Ciência

Cometa 3I/ATLAS tem até 12 bilhões de anos e supera idade do Sol

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3iatlas - nasa - reprodução Nasa

Pesquisadores identificaram que o cometa interestelar 3I/ATLAS possui uma composição isotópica inédita e provavelmente se formou entre 10 e 12 bilhões de anos atrás na periferia de um antigo sistema estelar de baixa metalicidade. A descoberta foi detalhada em estudo publicado na revista Nature Astronomy a partir de observações feitas no observatório de Cerro Paranal, no Chile.

Pela primeira vez na história da astronomia, cientistas conseguiram medir as proporções isotópicas de um cometa vindo de fora do Sistema Solar, utilizando o instrumento UVES acoplado ao Very Large Telescope do Observatório Europeu do Sul. O resultado indica que o astro é anterior ao próprio Sol, cuja idade estimada é de 4,6 bilhões de anos.

O que explica a idade estimada do cometa?

As análises espectroscópicas de moléculas de cianeto expelidas pelo corpo celeste indicaram proporções de carbono-12 para carbono-13 e nitrogênio-14 para nitrogênio-15 muito mais altas do que as encontradas em cometas nativos do Sistema Solar. A razão isotópica calculada entre carbono-12 e carbono-13 alcançou a marca de 151, enquanto a proporção entre nitrogênio-14 e nitrogênio-15 chegou a 363, taxa bastante superior à média de 150 observada nos cometas formados ao redor do Sol.

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Esses índices elevados de isótopos leves são característicos de estrelas primitivas, com poucos elementos químicos mais pesados que o hélio, chamadas na astrofísica de estrelas de baixa metalicidade. Essa assinatura química quase inalterada sugere que o corpo celeste se condensou nos primórdios da evolução galáctica, antes de os ciclos de explosões estelares enriquecerem o meio interestelar com materiais mais densos.

“Eles são uma espécie de fósseis de um processo de formação planetária que aconteceu muito longe, mas que temos a chance de estudar de muito mais perto”, disse Cyrielle Opitom, astrônoma da Universidade de Edimburgo e líder da pesquisa, em tradução livre.

“Diferente dos cometas do nosso Sistema Solar, este visitante interestelar carrega proporções isotópicas de carbono e nitrogênio excepcionalmente altas”, afirmou o pesquisador Aravind Krishnakumar, coautor do estudo e vinculado à Universidade de Liège, em tradução livre.

“O 3I/ATLAS é uma oportunidade realmente empolgante para investigar a composição de outro sistema planetário, um que se formou muito antes de o nosso Sol e o Sistema Solar sequer existirem”, declarou Rosemary Dorsey, pesquisadora da Universidade de Helsinki e coautora do trabalho, em tradução livre.

Marcas químicas revelam formação em berço estelar frio

Um levantamento complementar divulgado em 22 de junho de 2026 na revista Nature, coordenado pelo astroquímico Martin Cordiner, do NASA Goddard Space Flight Center, confirmou o comportamento anômalo do cometa por meio de dados do Telescópio Espacial James Webb e do observatório ALMA. O estudo independente detectou água com teor de deutério cerca de dez vezes maior do que a média dos cometas conhecidos no nosso sistema planetário.

A presença abundante de deutério na água associada às proporções incomuns de carbono indica que os compostos gelados de 3I/ATLAS se aglutinaram em um ambiente extremamente gelado, sob temperatura inferior a 30 Kelvin, equivalente a 243,15 graus Celsius negativos. Esse patamar térmico reforça o cenário de nascimento em áreas ultraperiféricas de um sistema planetário arcaico.

Continue lendo: Estudo revela origem sob frio extremo do cometa 3I/ATLAS; detalhes e informações

Histórico de visitantes de fora do Sistema Solar

O 3I/ATLAS representa o terceiro corpo interestelar confirmado a cruzar a vizinhança solar desde o início dos registros astronômicos. O pioneiro foi o asteroide 1I/’Oumuamua, identificado em 2017, seguido pelo cometa 2I/Borisov, registrado em 2019. Ao contrário dos dois predecessores, o cometa descoberto em 2025 manteve níveis de brilho suficientes para que os grandes instrumentos terrestres fizessem leituras espectrais completas de seus gases.

Com uma velocidade de deslocamento superior a 200.000 km/h, o astro percorre uma órbita hiperbólica desvinculada do campo gravitacional do Sol, o que confirma sua natureza de passagem única, sem chance de captura permanente. Durante a sua aproximação máxima da Terra, o objeto atingiu a distância de 1,8 unidade astronômica, o equivalente a cerca de 270 milhões de quilômetros.

Passagens e observações do cometa interestelar

  • 1 de julho de 2025 — O telescópio ATLAS descobre oficialmente o cometa interestelar em Rio Hurtado, no Chile.
  • 29 de outubro de 2025 — O corpo celeste alcança a passagem periélica no ponto mais próximo do Sol, a uma distância entre 1,36 e 1,4 unidade astronômica, às 11h45 pelo horário universal.
  • 18 de janeiro de 2026 — O Very Large Telescope registra imagens de 3I/ATLAS por meio do instrumento FORS2 durante uma exposição contínua de 14 minutos.
  • 22 de junho de 2026 — A revista Nature publica o artigo de Martin Cordiner com medições térmicas e isotópicas do Telescópio Espacial James Webb e do ALMA.
  • 6 de julho de 2026 — O Observatório Europeu do Sul apresenta o relatório técnico e a pesquisa de Cyrielle Opitom na revista Nature Astronomy.

Trajetória e próximos passos da astronomia de objetos interestelares

A estrela de origem de onde o 3I/ATLAS se desprendeu não pode ser determinada com exatidão pela astronomia atual. Perturbações gravitacionais acumuladas ao longo de mais de 10 bilhões de anos de circulação pela galáxia apagaram as pistas dinâmicas do ponto de ejeção inicial do objeto.

Conforme se afasta da Terra e do Sol, o cometa perde luminosidade e sai gradualmente do alcance dos observatórios contemporâneos. A continuidade desse tipo de investigação dependerá de novas estruturas, como o Extremely Large Telescope, atualmente em construção no Chile pelo Observatório Europeu do Sul, projetado com sensibilidade para realizar análises espectroscópicas de visitantes interestelares muito menos brilhantes.

“O campo dos objetos interestelares ainda é muito novo e não sabemos realmente o que esperar. Toda vez que um novo é descoberto, temos novas surpresas”, completou Cyrielle Opitom, em tradução livre.

Acompanhe: 3I/ATLAS tem rota mapeada por astrônomos em setembro de 2026

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