Ciência

Cometa interestelar 3I/ATLAS tem até 12 bilhões de anos, aponta estudo

Cometa 3I/ATLAS
Cometa 3I/ATLAS - ESA/Juice/JANUS

Cientistas identificaram que o cometa interestelar 3I/ATLAS se formou entre 10 e 12 bilhões de anos atrás, o que o torna o objeto mais antigo já registrado em trânsito pelas proximidades do Sol. A conclusão consta em uma pesquisa liderada pelo astroquímico Martin Cordiner, do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, em Greenbelt, no estado norte-americano de Maryland, publicada na revista científica Nature em 22 de junho de 2026.

O corpo celeste é mais antigo que a Terra e que o próprio Sistema Solar, cuja formação ocorreu há aproximadamente 4,5 bilhões de anos. “Nunca vimos antes um objeto como o 3I/Atlas“, afirmou Cordiner a respeito da estrutura química identificada na composição do visitante cósmico.

Assinatura química revela origem na infância da Via Láctea

Cometa 3I/ATLAS - NASA
Foto: Cometa 3I/ATLAS – NASA

A determinação da idade do cometa foi possível graças a medições espectroscópicas obtidas pelo Telescópio Espacial James Webb e pelo conjunto Atacama Compact Array. Ao examinar os gases liberados pelo núcleo durante a aproximação solar, os pesquisadores detectaram uma escassez incomum de carbono-13, um isótopo pesado do carbono que possui um nêutron a mais em seu núcleo atômico em comparação com o carbono-12, a forma mais abundante do elemento.

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Na evolução galáctica, quase todo o carbono é forjado no interior de estrelas mais massivas que o Sol por meio de reações nucleares e depois expelido ao espaço quando esses astros chegam ao fim de seus ciclos. Durante a queima estelar, um processo termonuclear conhecido como combustão de fundo quente converte continuamente carbono-12 em carbono-13, elevando a proporção desse isótopo pesado na Via Láctea ao longo de bilhões de anos. Ao apresentar níveis extremamente reduzidos de carbono-13 em suas moléculas, o 3I/ATLAS comprova que sua matéria se condensou quando o cosmos contava com apenas cerca de 13% de sua idade atual estimada em 13,8 bilhões de anos, preservando um registro intacto dos primórdios da evolução química da galáxia.

Os dados também revelaram que o cometa se aglutinou sob frio extremo, em um ambiente térmico calculado em aproximadamente -243 °C, o equivalente a cerca de 30 Kelvin, nas regiões periféricas de seu sistema de origem. Para Cyrielle Opitom, astrônoma e pesquisadora da Universidade de Edimburgo que participou de análises sobre o objeto, a passagem do cometa funciona como uma janela científica singular. “Eles são uma espécie de fósseis de um processo de formação planetária que aconteceu muito longe, mas que temos a chance de estudar de muito mais perto”, declarou a pesquisadora, em tradução livre.

Cronologia da passagem do cometa pelo Sistema Solar

  • 1 de julho de 2025 — O telescópio do projeto ATLAS situado em Río Hurtado, no Chile, detecta o cometa interestelar pela primeira vez.
  • 29 de outubro de 2025 — O 3I/ATLAS atinge o periélio, ponto de maior aproximação do Sol, a cerca de 1,36 unidade astronômica, com velocidade máxima de 68,3 quilômetros por segundo.
  • 19 de dezembro de 2025 — O visitante atinge a distância mínima em relação à Terra, passando com segurança a cerca de 1,8 unidade astronômica, equivalente a 270 milhões de quilômetros.
  • 22 de junho de 2026 — O estudo sobre a espectroscopia e a idade de até 12 bilhões de anos do cometa é publicado na revista britânica Nature.
  • 1 de janeiro de 2029 — Data calculada pelos astrônomos em que a rota de saída do corpo celeste deve cruzar a órbita de Plutão.

Histórico de visitantes interestelares e velocidade de escape

O 3I/ATLAS é apenas o terceiro corpo originário de fora do Sistema Solar confirmado pela ciência moderna. Antes dele, os astrônomos detectaram o asteroide 1I/’Oumuamua, descoberto em 2017, e o cometa 2I/Borisov, identificado em 2019. Esses objetos são ejetados dos sistemas estelares em que nasceram devido a perturbações gravitacionais provocadas por planetas em formação ou encontros estelares, passando a vagar pelo vácuo entre as estrelas até ingressarem temporariamente em outras vizinhanças planetárias.

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Antes de receber a aceleração impulsionada pela gravidade solar, o 3I/ATLAS já viajava pelo espaço interestelar a uma velocidade de excesso hiperbólico de 58 quilômetros por segundo. Medições conduzidas com radiotelescópios pelo programa Breakthrough Listen, voltado à busca de sinais tecnológicos no espaço, descartaram a emissão de tecnossinaturas artificiais, confirmando que a estrutura possui comportamento puramente astrofísico e natural.

O ritmo de detecções desse tipo de fenômeno deve sofrer um salto nos próximos anos com a entrada em operação do Observatório Vera C. Rubin, situado no norte do Chile. A instalação conta com a maior câmera fotográfica astronômica já construída e fará varreduras sistemáticas do céu noturno, com capacidade estimada para encontrar dezenas de corpos interestelares ao longo da próxima década.

Lacunas científicas e rota rumo ao espaço profundo

Apesar da caracterização isotópica do objeto, a comunidade astronômica ainda não identificou a estrela-mãe de onde o cometa foi arremessado, devido ao longo período de trânsito e à velocidade com que cruzou o disco galáctico. O mecanismo específico responsável por sua ejeção original, como a ação gravitacional de um gigante gasoso primitivo ou a passagem de uma estrela vizinha, também permanece indeterminado pelos modelos atuais.

Sem apresentar risco de colisão contra a Terra em qualquer etapa de seu trajeto, o 3I/ATLAS segue uma trajetória hiperbólica aberta que o conduz para fora dos domínios do Sol. A previsão dos modelos orbitais indica que o cometa deve deixar em definitivo os confins do Sistema Solar por volta de 2035.

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