Beneficiários do Bolsa Família responderam por quase 4,6 milhões de vagas formais de emprego criadas no Brasil entre janeiro de 2023 e julho de 2026. O contingente representa 85,2% de todo o saldo líquido nacional registrado no período avaliado, segundo pesquisa do Centro de Estudos Empíricos em Economia da Fundação Getulio Vargas divulgada na quarta-feira (30 de setembro de 2026).
Os pesquisadores Valdemar Pinho Neto e Luiz Gustavo Barbosa, autores do estudo “Inserção dos Beneficiários do Bolsa Família no Emprego Formal”, identificaram que os integrantes do programa social tiveram 15,3 milhões de contratações com carteira assinada e 10,8 milhões de demissões no intervalo. O resultado produziu um saldo positivo de 4,58 milhões de postos de trabalho para essa faixa da população.
“Uma crítica de que as pessoas do Bolsa Família não querem trabalhar não é uma crítica válida quando você olha para os números”, afirmou Valdemar Pinho Neto, pesquisador da FGV e coautor do levantamento. Em todo o mercado de trabalho brasileiro, as empresas registraram 91,8 milhões de contratações e 86,4 milhões de desligamentos formais, alcançando um saldo geral de 5,38 milhões de novas ocupações.
Bolsa Família e a dinâmica geral de contratações no Caged
O levantamento da instituição cruzou os microdados oficiais do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o Caged, com as folhas de pagamento do programa social e as inscrições do Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal, o CadÚnico. Na apuração estatística, o grupo atendido pela transferência de renda concentrou 16,7% do total de admissões e 12,5% do total de demissões do país.
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Quando a análise engloba todas as pessoas cadastradas no CadÚnico, o saldo de vagas com carteira assinada sobe para 5,8 milhões de postos, produto de 33,3 milhões de admissões e 27,5 milhões de desligamentos. Em contrapartida, os trabalhadores brasileiros que não estavam registrados no sistema de assistência social tiveram um saldo negativo de 460,6 mil empregos com carteira no mesmo período, acumulando 58,5 milhões de admissões frente a 58,9 milhões de rescisões de contrato de trabalho.
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A retração no saldo de pessoas fora da base social do governo não significa perda generalizada de ocupações para a classe média, segundo a avaliação do centro de pesquisas. O aquecimento da atividade econômica permitiu que profissionais buscassem transições voluntárias de carreira, ao passo que os integrantes de famílias de baixa renda ocuparam posições formais que antes permaneciam ociosas ou restritas à informalidade.
Mulheres, jovens e ensino médio lideram vagas do Bolsa Família
A apuração da FGV detalhou as características sociodemográficas dos trabalhadores atendidos pelo programa governamental que conquistaram postos com carteira assinada ao longo de 43 meses. O grupo feminino obteve 2,5 milhões de postos, compondo a maior fatia das ocupações geradas entre os beneficiários de programas de distribuição de renda no país.
- Participação feminina no saldo gerado: 55,4%
- Trabalhadores na faixa etária de 18 a 24 anos: 40,5% (1,9 milhão de postos)
- Trabalhadores autodeclarados pardos: 62,7% (2,9 milhões de vagas)
- Trabalhadores com ensino médio completo: 78,2%
“Em conjunto, os dados sugerem que a expansão recente do emprego formal incorporou de forma relevante a população inscrita no CadÚnico e foi especialmente importante para beneficiários do Bolsa Família”, registraram os pesquisadores no relatório final.
Como funciona a permanência no Bolsa Família com carteira assinada?
A legislação do programa prevê que o trabalhador que obtém emprego formal continue a receber o auxílio financeiro, contanto que o rendimento total da casa permaneça dentro dos parâmetros de elegibilidade social. Para garantir o recebimento mensal da transferência governamental, a renda familiar calculada por pessoa não pode ultrapassar o teto legal de R$ 218 mensais.
Segundo os economistas da instituição, a garantia dessa renda mínima regular amplia a capacidade de busca de colocações mais estruturadas pelas famílias em condição vulnerável, custeando deslocamentos, alimentação e vestuário necessários para entrevistas e contratações formais no setor produtivo.
“Quando você vive com uma renda muito baixa, tem de fazer escolhas, decisões difíceis. Vai ter de ponderar entre comprar uma roupa para ir a uma entrevista de emprego, comprar remédios ou comprar o alimento do dia a dia. Uma transferência de renda alivia essas restrições. As pessoas podem começar a fazer escolhas que fazem com que sejam até mais produtivas e interessantes para o mercado de trabalho”, declarou Valdemar Pinho Neto.
Nove estados têm saldo de emprego sustentado pelo Bolsa Família
O levantamento revelou ainda uma disparidade regional expressiva na distribuição do emprego com carteira assinada entre os brasileiros que recebem e os que não recebem a transferência direta de renda. Em nove estados das regiões Norte e Nordeste, o saldo formal do mercado de trabalho ficou negativo entre a população não atendida pelo programa social, sendo sustentado pelas contratações de famílias beneficiárias.
- Maranhão
- Alagoas
- Ceará
- Bahia
- Pará
- Rio Grande do Norte
- Acre
- Pernambuco
- Sergipe
O economista Ricardo Paes de Barros, pesquisador do Insper e um dos formuladores originais do Bolsa Família, avaliou anteriormente que a política pública precisa continuar passando por aprimoramentos para direcionar recursos a quem vive na extrema pobreza e manter incentivos permanentes ao mercado profissional.
O estudo da FGV registra uma limitação metodológica no acompanhamento contínuo dos contratos de trabalho. Os registros estatísticos indicam apenas se o trabalhador recebia a transferência no mês da admissão ou da dispensa, sem mapear se a manutenção do vínculo formal levou à saída posterior da folha de pagamento do programa social antes do primeiro turno das eleições de domingo (4 de outubro de 2026).
