Dryadobates caissara: cientistas da USP descrevem menor sapo do gênero em mata da Serra

Sapo Dryadobates - Reprodução/YouTubeSapo Dryadobates - Reprodução/YouTube

Sapo Dryadobates - Reprodução/YouTube

Pesquisadores da Universidade de São Paulo identificaram e descreveram formalmente a espécie de sapo Dryadobates caissara, que atinge apenas 13 milímetros de comprimento e habita um trecho florestal isolado no litoral do Espírito Santo. O anfíbio foi classificado diretamente com a recomendação técnica de inclusão na categoria Criticamente em Perigo pela União Internacional para a Conservação da Natureza, o último patamar de conservação antes do desaparecimento total no ambiente natural.

O animal tem como abrigo exclusivo um remanescente de Mata Atlântica de 38 hectares situado entre os bairros Costa Bela e Praia de Capuba, no município de Serra. A descrição taxonômica foi detalhada em artigo científico publicado na revista Zootaxa e teve a divulgação dos dados apresentada nesta terça-feira (29) de setembro de 2026 pela equipe de biólogos do Instituto de Biociências da USP.

Características biológicas e registros da espécie Dryadobates caissara

Foto: Dryadobates Sapo – Reprodução/YouTube

A pesquisa taxonômica foi realizada pelos cientistas Max Hideki Oliveira Homma, primeiro autor da publicação, Katarine Nogueira Norbertino e o professor Taran Grant, autor sênior do estudo no Instituto de Biociências da USP. Os exemplares que serviram de base para o reconhecimento da espécie estavam arquivados em coleções científicas desde 2011, quando haviam sido coletados por meio de armadilhas de queda no solo da floresta e rotulados inicialmente sob o nome de Allobates olfersioides, classificação atribuída pelo cientista Adolpho Lutz em 1925.

O estudo genético e a análise morfológica posterior revelaram que o animal integra uma linhagem à parte, pertencente ao gênero Dryadobates, estabelecido formalmente em 2025 para agrupar espécies endêmicas da Mata Atlântica. Com os 13 milímetros de comprimento de corpo na fase adulta, a Dryadobates caissara é a menor entre as oito espécies reconhecidas dentro do gênero e exibe um padrão sonoro inédito para o grupo de anfíbios, que depende exclusivamente de áreas úmidas de serrapilheira para a reprodução.

Confira também: Patrimônio mundial da Mata Atlântica no Sudeste: 470 mil hectares de florestas e cavernas conectam São Paulo e Paraná

  • Nome científico formal: Dryadobates caissara
  • Localização do habitat: fragmento de 38 hectares entre Costa Bela e Praia de Capuba, em Serra, Espírito Santo
  • Comprimento médio corporal: 13 milímetros no indivíduo adulto
  • Classificação conservacionista indicada: Criticamente em Perigo segundo os parâmetros da União Internacional para a Conservação da Natureza
  • Volume de análise acústica: 76 minutos de registros e 1.147 cantos medidos em laboratório
  • Instituição responsável pela pesquisa: Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo

Padrão bioacústico com séries contínuas de notas na mata da Serra

Os levantamentos bioacústicos desenvolvidos pela equipe da USP reuniram 76 minutos de gravações em áudio colhidas diretamente no campo a partir de quatro machos da nova espécie. Os técnicos quantificaram 1.147 cantos no laboratório, organizados em 13 séries contínuas compostas por intervalos que variaram entre 13 e 152 notas consecutivas. A Dryadobates caissara se diferenciou de todos os outros anuros já catalogados no gênero por não emitir notas soltas ou isoladas entre as vocalizações.

Nas outras espécies do gênero Dryadobates cuja acústica já é conhecida pela ciência, os animais intercalam notas sonoras espaçadas com sequências curtas de no máximo 45 notas. A emissão contínua da espécie descoberta na Serra pode durar até quase dois minutos ininterruptos, uma estratégia que demanda alto gasto de energia e serve para delimitar espaço e atrair fêmeas na serrapilheira. “Imagine um sapo de 13 milímetros cantando sem parar por quase dois minutos, em uma sequência de mais de cem notas”, disse Max Hideki Oliveira Homma. O pesquisador completou: “Quando escutamos aquilo em campo, percebemos que estávamos diante de algo novo para o grupo. No laboratório, a análise confirmou o padrão.”

