Araponga-de-garganta-nua e seriema superam 120 decibéis em novo estudo

Seriema - Judson Castro/Shutterstock.comSeriema - Judson Castro/Shutterstock.com

Seriema - Judson Castro/Shutterstock.com

Pesquisadores identificaram a araponga-de-garganta-nua e a seriema como duas novas concorrentes ao título de ave mais barulhenta do mundo, com emissões vocais que superam a marca de 120 decibéis. O levantamento revelou que a araponga-de-garganta-nua atingiu um pico sonoro individual de 130,9 decibéis a 1 metro de distância, intensidade comparável à operação contínua de maquinário pesado de construção.

O trabalho foi divulgado na terça-feira (29) no periódico científico Evolution por biólogos da Universidade de Massachusetts Amherst, nos Estados Unidos. Conduzido pelo pesquisador brasileiro João C. T. Menezes e pelo professor de biologia Jeffrey Podos, o estudo catalogou a amplitude sonora de 123 espécies de aves registradas em campo no Brasil e nos Estados Unidos entre dezembro de 2018 e janeiro de 2025. “A comparação mais próxima em sons do dia a dia seria o de uma britadeira”, afirmou Menezes ao descrever a potência das emissões mais fortes observadas na fauna brasileira.

Araponga-de-garganta-nua lidera os picos sonoros individuais

A espécie Procnias nudicollis, conhecida popularmente como araponga-de-garganta-nua, registrou uma amplitude média padronizada a 1 metro de 122,4 decibéis calculada em blocos de 20 milissegundos. No entanto, um exemplar macho da espécie atingiu o volume de pico absoluto de 130,9 decibéis, o índice sonoro mais elevado já documentado para um indivíduo isolado na literatura ornitológica mundial.

Essa marca coloca o canto da araponga em um patamar extremo de pressão sonora quando comparado ao restante da amostragem avaliada no projeto. O ponto mais baixo da escala coube ao beija-flor-de-garganta-escura (Phaethornis squalidus), cujo canto alcançou apenas 64,1 decibéis. A diferença matemática entre as duas espécies demonstra que a pressão acústica exercida pelo chamado da araponga-de-garganta-nua é cerca de 800 vezes maior do que a emitida pelo pequeno beija-flor, evidenciando a amplitude das adaptações anatômicas entre diferentes famílias de aves.

Qual espécie fica com o título de ave mais barulhenta?

A resposta para definir a ave número um do planeta varia conforme o parâmetro bioacústico utilizado na avaliação técnica. Se a medição levar em conta o pico isolado mais elevado já captado de um único animal, a araponga-de-garganta-nua ocupa a primeira posição com seus 130,9 decibéis. Por outro lado, ao analisar a média dos chamados mais intensos dividida por espécie em janelas temporais de 20 milissegundos, a seriema (Cariama cristata) assume a liderança ao sustentar quase 121 decibéis entre os espécimes monitorados. Em uma terceira abordagem, que considera a média do pico instantâneo máximo por espécie, a araponga-branca (Procnias albus) prevalece com 127 decibéis medidos em seis indivíduos.

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Especialistas externos destacam que essa multiplicidade de leituras reflete a complexidade do monitoramento vocal em ambientes naturais abertos. A bióloga evolucionista Catherine Sheard, pesquisadora da Universidade de Aberdeen, na Escócia, pontuou que o resultado “depende de como se define ‘barulhento’, o que destaca as dificuldades em medir a intensidade sonora”. Segundo a cientista escocesa, a continuidade dos trabalhos de campo tende a revelar dados ainda mais expressivos. “À medida que os pesquisadores de campo continuam a coletar mais dados sobre o som das aves, prevejo que ainda mais aves ‘barulhentas’ serão identificadas no futuro”, declarou Sheard.

Métricas acústicas e dados comparativos do estudo

  • Araponga-de-garganta-nua: pico máximo individual de 130,9 decibéis e média de 122,4 decibéis em janela de 20 milissegundos a 1 metro de distância.
  • Seriema: maior média por espécie nos chamados mais intensos, alcançando quase 121 decibéis em blocos temporais padronizados.
  • Araponga-branca: média de pico instantâneo agregado de 127 decibéis entre indivíduos analisados pela equipe.
  • Beija-flor-de-garganta-escura: espécie mais silenciosa registrada na pesquisa, com emissão de 64,1 decibéis.
  • Amostragem geral: 123 espécies medidas entre dezembro de 2018 e janeiro de 2025, sendo 113 analisadas acusticamente pela primeira vez na ciência.
  • Publicação oficial: artigo veiculado no periódico Evolution na terça-feira, 29 de setembro de 2026.

Telêmetros de golfe e anatomia explicam o alcance sonoro

O levantamento enfrentou barreiras logísticas históricas da ornitologia, já que a medição de amplitude depende da distância precisa entre o microfone e o animal. Em matas fechadas, muitas aves interrompem a vocalização ao notar a aproximação humana ou permanecem fora do campo de visão direta. Para contornar esse obstáculo técnico, os pesquisadores combinaram medidores de pressão sonora portáteis de alta sensibilidade com telêmetros a laser, aparelhos comumente empregados por praticantes de golfe para medir distâncias no gramado, conseguindo aferir o volume e o posicionamento exato de forma simultânea.

Ao correlacionar as gravações corrigidas com medidas corporais das espécies, a equipe concluiu que a estrutura física exerce papel central na amplificação sonora. Aves com maior massa corporal e bicos com abertura mais ampla apresentaram propensão a chamados mais potentes. Conforme explicou Menezes, “pássaros maiores têm músculos mais volumosos, capazes de criar maiores pressões internas, que, em última análise, geram sons mais altos”. A maior largura bucal permite ainda que a energia sonora se espalhe de modo eficiente pelo ar.

As variáveis ecológicas, contudo, trouxeram contradições que a biologia ainda busca decifrar. A araponga-de-garganta-nua habita florestas densas e adota um sistema de acasalamento poligâmico, cenário no qual o som potente ajuda a atravessar a barreira vegetal para atrair fêmeas. Em contraste, a seriema vive em áreas abertas de campos e cerrados e mantém hábitos estritamente monogâmicos, o que elimina a hipótese de que a pressão sonora extrema dependa exclusivamente da densidade florestal ou da competição por múltiplos parceiros.

Histórico do recorde e indefinição formal

A referência anterior de intensidade pertencia à araponga-branca, documentada na Amazônia pelo próprio professor Jeffrey Podos em conjunto com o ornitólogo Mario Cohn-Haft, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). A pesquisa da dupla, publicada em 21 de outubro de 2019, comprovou que a espécie amazônica produzia cantos de acasalamento a até 125,4 decibéis, feito que rendeu à ave o reconhecimento oficial no Guinness World Records.

Apesar dos novos números obtidos em campo pela equipe da Universidade de Massachusetts Amherst demonstrarem que tanto a araponga-de-garganta-nua quanto a seriema superam marcas anteriores em métricas específicas, o Guinness World Records ainda não realizou uma homologação formal para atualizar o detentor do título mundial.