Amanhecer em Marte é registrado pelo Curiosity sobre rochas de 3 bilhões de anos

registro de Marte, rover da Nasa fotografa primeiras luzes do amanhecer - Divulgação/Nasa

registro de Marte, rover da Nasa fotografa primeiras luzes do amanhecer - Divulgação/Nasa

O rover Curiosity registrou um panorama do amanhecer em Marte que mostra as primeiras luzes solares iluminando formações rochosas pontiagudas na encosta do Monte Sharp. A cena foi divulgada pela Nasa e pelo Laboratório de Propulsão a Jato nesta terça-feira (6), trazendo detalhes visuais de cristas geológicas conhecidas como yardangs, esculpidas pela ação contínua dos ventos marcianos ao longo de eras.

A imagem foi captada pela câmera Mastcam em 11 de agosto de 2026, às 8h30 no horário solar local de Marte, aproximadamente uma hora depois do nascer do sol, momento correspondente ao 4.982º sol, como são chamados os dias da missão na superfície marciana. Em vez de aplicar a habitual calibração que simula a iluminação da Terra, a equipe técnica optou por processar o registro sem o tradicional balanço de branco, preservando com exatidão a coloração alaranjada característica da atmosfera de Marte e as tonalidades azuladas que surgem no horizonte durante o alvorecer.

Curiosity capta detalhes técnicos e geológicos da alvorada no Monte Sharp

O mosaico final foi construído na Terra a partir da junção de seis fotografias individuais enviadas pelo veículo exploratório, exibindo um trecho acidentado situado no piso da cratera Gale. O relevo em destaque exibe elevações rochosas de coloração clara que contrastam com o solo avermelhado percorrido pelo robô nos últimos anos de expedição.

“Os picos escarpados e claros ao longe fazem parte de uma camada rochosa cuja aparência é bastante diferente da de todas as camadas que o rover atravessou até agora”, afirmou Ashwin Vasavada, cientista planetário do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa e cientista do projeto Curiosity. Ele explicou que o cenário guarda semelhanças com formações desérticas terrestres, embora mantenha a identidade visual do planeta vizinho. “Essa paisagem tem um aspecto selvagem que me lembra uma viagem de carro pelo Monument Valley, no Arizona. É quase possível sentir o silêncio e a imensidão do espaço aberto sob o céu. Mas, por mais familiar que isso pareça, o céu é alaranjado e o nascer do sol tem tons de azul. É como a Terra, mas é definitivamente Marte”, disse o pesquisador.

A análise morfológica indica que as cristas de yardangs começaram a se estruturar há cerca de 3 bilhões de anos, durante o mesmo período geológico de formação das encostas da montanha. O processo ocorreu quando partículas finas foram consolidadas sob forte pressão mecânica, transformando-se em blocos sólidos de rocha sedimentar antes de serem fatiadas por correntes de vento contínuas que sopraram pela cratera ao longo de éons.

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“Acreditamos que ela tenha sido, no passado, formada por sedimentos transportados pelo vento, talvez areia ou até mesmo cinzas levadas para dentro da cratera por atividades vulcânicas nas proximidades. Depois que os sedimentos se consolidaram e viraram rocha, eras de ação dos ventos esculpiram essa camada rochosa, formando cristas chamadas yardangs”, complementou Ashwin Vasavada.

Dados da observação fotográfica do rover Curiosity em Marte

  • Horário do registro: 8h30 no fuso solar marciano
  • Período temporal da missão: 4.982º sol na superfície do planeta
  • Composição da imagem: 6 registros individuais capturados pela Mastcam
  • Local de captação: Encosta noroeste do Monte Sharp, na cratera Gale

Camada de yardangs no Monte Sharp tem 16 quilômetros de extensão

A faixa geológica documentada pela Mastcam cobre uma faixa contínua de 16 quilômetros ao longo do flanco noroeste do Monte Sharp, uma montanha que totaliza 5 quilômetros de altitude a partir da base da cratera Gale

. A disposição desses estratos apresenta características singulares que desafiam as linhas tradicionais de deposição de solo observadas anteriormente na área.

Segundo os estudos conduzidos pelo laboratório espacial, as rochas esculpidas não seguem o alinhamento basal dos estratos vizinhos da montanha, encontrando-se depositadas sobre uma discordância, termo geológico que define uma interrupção prolongada no registro sedimentar provocada pelo desgaste de superfícies antigas.

“Contudo, a camada de yardangs não parece fazer parte da sequência contínua de estratos que compõem as camadas sobrepostas do Monte Sharp. Ela foi acrescentada um pouco mais tarde. Está acima do que os geólogos chamam de discordância: um intervalo temporal em que camadas anteriores foram erodidas antes que novas camadas se depositassem sobre elas”, explicou Ashwin Vasavada.

A subida gradual da montanha representa a travessia mais íngreme já executada por um equipamento robótico em outro corpo celeste. Desde o início de sua ascensão, o Curiosity acumulou mais de 1 quilômetro de elevação vertical, superando marcas de veículos anteriores e alcançando zonas onde a história climática do planeta está registrada em estratos minerais sedimentares formados por sedimentação lacustre.

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Cronologia e marcos da missão do Curiosity na cratera Gale

  • 26 de novembro de 2011: Lançamento do veículo a partir do território norte-americano
  • 5 de agosto de 2012: Pouso operacional do equipamento no interior da cratera Gale
  • 1 de setembro de 2014: Início dos deslocamentos na encosta do Monte Sharp
  • 11 de agosto de 2026: Obtenção das seis fotos que compõem o panorama matinal

Pesquisa geológica investiga transição hídrica de Marte

Os diferentes níveis do Monte Sharp funcionam como um registro geológico contínuo da transformação ambiental do planeta, documentando o período em que Marte abrigava rios e lagos perenes até a dessecação completa que resultou no deserto árido atual. A agência mantém dois rovers ativos em solo marciano, já que o Perseverance executa coletas geológicas simultâneas na cratera Jezero, localizada no hemisfério norte do planeta.

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Antes de chegar fisicamente à base das escarpas observadas, o Curiosity passará os próximos meses percorrendo terrenos ricos em depósitos de sulfatos e carbonatos minerais, substâncias formadas após a dessecação gradual de antigos reservatórios de água salobra. A origem exata das partículas que compõem os yardangs, que podem ser grãos de areia suspensos por ventanias ou cinzas de vulcanismo antigo, permanece sem confirmação conclusiva e dependerá da amostragem física de solo que a agência espacial planeja realizar entre 2027 e 2028.