O bacteriófago P27, um vírus capaz de infectar e destruir bactérias, reduziu em até 60% as lesões provocadas pelo cancro cítrico em laranjeiras durante testes controlados em casa de vegetação. O estudo identificou a linhagem viral em pomares do estado de São Paulo e abre caminho para o desenvolvimento de biopesticidas contra a doença que atinge culturas de laranja, limão e tangerina.
Os resultados científicos foram divulgados pela Agência FAPESP na segunda-feira (28), após a publicação detalhada do trabalho na revista Microbial Genomics em 17 de setembro de 2026. A pesquisa foi desenvolvida por meio de cooperação científica entre a Universidade Estadual Paulista (Unesp), o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), a Universidade Metropolitana de Manchester, no Reino Unido, e a Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, com apoio do Centro de Pesquisa em Biologia de Bactérias e Bacteriófagos (CEPID B3).
Bacteriófago P27 ataca diretamente a bactéria Xanthomonas citri
“Conseguir essa redução, mesmo em ensaios em casa de vegetação, mostra que o vírus é capaz de infectar e destruir a Xanthomonas citri no tecido vegetal”, afirmou Caio Zamunér, pesquisador na Unesp, autor do estudo e membro do CEPID B3. O microrganismo patogênico responsável pela enfermidade é a bactéria Xanthomonas citri subsp. citri, que provoca lesões foliares, desfolha e queda prematura dos frutos em pomares comerciais.
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Para selecionar os candidatos com maior capacidade de combate biológico, a equipe de cientistas percorreu 12 propriedades rurais paulistas entre 2018 e 2021. No período, foram coletadas folhas com sintomas da infecção, o que possibilitou isolar e sequenciar 72 variedades de bacteriófagos presentes na vegetação local. O levantamento laboratorial revelou que 65 desses isolados correspondiam a vírus até então nunca descritos no território paulista.
A linhagem P27 ganhou prioridade nos testes botânicos por apresentar estabilidade biológica, rápida capacidade de replicação e presença de proteínas com potencial de degradar as estruturas de defesa das bactérias. Quando aplicada sobre as folhas de laranjeiras inoculadas com o patógeno, a suspensão contendo o vírus impediu a proliferação das colônias bacterianas e limitou a severidade visual das manchas nos tecidos das plantas.
Uniformidade genética de 95% favorece o controle biológico
A avaliação genômica dos microrganismos mostrou que 70 dos 72 bacteriófagos isolados possuem cerca de 95% de similaridade no DNA entre si, guardando grande proximidade filogenética com o bacteriófago CP2, previamente descrito no Japão. Essa homogeneidade decorre da baixa variabilidade genética exibida pelas próprias bactérias causadoras do cancro cítrico presentes nas lavouras do estado ao longo das últimas décadas.
Durante a triagem laboratorial, o grupo colocou as 72 linhagens virais em contato com 122 cepas de Xanthomonas citri. O ensaio demonstrou que 100 dessas linhagens bacterianas foram plenamente suscetíveis à infecção por todos os fagos testados. Em contrapartida, 21 linhagens mostraram-se completamente resistentes à lise celular provocada pelos vírus e apenas uma linhagem registrou suscetibilidade intermediária aos tratamentos biológicos aplicados.
“A bactéria do cancro cítrico no Estado de São Paulo é geneticamente muito uniforme”, disse Zamunér ao analisar os dados do sequenciamento. “Existe uma vantagem nisso: não precisamos de uma coleção de vírus infinitamente complexa, pois uma única linhagem bem caracterizada, como o P27, já é capaz de infectar a grande maioria das bactérias encontradas no campo.”
A resistência verificada em 21 linhagens bacterianas decorre de respostas de defesa que os pesquisadores ainda investigam nos laboratórios do centro de pesquisa. “Os alvos que permitem que esses vírus reconheçam as bactérias estão presentes em todas elas, mas a bactéria pode contar com mecanismos de resistência temporária ou de regulação”, explicou o pesquisador, citando a possibilidade de desativação transitória dos receptores onde os fagos se acoplam.
Dados da pesquisa com bacteriófagos em São Paulo
- Amostragem de campo: 12 propriedades agrícolas monitoradas entre 2018 e 2021
- Variedades virais: 72 bacteriófagos sequenciados, sendo 65 isolados paulistas inéditos
- Linhagens bacterianas: 122 cepas de Xanthomonas citri submetidas a ensaios de infecção
- Eficácia em laboratório: 100 cepas bacterianas totalmente eliminadas pelos vírus avaliados
- Desempenho do fago P27: redução de até 60% na área foliar lesionada em laranjeiras
- Publicação científica: revista Microbial Genomics, em 17 de setembro de 2026
Sensibilidade à radiação ultravioleta desafia aplicação a campo
O principal entrave técnico para transformar o bacteriófago P27 em produto comercial utilizável na citricultura reside na fragilidade do material genético do vírus sob a luz solar direta. Nos ensaios controlados em bancada, a radiação ultravioleta inativou completamente as partículas virais em 160 segundos de exposição, período registrado como poucos minutos pelas avaliações institucionais de bancada.
“O maior deles é a sensibilidade dos vírus à luz ultravioleta do sol, já que, em nossos testes de laboratório, a radiação UV inativou os fagos em poucos minutos”, declarou o autor da investigação. Sem uma barreira física ou química que neutralize o efeito dos raios ultravioleta, o fago perde a capacidade de infectar as bactérias antes de penetrar nos estômatos e ferimentos das folhas das laranjeiras.
O manejo fitossanitário convencional nos pomares de citros depende de pulverizações frequentes com produtos cúpricos, que servem para conter a disseminação da bactéria entre as plantas vizinhas. Esse modelo contínuo traz desvantagens agronômicas, já que o acúmulo sucessivo de resíduos de cobre no solo gera preocupações ambientais e pode afetar organismos não alvos presentes na microfauna agrícola dos pomares comerciais.
A formulação de um defensivo biológico à base de vírus surge como alternativa para diminuir a quantidade de metal pesado despejada nos pomares ao longo das safras produtivas. A proposta da equipe de pesquisa prevê que, no longo prazo, aplicações do bacteriófago possam ser integradas a dosagens reduzidas de bactericidas cúpricos, mantendo o controle fitossanitário sem exigir a saturação de produtos químicos no meio ambiente.
Próximos passos e testes pendentes no campo
A eficácia do bacteriófago P27 em condições de campo aberto ainda não foi testada, permanecendo restrita aos experimentos conduzidos em ambientes de estufa e laboratório. Os pesquisadores também não definiram até o momento a composição química final que servirá como veículo carreador e fotoprotetor do vírus contra a degradação rápida provocada pela luz do sol.
“Os próximos passos incluem o desenvolvimento de formulações protetoras, capazes de blindar os fagos na folha, e o uso de substâncias naturais para dificultar o desenvolvimento de resistência bacteriana”, afirmou Zamunér sobre a continuidade das etapas de bancada.
Os experimentos seguintes dos centros parceiros vão testar aditivos naturais e protetores solares biodegradáveis para verificar se as partículas do vírus conseguem permanecer ativas nas folhas de laranjeiras por tempo suficiente para conter as reinfecções em lavouras comerciais.
