Estrela morta engole planeta gigante em sistema solar: veja o que descobriu a ciência

Planeta gigante e caindo sobre uma anã branca - Snehalata Sahu/University of Warwick Foto: Planeta gigante e caindo sobre uma anã branca - Snehalata Sahu/University of Warwick

Astrônomos da Universidade de Warwick identificaram na anã branca HS 0209+0832 o primeiro candidato a planeta de segunda geração formado com restos expelidos pela própria estrela durante sua morte. O astro remanescente, localizado a cerca de 270 anos-luz da Terra, está evaporando e atraindo a camada exterior da atmosfera desse mundo gasoso por meio de intensa radiação ultravioleta extrema.

A descoberta foi detalhada em estudo publicado na revista científica Nature Astronomy na segunda-feira, 5 de outubro de 2026. A equipe observou que a composição dos elementos absorvidos pela estrela não se parece com nada registrado anteriormente no Sistema Solar ou em outras anãs brancas conhecidas, apresentando níveis elevados de metais pesados raros.

Assinatura química incomum na atmosfera da anã branca HS 0209+0832

Ao examinarem os dados espectrais da HS 0209+0832, os pesquisadores constataram a presença acentuada de nióbio, cobre e zinco. Em contrapartida, as análises revelaram praticamente nenhuma quantidade de silício e a ausência completa de ferro e magnésio, elementos que costumam compor a base de corpos rochosos e gasosos comuns.

“Materiais rochosos e gelados no Sistema Solar e em outros sistemas planetários são formados principalmente por oxigênio, magnésio, silício e ferro. Mas, na HS 0209+0832, não detectamos oxigênio, magnésio nem ferro e encontramos apenas uma quantidade muito pequena de silício. Em contrapartida, detectamos grande quantidade de cobre, zinco e nióbio”, afirmou Jamie T. Williams, pesquisador e doutorando do Departamento de Física da Universidade de Warwick e autor principal do trabalho.

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O comportamento gravitacional das anãs brancas reforça que a matéria foi capturada recentemente pelo astro. Por se tratar de um remanescente estelar muito denso, qualquer elemento químico pesado que atinja sua superfície afunda em direção ao interior em uma escala que varia de dias a semanas, o que demonstra que o fluxo de gás que chega à estrela permanece ativo.

“Esta é a primeira vez que o nióbio é detectado na atmosfera de uma anã branca. Em relação ao cálcio, o nióbio é mais de mil vezes mais abundante na HS 0209+0832 do que no Sistema Solar. Portanto, os blocos que formaram esse planeta devem ser muito ricos em nióbio”, declarou Jamie T. Williams ao descrever a medição.

Telescópios espaciais registram órbita a 6 milhões de quilômetros

A presença do corpo celeste foi reforçada por medições fotométricas do satélite TESS, da agência espacial norte-americana NASA. O instrumento detectou oscilações periódicas na luminosidade da anã branca que se repetem a cada 4,39 dias, intervalo compatível com o trânsito orbital de um planeta gasoso de porte semelhante ao de Júpiter.

Esse período de translação corresponde a uma distância orbital calculada em cerca de 6 milhões de quilômetros em relação à anã branca, equivalente a aproximadamente 0,044 unidade astronômica. Por estar excessivamente próximo da fonte de radiação, o lado do planeta permanentemente voltado para a estrela atinge temperaturas extremas, liberando correntes de gás que são puxadas pela gravidade do núcleo estelar.

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A investigação também solucionou um impasse científico que durava décadas com a reanálise de dados históricos obtidos pelo Telescópio Espacial Hubble e pela missão FUSE. Registros colhidos pelo Hubble desde 1 de janeiro de 1999 continham cerca de uma centena de assinaturas de absorção no espectro ultravioleta que permaneceram sem identificação conclusiva por aproximadamente 25 anos.

Dados observacionais do sistema planetário da HS 0209+0832

  • Distância do sistema em relação à Terra: 270 anos-luz
  • Período de repetição do sinal no satélite TESS: 4,39 a 4,40 dias
  • Distância estimada entre o planeta candidato e o centro estelar: cerca de 6 milhões de quilômetros
  • Proporção de nióbio em relação ao cálcio: superior a 1.000 vezes o padrão do Sistema Solar
  • Início dos registros espectroscópicos arquivados pelo Telescópio Espacial Hubble: 1999
  • Instituições participantes da análise: Universidade de Warwick e Universidade de Wisconsin-Madison

Origem teórica dos planetas formados por remanescentes estelares

Modelos astrofísicos previam há mais de 15 anos a possibilidade de que o gás expelido durante a fase de gigante vermelha pudesse se reorganizar em um disco secundário e condensar novos corpos após o colapso do núcleo estelar. A detecção na HS 0209+0832 representa a primeira evidência observacional direta compatível com esse mecanismo ao redor de uma anã branca.

O professor Boris Gänsicke, do Departamento de Física da Universidade de Warwick e coautor sênior da publicação, destacou a importância da estrutura do sistema. “O que é notável sobre o planeta ao redor de HS 0209+0832 é que este não é um planeta vindo de outro lugar, ou um sobrevivente do nascimento do sistema, parece que ele foi construído a partir do próprio material que sua própria estrela expeliu ao morrer. Em certo sentido, este sistema deu à luz um novo mundo usando os alicerces do antigo”, disse Boris Gänsicke, em tradução livre.

A equipe de astrofísicos, que contou também com a participação de Nicholas C. Stone, da Universidade de Wisconsin-Madison, aponta que o nióbio e os demais metais encontrados são sintetizados exclusivamente nos estágios finais de vida das estrelas de baixa e média massa. Essa assinatura indica que a matéria-prima utilizada na montagem do astro se originou diretamente dos eventos de perda de massa da progenitora estelar.

Verificações complementares e limites da detecção atual

A existência do corpo gasoso ainda não foi registrada de maneira direta por imagens astronômicas ou por um trânsito espectroscópico completo, motivo pelo qual a comunidade científica classifica o objeto como um planeta candidato. Os instrumentos atuais registraram os reflexos da atração de matéria e o efeito da órbita sobre o brilho estelar, mas não a silhueta visual direta do astro.

Os pesquisadores também apontam que não é possível definir se o planeta foi gerado integralmente do zero a partir do material ejetado ou se agregou essa camada de cinzas ao redor do núcleo rochoso remanescente de um planeta que já existia na fase anterior da estrela. Observações complementares programadas com o Telescópio Espacial James Webb deverão examinar as emissões infravermelhas do sistema para tentar confirmar a estrutura física do planeta candidato e medir a composição de sua atmosfera em tempo real.

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