direta as vantagens reprodutivas e os riscos de predação atrelados a esses cantos extremos.
