Astrônomos acham planeta fênix nascido dos restos de estrela morta

Telescópio Espacial Hubble Foto: Telescópio Espacial Hubble - Paopano/ Istockphoto.com

Astrônomos da Universidade de Warwick identificaram o primeiro candidato a planeta de segunda geração formado diretamente pelos restos expelidos por uma estrela morta. O corpo celeste orbita a anã branca HS 0209+0832 em um período de 4,4 dias e representa um caso inédito de reorganização de matéria estelar em um sistema planetário que já havia passado pelo fim do seu ciclo original.

A descoberta foi divulgada na segunda-feira (5) na revista Nature Astronomy e descreve um gigante gasoso com dimensões semelhantes às de Júpiter. “Este é o primeiro exemplo de um planeta se formando ao redor de uma anã branca“, afirmou o astrofísico Jamie Williams, doutorando na Universidade de Warwick e autor principal do trabalho científico, em tradução livre.

Como a composição química da anã branca HS 0209+0832 denunciou o novo corpo?

A equipe de pesquisadores liderada por Jamie Williams chegou ao candidato após cruzar dados históricos de radiação ultravioleta com medições recentes de brilho. A reanálise de arquivos coletados pelo telescópio espacial Hubble e pelo observatório FUSE apontou a presença incomum de metais pesados na atmosfera da estrela morta, com taxas expressivas de nióbio, cobre e zinco. O material não apresentava traços significativos de ferro ou silício, elementos que costumam compor poeira rochosa e asteroides comuns em sistemas estelares.

Pela gravidade extrema das anãs brancas, qualquer elemento pesado presente nas camadas externas afunda em direção ao núcleo denso em períodos curtos. A permanência de nióbio, elemento cuja concentração foi medida em patamar 1.000 vezes maior do que a abundância solar, indicou que matéria gasosa está caindo de modo contínuo sobre o astro. Como o nióbio é sintetizado e lançado ao espaço nas etapas finais da vida de uma estrela, os cientistas constataram que a fonte desse material eram as próprias camadas ejetadas no passado pelo astro original.

O professor Boris Gänsicke, do Departamento de Física da Universidade de Warwick e coautor do estudo, detalhou o processo de reconstrução do sistema. “O que é notável sobre o planeta ao redor de HS 0209+0832 é que este não é um planeta vindo de outro lugar, ou um sobrevivente do nascimento do sistema, parece ter sido construído a partir do próprio material que sua estrela expeliu ao morrer. De certa forma, este sistema deu à luz um novo mundo usando as fundações do antigo”, declarou o físico.

Satélite TESS registra variações a 6 milhões de quilômetros da estrela

A segunda pista indispensável para consolidar a hipótese veio das observações do satélite caçador de exoplanetas TESS, operado pela Nasa. O equipamento registrou oscilações periódicas na luminosidade da anã branca HS 0209+0832 a cada 4,399 dias. O intervalo regular é compatível com o trânsito ou interação gravitacional de um corpo de grande massa situado a cerca de 6 milhões de quilômetros da superfície estelar.

Essa proximidade extrema coloca o gigante gasoso em uma zona de radiação intensa gerada pela anã branca, cuja temperatura superficial atinge 35.800 K. A energia emitida pela estrela jovem, que iniciou sua fase de resfriamento há cerca de 5 milhões de anos, vaporiza camadas externas da atmosfera do planeta. Os gases arrancados são puxados pela gravidade da estrela em um processo contínuo de acreção, gerando o sinal químico incomum detectado pelos instrumentos.

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“Uma fênix renasce das cinzas de sua predecessora, e este planeta é formado a partir das cinzas da estrela”, disse Jamie Williams ao explicar o mecanismo de sobrevivência e recomposição da matéria em Coventry, na Inglaterra, sede da universidade britânica.

Dados observacionais do sistema estelar HS 0209+0832

  • Data da publicação do estudo: segunda-feira, 5 de outubro de 2026, na revista Nature Astronomy
  • Instituição responsável pela análise: Universidade de Warwick, situada em Coventry, Inglaterra
  • Data da observação ultravioleta original pelo Hubble: 10 de janeiro de 1999
  • Período de órbita do planeta candidato: 4,4 dias (precisamente 4,399 dias)
  • Distância orbital em relação à anã branca: aproximadamente 6 milhões de quilômetros
  • Temperatura superficial calculada da estrela: 35.800 K
  • Tempo decorrido desde a formação da anã branca: 5 milhões de anos

Histórico de planetas em restos estelares desde 1992

A existência de mundos formados após o colapso estelar é um fenômeno raro que a astronomia documentou pela primeira vez em 1992, quando os primeiros exoplanetas confirmados da história foram detectados ao redor de um pulsar, um remanescente denso formado por estrelas de nêutrons. Desde então, planetas de segunda geração permaneciam restritos a esses ambientes extremos dominados por campos magnéticos intensos e rotação acelerada.

O achado em torno de HS 0209+0832 marca a primeira vez em que a formação pós-morte estelar é identificada em uma anã branca. Esse resultado carrega relevância para a compreensão da evolução galáctica, uma vez que mais de 95% das estrelas da Via Láctea, incluindo o Sol, encerram sua existência ativa como anãs brancas. Os modelos clássicos previam a destruição ou ejeção de planetas próximos durante a expansão da estrela na fase de gigante vermelha, mas não previam que parte do gás expelido pudesse se condensar em um novo disco protoplanetário ao redor do núcleo remanescente.

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A localização do sistema na galáxia permanece com pequenas variações nas medições científicas atuais, figurando entre 250 e 270 anos-luz de distância da Terra, conforme diferentes levantamentos astronômicos conduzidos por equipes internacionais.

Próximos passos com o Telescópio Espacial James Webb

Os pesquisadores ressaltam que o corpo celeste ainda detém o status científico de candidato a planeta, uma vez que não foi fotografado de forma direta pelos instrumentos disponíveis. As variações cíclicas de luz também podem envolver a dinâmica de estruturas densas de gás em evaporação que acompanham a órbita.

A existência definitiva do planeta gigante e a medição detalhada de sua massa dependem de observações complementares já planejadas com os sensores infravermelhos do Telescópio Espacial James Webb (JWST). As novas medições buscarão separar a assinatura térmica da atmosfera em evaporação do sinal emitido pelo núcleo do astro, fornecendo confirmação visual e espectroscópica sobre o processo de nascimento de mundos em sistemas estelares extintos.

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