Pacientes mulheres têm menos acesso a cirurgias do que homens com o mesmo quadro

Médico, atendimento - Lee Charlie/shutterstock.com

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Mulheres com os mesmos quadros clínicos que homens recebem significativamente menos intervenções invasivas ou ativas, como cirurgias, stents e analgésicos fortes, no atendimento médico hospitalar. A constatação integra uma ampla revisão científica conduzida por pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de St Andrews, na Escócia, publicada em 16 de setembro de 2026 na revista PLOS One. O levantamento identificou disparidades sistemáticas entre os sexos sem que protocolos oficiais justificassem condutas diferenciadas.

A pesquisa partiu da triagem de 1.112 trabalhos na literatura internacional e selecionou 38 estudos retrospectivos de prontuários médicos voltados à comparação direta de atendimentos. Em 33 dessas 38 análises clínicas, os cientistas comprovaram que pacientes do sexo feminino receberam abordagens menos ativas do que homens diagnosticados com as mesmas enfermidades. A professora honorária Miriam Veenhuizen, autora principal do trabalho, afirmou que a direção das conclusões não foi uma surpresa, mas sim a consistência dos resultados, já que o mesmo padrão apareceu na cardiologia, cirurgia, medicina de transplante e atendimento de emergência, mantendo-se após ajuste estatístico na maioria dos estudos.

Cardiologia e transplantes concentram maior disparidade no tratamento de mulheres

O desequilíbrio na assistência hospitalar ficou evidente no manejo de doenças cardiovasculares graves, como infarto agudo do miocárdio, arritmias e insuficiência cardíaca. Nesses casos, mulheres tiveram maior probabilidade de ser tratadas unicamente com medicamentos, além de receberem menor prescrição de estatinas. Homens com o mesmo diagnóstico foram encaminhados com frequência superior para intervenções cirúrgicas, incluindo a revascularização do miocárdio com ponte de safena e o implante de stents coronarianos, tubos metálicos em malha utilizados para desobstruir artérias e restabelecer o fluxo sanguíneo.

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Em outras especialidades de alta complexidade, o padrão de menor intervenção terapêutica para o público feminino se repetiu. Homens com doença de Parkinson apresentaram maior chance de indicação para o procedimento de estimulação cerebral profunda, enquanto pacientes masculinos com insuficiência hepática receberam mais transplantes de fígado em comparação com mulheres nas mesmas condições clínicas.

No setor de nefrologia, pacientes mulheres em hemodiálise tiveram probabilidade reduzida de receber acesso vascular permanente para filtrar o sangue, permanecendo dependentes de cateteres intravenosos por períodos mais longos. O estudo verificou também que essas pacientes tiveram menos prescrições de opioides voltados ao controle de dores agudas e crônicas.

Foto: Médico e paciente, urologista – Korrawin/ Istockphoto.com

Quais doenças apresentaram tratamento igual entre os sexos?

Apesar da prevalência de discrepâncias na maioria das enfermidades avaliadas, os pesquisadores da Universidade de St Andrews observaram que a diferença de conduta não ocorreu em todos os diagnósticos analisados nos prontuários médicos.

Nos registros sobre acidente vascular cerebral (AVC) e diabetes, a equipe não encontrou variações com relevância estatística nas condutas médicas adotadas para homens e mulheres. Em contrapartida, no acompanhamento de quadros de demência, as mulheres apresentaram maior probabilidade de receber cuidados e intervenções terapêuticas do que os homens.

Histórico de ensaios clínicos e conduta profissional explicam diferenças

A disparidade verificada nas decisões hospitalares ocorre sem respaldo em diretrizes assistenciais. Quase nenhum dos estudos examinados indicou a existência de normas médicas que orientassem tratamentos distintos com base no sexo biológico para os quadros de saúde revisados. Diante disso, o grupo de cientistas aponta raízes estruturais na formação dos consensos terapêuticos e na rotina dos consultórios.

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Ao longo do século 20, a sub-representação histórica de mulheres em ensaios clínicos fez com que diretrizes e dosagens fossem padronizadas a partir de respostas do organismo masculino. Ao mesmo tempo, estudos comportamentais indicam que profissionais de saúde tendem a classificar sintomas físicos relatados por mulheres como manifestações de ansiedade com maior frequência, gerando atrasos em diagnósticos mesmo diante de exames clínicos alterados.

Segundo o pesquisador Andrew O’Malley, coautor do estudo na Universidade de St Andrews, os achados servem de alerta para que os médicos verifiquem se o tratamento está sendo oferecido com base em critérios clínicos, e não em suposições.

Dados consolidados da pesquisa da Universidade de St Andrews

  • Trabalhos triados na busca bibliográfica: 1.112 estudos preliminares
  • Estudos de prontuários analisados comparativamente: 38 pesquisas
  • Pesquisas com diferenças confirmadas entre os sexos: 33 estudos
  • Estudos realizados em hospitais dos Estados Unidos: 26 pesquisas
  • Disparidade mantida após ajustes estatísticos: 25 de 29 estudos com análise multivariada
  • Artigos sobre desigualdade entre profissionais de 2018 a 2023: 551 trabalhos
  • Artigos sobre disparidades no cuidado a pacientes de 2018 a 2023: 41 trabalhos

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Desproporção na produção científica e próximos passos da investigação médica

A revisão chamou a atenção para o descompasso na literatura sobre equidade na medicina. Entre 2018 e 2023, publicaram-se 551 estudos sobre as desigualdades enfrentadas por médicas e profissionais de saúde em suas carreiras, enquanto apenas 41 artigos investigaram as diferenças de conduta sofridas pelos pacientes no mesmo intervalo.

“O que mais nos chamou a atenção foi o desequilíbrio na atenção. No mesmo período, 551 estudos examinaram a desigualdade de sexo que afeta médicos e outros profissionais de saúde. Apenas 41 examinaram o que acontece com os pacientes”, afirmou a professora Miriam Veenhuizen, em tradução livre.

Após a publicação dos dados clínicos na revista PLOS One, os pesquisadores da Universidade de St Andrews planejam analisar se ferramentas de inteligência artificial generativa reproduzem essas distorções ao sugerir condutas médicas, já que esses modelos são treinados com registros históricos de atendimento hospitalar.