Megacauda sungei: fóssil achado na China revela origem da amamentação e deglutição

Arqueologia, escavação - PJ photography / shutterstock.com Foto: Arqueologia, escavação - PJ photography / shutterstock.com

O fóssil de Megacauda sungei, parente extinto dos mamíferos que viveu há cerca de 165 milhões de anos na China, revelou as origens anatômicas da deglutição moderna e da capacidade de amamentar. O estudo com a descrição detalhada do animal foi publicado na revista científica Nature nesta quarta-feira (7).

Com peso estimado entre 1 e 2 quilos e comprimento de 0,5 metro da ponta do focinho à cauda, a espécie é considerada o maior mamaliaforme registrado do período Jurássico. O exemplar conservou elementos frágeis do aparelho hioide e do suporte do palato mole, partes da garganta que raramente sobrevivem ao processo de fossilização.

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Megacauda sungei e o funcionamento da garganta

A preservação dos ossos da garganta permitiu identificar uma divisão funcional entre as vias aéreas e a cavidade oral. Essa configuração possibilitava ao animal engolir alimentos mastigados e líquidos contra a força da gravidade, além de permitir aos recém-nascidos realizar a sucção do leite materno. Em répteis como os crocodilos, a ingestão depende da inclinação da cabeça para que o alimento desça pela ação gravitacional, enquanto os mamíferos realizam a deglutição por meio de pressão muscular e movimentação coordenada da língua.

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Foto: fóssil – Ayman Zaid/Shutterstock.com

A presença dessas estruturas em um espécime de 165 milhões de anos mostra que a biomecânica oral surgiu dezenas de milhões de anos antes dos grupos modernos de mamíferos. A conformação anatômica encontrada na parte inferior do crânio do animal apresenta pontos de fixação muscular similares aos observados em espécies atuais, a exemplo de gambás e cães, evidenciando uma continuidade funcional na história evolutiva dessas linhagens.

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“Esta é uma inovação evolutiva incrivelmente importante. Depois que os mamíferos mastigam seu alimento, sejam plantas ou carne, todos eles o engolem da mesma forma eficiente e sem esforço”, afirmou o professor de Biologia Organísmica e Anatomia da Universidade de Chicago e coautor sênior do estudo, Zhe-Xi Luo, em tradução livre.

O paleontólogo e professor da Universidade de Bonn Thomas Martin, também coautor da pesquisa, avaliou o alcance da adaptação mecânica para o metabolismo dos organismos. “Apenas por meio desse pré-requisito o desenvolvimento cerebral até o ser humano se tornou possível”, declarou Martin, em tradução livre.

Anatomia de quimera com cauda de lontra e patas de ornitorrinco

O esqueleto fossilizado reúne características corporais associadas a diferentes animais modernos, resultado de processos de evolução convergente em que linhagens distintas desenvolvem soluções anatômicas parecidas em ambientes similares. O Megacauda sungei contava com uma cauda larga e achatada comparada à de lontras e castores, enquanto sua pelve e seus membros posteriores eram adaptados à propulsão aquática como as patas do ornitorrinco atual.

“O Megacauda é uma quimera moldada por duas linhas de evolução convergente. Sua pelve, patas traseiras e pés são muito parecidos com os do ornitorrinco. Mas seus dentes e mandíbulas lembram os de um predador aquático”, disse Zhe-Xi Luo. O pesquisador explicou que, ao contrário do ornitorrinco moderno que busca pequenos invertebrados, o animal do Jurássico caçava peixes e salamandras com dentição especializada em cortar carne.

O nome científico homenageia essas características e a ciência regional. O gênero Megacauda faz menção à cauda achatada de grandes proporções, enquanto o epíteto sungei presta homenagem ao professor Sun Ge, diretor honorário do Museu Paleontológico de Liaoning. O pesquisador Yukun Li, do Museu Paleontológico de Liaoning e da Universidade Normal de Shenyang, também participou da autoria do artigo internacional.

Dados do fóssil de Megacauda sungei e da pesquisa

  • Data da publicação do estudo: 7 de outubro de 2026, na revista Nature
  • Data do achado inicial: final de 2015, por trabalhadores locais
  • Local de localização: pedreira abandonada em Xiayingzi, Mongólia Interior, China
  • Datação geológica: rochas do período Jurássico, entre 163 milhões e 168 milhões de anos atrás
  • Dimensões estimadas: comprimento de 0,5 metro e peso corporal de 1 a 2 quilos
  • Grupo biológico: docodontes (Docodonta), linhagem extinta de mamaliaformes

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Evolução dos docodontes durante a Era Mesozoica

O Megacauda sungei pertencia à ordem dos docodontes, grupo extinto de mamaliaformes que prosperou durante a Era Mesozoica e desapareceu há cerca de 100 milhões de anos. Embora guardem parentesco próximo com os mamíferos, esses animais formavam uma ramificação própria que se diferenciou em múltiplos nichos ecológicos, contrariando a ideia tradicional de que os ancestrais dos mamíferos eram apenas pequenos seres insetívoros e noturnos.

Registros fósseis anteriores de docodontes já haviam revelado animais com hábitos escavadores de solo, espécies com membranas adaptadas ao voo planado e linhagens arborícolas que escalavam galhos. O modo de vida do Megacauda combinava permanência na água doce e abrigo em tocas terrestres próximas a rios e lagos, ampliando o conhecimento sobre o repertório comportamental do grupo no período em que os dinossauros dominavam os continentes.

Técnicas de análise e limitações dos tecidos moles

Como os tecidos moles da garganta, a musculatura interna e as glândulas mamárias não se preservam no sedimento rochoso, os paleontólogos não encontraram essas estruturas diretamente no fóssil. A identificação de seu funcionamento e a presença dos músculos foram estabelecidas por meio de tomografia computadorizada, fluorescência de raios X e reconstrução biomecânica comparada a animais vivos.

As análises demonstraram que as inserções ósseas no crânio e na mandíbula exigiam uma rede muscular equivalente àquela usada pelos filhotes atuais para sugar o leite. As pesquisas prosseguem no Museu Paleontológico de Liaoning com a análise comparativa de novos fragmentos ósseos da mesma formação geológica para mapear outras etapas da evolução dos docodontes.

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