O El Niño Costeiro atingiu uma anomalia de temperatura da superfície do mar de +5,3ºC na costa do Peru e do Equador, patamar inédito nos registros modernos de monitoramento oceânico. O dado foi confirmado pela Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA) em boletim semanal divulgado na segunda-feira (5) de outubro de 2026 para a região Niño 1+2.
A elevação da temperatura marinha apresentou aceleração acentuada nos últimos dias, saltando de +4,8ºC medidos no relatório anterior para a marca atual de +5,3ºC calculada pelo Índice Oceânico Niño (ONI). Pelo método do Índice Oceânico Niño Relativo (RONI), que ajusta o cálculo pelo aquecimento global de fundo, a anomalia se aproximou de empatar com o recorde absoluto de +4,6ºC documentado na semana de 29 de junho de 1983.
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Aquecimento no Pacífico supera o limiar histórico de 5ºC
A Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos divide a faixa equatorial do Oceano Pacífico em quatro setores estratégicos de monitoramento: Niño 1+2, Niño 3, Niño 3.4 e Niño 4. Enquanto a área 3.4 serve de base para classificar as ocorrências globais de El Niño e La Niña, o setor Niño 1+2 concentra as medições diretamente adjacentes às faixas litorâneas do Peru e do Equador. Ao longo de toda a era moderna de observações oceânicas por satélites e boias, nenhuma das quatro divisões jamais havia alcançado ou ultrapassado o limiar de 5,0ºC positivos, tornando a medição recente um marco absoluto nas ciências atmosféricas.
O índice ONI tradicional reflete o desvio absoluto da temperatura em relação às médias climatológicas de referência. Com o aquecimento acelerado observado na primeira semana de outubro de 2026, a faixa litorânea do noroeste da América do Sul entrou em uma condição térmica sem paralelo direto na base de dados internacional da agência norte-americana.
Anomalia de 5,3ºC supera os picos de 1983 e 1997
O valor semanal apurado na região Niño 1+2 ultrapassou os maiores patamares documentados durante os eventos mais intensos do século 20 e das primeiras décadas do século 21. Mesmo em fases classificadas historicamente como Super El Niño, o aquecimento da água na faixa litorânea não havia chegado à casa dos cinco graus.
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A série histórica de picos semanais de anomalia na região Niño 1+2 reúne os seguintes registros:
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- 29 de junho de 1983: +4,2ºC pelo índice ONI e recorde de +4,6ºC pelo índice relativo RONI no Super El Niño de 1982-1983
- 13 de agosto de 1997: +4,0ºC durante o Super El Niño de 1997-1998
- 15 de julho de 2015: +2,7ºC durante o evento de 2015-2016
- 2 de agosto de 2023: +3,4ºC durante o episódio de 2023-2024
- 5 de outubro de 2026: +5,3ºC registrados no relatório semanal da NOAA
Diferenças entre o El Niño Costeiro e o fenômeno clássico
O El Niño Costeiro diferencia-se da manifestação clássica ou canônica pela sua localização geográfica e pelos mecanismos atmosféricos associados. A modalidade costeira limita-se ao aquecimento extraordinário das águas territoriais do Peru e do Equador na área Niño 1+2, sem que haja obrigatoriamente um aquecimento generalizado em toda a extensão do Pacífico Equatorial.
A versão canônica do El Niño, por sua vez, depende da elevação generalizada das temperaturas na região Niño 3.4, localizada entre o Pacífico Central e o Pacífico Leste, com capacidade de alterar a circulação de ventos em escala planetária. A meteorologista Estael Sias, sócia-diretora da MetSul Meteorologia, aponta que o fenômeno restrito à costa atua de forma direta no clima regional dos países banhados por essas águas aquecidas, mesmo antes de uma eventual configuração global na bacia oceânica central.
O litoral peruano sofre de maneira intensa tanto nos episódios costeiros quanto nos eventos globais. O aquecimento localizado nas proximidades da costa desestabiliza a camada de ar sobre o oceano, favorecendo a formação de nuvens carregadas em áreas que costumam apresentar clima árido ao longo de grande parte do ano.
Impactos históricos de episódios severos no Peru e Equador
Episódios severos de aquecimento costeiro costumam desestabilizar radicalmente a meteorologia e os ecossistemas do noroeste sul-americano. Nos grandes eventos registrados entre 1997 e 1998 e em 2017, o calor oceânico anômalo gerou chuvas torrenciais sobre faixas costeiras tradicionalmente áridas do Peru e do Equador, desencadeando inundações generalizadas e deslizamentos de terra conhecidos regionalmente como huaicos. Além de romper estradas, isolar cidades e derrubar redes de saneamento, essas anomalias térmicas provocam o colapso das frotas pesqueiras com a migração ou morte de espécies marítimas e multiplicam focos de mosquitos transmissores de doenças infecciosas.
Durante a crise climática de 1997 e 1998, as enchentes no norte do território peruano provocaram perdas amplas na agricultura, com a inundação de áreas produtoras de alimentos e a perda de plantações inteiras. No Equador, o excesso de umidade e os alagamentos contínuos prejudicaram lavouras de banana, arroz e cana-de-açúcar, desestruturando a distribuição de mercadorias para o mercado interno e para o comércio exterior.
A alteração repentina no ambiente aquático afasta espécies marinhas de águas frias, afetando a pesca artesanal e industrial, que constituem pilares econômicos nas comunidades costeiras do Oceano Pacífico sul-americano.
Duração da anomalia de 5,3ºC segue sob avaliação da NOAA
A permanência do patamar de +5,3ºC nos próximos boletins semanais da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos ainda não foi determinada. As análises técnicas em andamento também avaliam se o índice relativo RONI, ajustado pelo aquecimento global de fundo, ultrapassará formalmente nos próximos dias a marca histórica de +4,6ºC registrada em 1983.
