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Mix Vale

A cidade de São Paulo, a maior metrópole da América Latina, esconde sob seu denso tecido urbano uma impressionante biodiversidade que persiste e se adapta aos desafios da expansão. Um programa jornalístico recente investigou a complexa convivência entre o avanço da urbanização e a vida silvestre nativa, destacando iniciativas cruciais de recuperação e defesa da fauna e flora locais.

Apesar da predominância humana ter alterado drasticamente a paisagem ao longo dos séculos, a capital paulista ainda é lar de diversas espécies, com registros históricos e a própria toponímia de muitos locais mantendo viva a memória dessa rica herança natural. O estudo aponta para a urgência em reconhecer e proteger esses ecossistemas remanescentes, que são vitais para o equilíbrio ambiental da região.

Caminhos da Reportagem desta segunda (7) analisa a convivência entre cidade e vida selvagem em São Paulo
Caminhos da Reportagem desta segunda (7) analisa a convivência entre cidade e vida selvagem em São Paulo Crédito: Caminhos da Reportagem desta segunda (7) analisa a convivência entre cidade e vida selvagem em São Paulo

Memória ancestral e nomes que contam histórias

A presença da fauna selvagem na região de São Paulo é tão antiga que se reflete na própria linguagem e nos nomes dados pelos povos originários a diversas áreas. Essa conexão profunda com o ambiente natural demonstra uma percepção de integração que antecede a urbanização intensiva.

  • M’Boi Mirim: Esta denominação, de origem tupi-guarani, significa “cobra pequena”, remetendo a espécies como a dormideira (Dipsas mikanii), comum na região.
  • Rio Tamanduateí: O nome do rio evoca a presença do tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), um animal de grande porte que habitava as margens e florestas locais.
  • Tatuapé: O termo se traduz como “caminho do tatu”, indicando a trilha percorrida pelo tatu-galinha (Dasypus novemcinctus), um mamífero característico da fauna brasileira.

Essa relação ancestral com a fauna é ativamente preservada na Terra Indígena Jaraguá, onde aproximadamente 45 famílias Guarani mantêm um modo de vida sustentável e um profundo vínculo espiritual com os animais. Márcio Mendonça Boggarim, liderança tradicional da Tekoa Yvy Porã, conhecido como Guarani Karaí Werá Mirim em tupi-guarani, sublinha a importância das abelhas nativas sem ferrão para a cultura local. “Todos os animais, para nós Guarani, são considerados sagrados. O Guarani se fortalece mentalmente através dessas espécies nativas, principalmente a Jataí. A gente utiliza a cera, a própolis e o mel para fazer batismo e curar pessoas doentes”, explica ele, ressaltando o valor medicinal e espiritual desses insetos.

Esforços de recuperação e o papel da ciência

A degradação histórica das matas paulistanas impulsionou não apenas iniciativas indígenas, mas também projetos privados de restauração ambiental. No extremo sul da cidade, dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Capivari-Monos, um notável trabalho de reflorestamento começou na década de 1960. Jayme Roso reconstruiu uma área desmatada, que hoje é a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Sítio Curucutu, tendo plantado cerca de 650 mil mudas.

Sua filha e atual gestora da reserva, Ana Roso, contextualiza que o trabalho de recuperação se tornou um ciclo natural, com a própria fauna contribuindo significativamente. “Meu pai reflorestou no passado, mas depois a anta fez o trabalho dela: ela come frutos maiores e vai dispersando as sementes, ajudando a reflorestar”, detalha Ana, ilustrando o papel fundamental da anta (Tapirus terrestris) na dispersão de sementes e na regeneração florestal.

A ciência também oferece um panorama da situação da biodiversidade na capital. O ornitólogo Luís Fábio Silveira, diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP), recorda que a região de São Paulo se caracterizava por uma transição geográfica única. “Tinha essa mescla de Mata Atlântica com campos naturais, tanto que a cidade, antes de chamar São Paulo, se chamava São Paulo dos Campos de Piratininga”, informa o especialista, destacando a riqueza ecológica original da área.

Desafios da conservação e a participação comunitária

O Inventário da Fauna Silvestre de São Paulo revela que o município possui 1.475 espécies de animais catalogadas, das quais 223 se encontram ameaçadas de extinção. Para atender aos animais vitimados por tráfico, atropelamentos, choques elétricos e linhas de pipa com cerol, o Centro de Manejo e Conservação de Animais Silvestres (Cemacas) opera em duas unidades: uma no Parque do Ibirapuera e outra no Refúgio de Vida Silvestre Anhanguera.

O médico veterinário Felipe Lucato, membro da equipe do Cemacas, enfatiza a magnitude do trabalho realizado pela instituição. “O número anual de animais que a gente recebe é em torno de 13 mil. Na alta temporada, chegamos a receber até 2 mil animais por mês”, revela. Contudo, nem todos os espécimes resgatados conseguem ser reintroduzidos em seus habitats naturais, principalmente devido ao manejo humano inadequado e às sequelas do tráfico ilegal.

A preservação da fauna ganha um reforço importante com a participação ativa da sociedade por meio da ciência cidadã. A fotógrafa e educadora Paula Romano transforma seus registros de insetos em valiosos dados para pesquisadores na plataforma iNaturalist. Com mais de 24 mil postagens, ela já contribuiu para a descrição de novas espécies e para o mapeamento de animais ameaçados de extinção. “Felizmente, agora a gente tem visto muitos pesquisadores usando esse material. A minha autoestima é lapidada a partir disso”, declara Paula, ressaltando o impacto de sua contribuição.

A arte como ponte para a conscientização ambiental

A observação atenta do ambiente urbano também pode inspirar grandes manifestações artísticas que promovem a conscientização. O repórter fotográfico Paulo Pinto, ao registrar pássaros pousados em fios elétricos na cidade de Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, capturou uma imagem que despertou o interesse do diretor de arte e músico Jarbas Agnelli. “Cinco fios é o mesmo número de linhas numa partitura. Fui pro piano e interpretei aquilo”, comenta Agnelli, que transformou a fotografia em uma composição musical e um vídeo, alcançando milhões de visualizações.

Quinze anos após a criação original, Jarbas e Paulo retornaram a Santana do Livramento para desenvolver uma nova sinfonia. O projeto, batizado de Sinfonia da Energia, incorporou outras sessenta fotografias de diversas partes do mundo e foi realizado em parceria com a Agência África Creative e a Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee). A campanha foi agraciada com o Leão de Ouro no Festival Internacional de Criatividade de Cannes. “Qual não foi nossa surpresa ao verificar que os pássaros já não estavam mais lá, porque o dono da casa que alimentava os passarinhos já tinha ido embora também. E a mãe que indicou também já não estava mais aqui. Então, diante de tudo isso, o que ficou de lição? Que nós temos que aproveitar o momento”, reflete Paulo, evidenciando a efemeridade da vida e a importância da valorização do presente.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2011. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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