Perda de cobertura florestal e ameaças urbanas no litoral capixaba

O território habitado pelo anfíbio sofreu uma redução drástica ao longo dos últimos anos provocada pela intervenção humana direta na vegetação nativa litorânea. Em 2011, o fragmento contava com uma extensão florestal de 54 hectares, área que encolheu para 38 hectares em medições recentes, o que representa uma perda de 30% de sua cobertura original em decorrência de queimadas, extração de madeira, instalação de propriedades rurais e aproximação imobiliária.

A expansão urbana levou a construção de residências para uma distância de apenas 150 metros do ponto exato onde os primeiros espécimes haviam sido recolhidos pelos biólogos. A alteração microclimática provocada pelo desmatamento expõe os animais ao risco de dessecação dos ovos, uma vez que a reprodução exige que as fêmeas depositem as desovas na serrapilheira e os machos transportem os girinos nas costas por até 100 metros até pontos de água acumulada. Pequenas matas isoladas retêm menos umidade e aumentam a temperatura no chão florestal.

A pressão constante do entorno foi presenciada pelos pesquisadores durante as etapas de coleta de dados no município de Serra. “Escrever essa parte do artigo foi difícil, porque não é o que um pesquisador espera encontrar. Esperávamos que a espécie estivesse em todas as matas da região, mesmo perto da urbanização, e encontramos o oposto: ela vive em uma área minúscula”, afirmou Homma. O biólogo ressaltou a proximidade dos maquinários: “Enquanto observamos os animais, escutamos trator, máquina e moto. Ao entrar na mata, vimos sinal de fogo, cerca e lixo.”

Risco de desaparecimento e histórico das espécies de Dryadobates

A situação crítica da Dryadobates caissara reflete o cenário de declínio acentuado que atinge outras populações de anfíbios associadas à Mata Atlântica brasileira. O professor Taran Grant alertou sobre o panorama de desaparecimento precoce dessas faunas antes mesmo de sua completa caracterização formal pelos laboratórios. “Ao menos três espécies de Dryadobates do Rio de Janeiro parecem extintas, e há motivos para suspeitar que existiam outras em São Paulo e no Paraná, que desapareceram antes de serem registradas pela ciência”, destacou o docente da USP, lembrando que “os anfíbios são o grupo de vertebrados mais ameaçado de extinção do planeta.”

Para os autores do artigo, a inclusão formal da indicação de perigo crítico no momento exato em que a espécie recebe sua nomenclatura científica serve para acelerar decisões governamentais voltadas à conservação ambiental no Espírito Santo. “Ela chama atenção para o fato de que a espécie entra para a ciência precisando de proteção. Ao mostrar que ela existe, onde ocorre e qual é a gravidade da situação, damos base para decisões de conservação. Descrever uma espécie não é apenas dar um nome a ela. É o primeiro passo para que ela possa ser protegida”, afirmou Grant.

Homma apontou ainda a desproporção entre a velocidade das frentes de degradação da vegetação e o ritmo das pesquisas biológicas de campo. “O desmatamento avança mais rápido do que a nossa capacidade de descrever a biodiversidade da mata que está sendo derrubada. É uma corrida injusta. Há incentivo financeiro para desmatar, e nós precisamos disputar financiamento para ir a campo e sequenciar”, declarou o pesquisador.

Monitoramento pendente em área florestal contígua de 79 hectares

Os biólogos ainda não confirmaram se a Dryadobates caissara habita um trecho florestal vizinho que possui 79 hectares e que no passado fazia ligação direta com a mata de 38 hectares antes da construção de um contorno rodoviário e plantios agrícolas. Durante os trabalhos de campo, foram dedicadas 40 horas ao longo de cinco dias de buscas nessa área contígua, mas nenhum indivíduo foi escutado ou capturado.

A ausência de registros no fragmento vizinho ocorreu durante um período marcado pela estiagem climática na região costeira. Por essa razão, a equipe do Instituto de Biociências da USP apontou a necessidade de realizar novas etapas de monitoramento acústico no local ao longo da estação chuvosa para verificar definitivamente se a espécie está presente ou totalmente ausente daquela mancha florestal.