Lontras se multiplicam em Singapura e desafiam gestao urbana

Lontra - Harry Collins Photography / shutterstock.com Foto: Lontra - Harry Collins Photography / shutterstock.com

A população de lontras-de-pelagem-lisa em Singapura alcançou pelo menos 170 espécimes divididos em 17 grupos familiares, consolidando a expansão da espécie pelo território urbano. O salto demográfico fez o poder público avaliar intervenções diretas de manejo, como esterilização cirúrgica e translocação de bandos, para mitigar os conflitos crescentes em áreas residenciais e parques da ilha.

A proliferação dos animais ocorreu após décadas de obras públicas focadas na limpeza de rios e na recomposição de margens fluviais. De acordo com o professor sênior do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade Nacional de Singapura e coautor de pesquisas sobre a espécie, N Sivasothi, o comportamento desses mamíferos reflete a ocupação contínua do ambiente urbano. “Elas não têm medo, e as famílias mais ousadas passam direto por nós (…) Não há um lugar em Singapura onde você ficaria completamente isolado das lontras”, afirmou o professor, em tradução livre.

Expansão das lontras em Singapura mobiliza o National Parks Board

O National Parks Board (NParks), órgão governamental responsável pela gestão de parques e fauna em Singapura, registrou um aumento expressivo no número de notificações enviadas pela população nos últimos anos. Os moradores relataram invasões de animais a propriedades particulares, ataques a peixes ornamentais em condomínios e incidentes com frequentadores de áreas públicas de lazer, fazendo as queixas subirem de 208 registros em 2020 para 305 ocorrências em 2021. Em 13 de janeiro de 2026, a autoridade ambiental confirmou que estuda medidas de esterilização e realocação para equilibrar a convivência entre a vida selvagem e a população metropolitana.

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Lontra - Peter K. Ziminski/ Shutterstock.com
Foto: Lontra – Peter K. Ziminski/ Shutterstock.com

O diretor do grupo de gestão de vida selvagem do NParks, How Choon Beng, declarou que a instituição mantém equipes dedicadas ao rastreamento dos bandos para fundamentar decisões administrativas. “Junto com o Grupo de Trabalho da Lontra e nossa comunidade de observadores de lontras, o NParks monitora as lontras regularmente para entender melhor sua população e distribuição”, disse How Choon Beng, em tradução livre.

Dados do censo e distribuição das lontras em Singapura

Uma pesquisa científica conduzida pela bióloga Anusha Shivram, publicada em 1 de março de 2023 no Journal of Mammalogy, documentou a evolução demográfica da Lutrogale perspicillata no país com base em registros verificados até o início de 2021. Os dados revelaram a formação de grupos em canais, manguezais, represas e lagos:

  • População mínima registrada em 2021: 170 indivíduos distribuídos em 17 grupos familiares
  • População mínima apurada em 2017: 79 animais divididos em 11 grupos familiares
  • Variação de tamanho dos grupos: bandos compostos por 2 até 24 animais
  • Classificação global de conservação: espécie Vulnerável na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN)
  • Marco da recolonização inicial: ano de 1998, com a chegada de um casal à Reserva de Zonas Úmidas de Sungei Buloh
  • Principal ameaça de mortalidade: colisões com veículos automotores em vias próximas a corpos d’água

Atropelamentos viários ameaçam lontras de Singapura

Embora os números indiquem prosperidade reprodutiva, a vida em meio à malha viária metropolitana gera perigos diários para os grupos familiares. O estudo científico publicado no Journal of Mammalogy identificou os atropelamentos por automóveis como a principal causa de morte documentada entre as lontras na ilha. As colisões fatais concentram-se em pontes, rodovias e avenidas erguidas ao lado de represas e canais artificiais, pontos críticos onde os animais precisam cruzar faixas de tráfego para transitar entre bacias hidrográficas distintas à procura de alimento.

A locomoção terrestre é indispensável para que as famílias acessem novos trechos de rios e mantenham a busca por cardumes. Quando canais de drenagem sofrem bloqueios ou enfrentam períodos de cheia intensa, os bandos sobem às pistas pavimentadas e entram em contato direto com o trânsito da cidade, elevando a mortalidade de adultos e filhotes.

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Recuperação de rios em Singapura permitiu retorno da espécie Lutrogale perspicillata

As lontras-de-pelagem-lisa haviam desaparecido quase por completo do território de Singapura durante a década de 1970. Naquele período, o crescimento industrial acelerado provocou a poluição severa dos corpos hídricos da cidade-estado, enquanto a canalização de concreto de rios como o Rio Singapura eliminou a vegetação ribeirinha necessária para abrigo e reprodução. Sem refúgios seguros e com o colapso dos estoques de peixes nas águas poluídas, a espécie passou cerca de três décadas sem registros confirmados na região continental.

A reversão desse quadro começou com programas estatais de despoluição hídrica e com projetos de renaturalização que reconstituíram as margens de terra e vegetação ao longo dos canais. Em 1 de janeiro de 1998, fiscais ambientais avistaram o primeiro casal reprodutor na Reserva de Zonas Úmidas de Sungei Buloh, no noroeste do país. A partir dessa fixação inicial, novas ninhadas se dispersaram pelos reservatórios conectados, aproveitando a recuperação ecológica para expandir sua presença geográfica.

Monitoramento de lontras em 2026 e limitações do censo

O tamanho exato da população viva em 2026 ainda não foi estabelecido por meio de um novo censo nacional consolidado e publicado pelas autoridades científicas. Pesquisadores da Universidade Nacional de Singapura e equipes técnicas do NParks trabalham com a referência mínima de aproximadamente 170 espécimes monitorados com regularidade. O órgão ambiental mantém os estudos sobre métodos de esterilização e realocação territorial como alternativas para conter o avanço desordenado sobre áreas residenciais nos próximos anos.

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