Tecnologia não invasiva para tremor e Parkinson aguarda análise no SUS

Parkinson - Alexey Koza/ istockphoto.com

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O ultrassom focalizado de alta intensidade reduz em até 70% os tremores provocados pela doença de Parkinson e pelo tremor essencial em atendimentos no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. A tecnologia, conhecida pela sigla Hifu, alcançou a marca de 34 pessoas tratadas nos seus primeiros 18 meses de funcionamento clínico, com intervenções realizadas em sessão única e sem incisões cirúrgicas.

O Ministério da Saúde informou nesta terça-feira (6) que, até outubro de 2026, não existe processo formal em andamento para avaliar a tecnologia na rede pública. O procedimento usa feixes acústicos concentrados guiados por ressonância magnética para cauterizar pontos específicos do cérebro, sem necessidade de anestesia geral ou internação hospitalar.

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Como funciona a sessão de Hifu no cérebro?

O procedimento direciona ondas ultrassônicas convergentes para uma área milimétrica profunda do cérebro, habitualmente o núcleo ventral intermédio do tálamo. A concentração da energia mecânica eleva a temperatura do tecido-alvo até produzir uma termocoagulação pontual, interrompendo as vias nervosas hiperativas que geram as oscilações involuntárias nos membros. O processo dura cerca de duas horas e mantém o paciente consciente durante toda a aplicação.

A equipe médica acompanha a elevação térmica em tempo real pelo equipamento de ressonância magnética, enquanto avalia as respostas motoras imediatas do indivíduo na própria mesa de exame. Durante o procedimento, os profissionais solicitam testes motores simples, como levar o dedo à ponta do nariz ou desenhar formas geométricas, o que permite verificar a redução instantânea dos tremores antes da consolidação da lesão térmica definitiva no tecido cerebral.

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A intervenção contempla um hemisfério do encéfalo por sessão, priorizando o lado do corpo com maior prejuízo funcional para as atividades rotineiras. Caso o quadro clínico exija intervenção bilateral, a equipe de neurologia estabelece uma pausa obrigatória de 6 a 9 meses antes de autorizar a realização do tratamento no hemisfério oposto.

Cérebro, lupa – ahmetmapush/shutterstock.com

Parâmetros clínicos e operacionais do tratamento em São Paulo

  • Redução média observada nos tremores: até 70%
  • Duração média da sessão terapêutica: cerca de 2 horas
  • Intervalo exigido entre aplicações nos dois hemisférios: 6 a 9 meses
  • Total de pacientes atendidos nos primeiros 18 meses: 34 pessoas
  • Índice de alterações permanentes de marcha ou equilíbrio: menos de 1%

Segurança neurológica e controle de efeitos colaterais

O protocolo de triagem do hospital inicia-se cerca de uma semana antes da sessão terapêutica. A preparação inclui exames de tomografia para verificar a densidade e a espessura da calota craniana, além de uma ressonância magnética com técnica de tratografia. Esse mapeamento avançado identifica o trajeto individual das fibras nervosas motoras vizinhas ao tálamo, evitando danos estruturais aos feixes que coordenam a força muscular voluntária.

No dia marcado para o procedimento, o paciente passa pela raspagem total do couro cabeludo para impedir que bolhas de ar fiquem retidas entre os fios e dispersem a energia acústica emitida pelo capacete transdutor. Embora o método dispense aberturas ósseas, reações adversas transitórias podem ocorrer após o aquecimento do tecido neural.

“O paciente pode ficar com alteração no andar por desequilíbrio; a maioria melhora na primeira semana. Existiram pacientes que tiveram isso de forma permanente, mas isso [ocorreu] com menos de 1% [dos pacientes]”, disse a médica Polyana Piza, gerente médica do Programa de Neurologia do Hospital Israelita Albert Einstein.

A especialista também relatou a possibilidade de reduções temporárias na força de um dos lados do corpo após a aplicação térmica. “Pode durar um mês, ou três. A gente já viu pacientes melhorarem após nove meses ou um ano, mas [esse evento adverso] também é raro”, declarou Polyana Piza.

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Alternativa cirúrgica tradicional e o cenário no SUS

Antes da introdução do Hifu, iniciada no hospital privado em 1 de março de 2025, a principal alternativa para conter tremores resistentes aos remédios era a estimulação cerebral profunda, procedimento cirúrgico conhecido pela sigla DBS. Essa cirurgia exige a abertura do crânio, fixação de eletrodos permanentes em núcleos profundos do encéfalo e implantação de um gerador de impulsos elétricos sob a pele da região peitoral.

A entrada de uma nova tecnologia médica no Sistema Único de Saúde depende de análise técnica da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). O órgão governamental avalia a segurança biológica, a eficácia clínica comparativa, o custo-efetividade e o impacto orçamentário sobre as contas públicas antes de recomendar a adoção de tratamentos de alta complexidade.

O neurologista do Hospital São Paulo e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Henrique Ferraz, avaliou que a prioridade da rede pública deve ser a garantia de acesso às terapias já padronizadas. “Todo paciente tem direito à saúde, está escrito nos princípios do SUS, mas isso na prática não acontece”, afirmou o médico.

Para o especialista da Unifesp, a rede pública precisa consolidar o acesso a medicamentos e procedimentos cirúrgicos já disponíveis antes de adquirir equipamentos que dependem de salas dedicadas de ressonância magnética de alto campo e equipes restritas. Entre 2023 e julho de 2026, a rede pública federal financiou 259 cirurgias de implante de eletrodos para estimulação cerebral profunda em 17 estados e no Distrito Federal.

Cirurgias de estimulação profunda realizadas na rede pública

  • Rio de Janeiro: 45 procedimentos cirúrgicos
  • Minas Gerais: 44 procedimentos cirúrgicos
  • São Paulo: 41 procedimentos cirúrgicos
  • Distrito Federal: 32 procedimentos cirúrgicos
  • Demais 14 estados atendidos: 97 procedimentos cirúrgicos somados

O Ministério da Saúde comunicou formalmente que “no momento, não há demanda para análise do procedimento Hifu”. A pasta informou que fabricantes, sociedades médicas ou cidadãos podem protocolar pedidos de avaliação de tecnologias em saúde junto à Conitec. O custo individual do procedimento na rede hospitalar privada não foi divulgado pelo Hospital Israelita Albert Einstein.