A arroba do boi gordo no mercado paulista alcançou R$ 372,95 na segunda-feira (5), marcando o maior patamar nominal de toda a série histórica apurada pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, o Cepea, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo. A cotação recorde representa um avanço acumulado de 7,8% na comparação com os valores praticados no início de setembro de 2026, impulsionada por uma combinação de oferta restrita de animais prontos para abate e consumo interno aquecido.
O movimento de valorização ocorre em meio a desdobramentos diretos das barreiras comerciais impostas pela China e do aumento dos custos de reposição no campo. Conforme análise divulgada pelo Cepea na terça-feira (6), os produtores brasileiros reduziram o envio de lotes para engorda intensiva meses atrás diante de incertezas externas, o que culminou na escassez de animais terminados nos frigoríficos paulistas neste início de último trimestre.
Indicadores do mercado do boi gordo em outubro de 2026
- Preço recorde da arroba em São Paulo: R$ 372,95 verificado em 5 de outubro de 2026
- Variação mensal acumulada: alta de 7,8% em relação ao início de setembro de 2026
- Tarifa chinesa extra cota: sobretaxa de 55% em vigor desde 1 de outubro de 2026
- Cota preferencial para 2027: 1,128 milhão de toneladas com imposto de 12%
Recuo no confinamento e tarifas da China reduzem oferta
A retração no volume de gado terminado é reflexo direto de decisões tomadas pelos pecuaristas no meio do ano. Entre junho e julho de 2026, o setor reduziu o alojamento de animais nos confinamentos diante da iminência das sanções tarifárias chinesas sobre as compras excedentes de carne bovina brasileira. A menor entrada de bovinos nos piquetes de engorda resultou em uma lacuna de animais prontos para o abate no período atual.
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“Isso não estimulou muitos confinadores a colocar gado no coxo, principalmente nesse período entre junho e julho… daí isso se reflete nesse gado que estaria pronto agora”, afirmou o pesquisador Thiago Bernardino de Carvalho, do Cepea. Carvalho explicou que o comportamento cauteloso dos confinadores desorganizou a escala dos frigoríficos paulistas. “Esse cenário de incerteza em relação à compra da China fez com que a oferta ficasse mais ajustada”, completou o pesquisador.
A sobretaxa de 55% aplicada pela China entrou em vigor em 1 de outubro de 2026, após as exportações brasileiras atingirem o limite da cota anual fixada em 1,1 milhão de toneladas. A regra de salvaguarda havia sido estabelecida por Pequim no encerramento de 2025 para proteger pecuaristas chineses, prevendo sobretaxas para remessas fora da cota nos anos de 2026, 2027 e 2028. Antecipando o tributo elevado, os exportadores reduziram os embarques ao longo dos últimos meses para evitar custos adicionais, travando a cadeia de processamento.
Exportação de gado em pé encarece a reposição
Outro elemento de pressão sobre os preços nas fazendas é a saída massiva de gado vivo do território nacional. As vendas externas de gado em pé ao longo de 2026 absorveram parcelas expressivas de animais jovens, limitando a quantidade de bezerros e bois magros disponíveis para os invernistas locais e elevando as cotações de reposição nas praças do interior.
Com animais mais caros para repor o rebanho, o pecuarista paulista repassou os custos para a venda final aos frigoríficos, exigindo valores maiores por arroba comercializada. “É um animal jovem, mas ajuda a dinamizar a questão de oferta, precificação do bezerro, do boi magro. Então, a pressão também de preços mais altos da reposição empurra o preço da arroba”, declarou Thiago Bernardino de Carvalho.
O volume exato de animais vivos exportados em 2026 não foi informado nos relatórios do Cepea, mas a competição externa por esses lotes sustentou uma valorização contínua das categorias mais jovens, afetando a rentabilidade das indústrias que dependem do fornecimento regular de matéria-prima para manter linhas de desossa ativas.
Consumo interno aquecido impulsiona preços da carne
No mercado doméstico, o pesquisador do Cepea constatou que os valores no atacado e no varejo operam nos patamares mais elevados já registrados. O consumo de carne bovina manteve trajetória ascendente ao longo do ano, estimulado pela circulação de renda atrelada à realização de eleições e da Copa do Mundo em 2026, além de mudanças nos hábitos alimentares das famílias, que intensificaram a busca por proteínas animais.
“O mercado brasileiro está comprador…”, disse Carvalho ao avaliar o fluxo de vendas no varejo nacional. “Tudo isso ajuda a entender essa dinâmica. A gente tem mais dinheiro fluindo no mercado”, acrescentou o pesquisador, observando que a demanda doméstica tem absorvido a produção mesmo diante do nível elevado de endividamento da população.
No comércio exterior, as indústrias frigoríficas redirecionaram cargas após a União Europeia instituir um embargo contra carnes brasileiras em setembro de 2026. Os detalhes específicos das exigências técnicas europeias não foram divulgados pelo centro de pesquisas, mas o setor conseguiu transferir parte dos lotes para os Estados Unidos, mercado que ampliou as compras e atenuou os impactos das restrições da Europa.
Nova cota da China abre perspectiva para novembro
O setor pecuário nacional projeta o início dos embarques de carne sob a cota chinesa de 2027 a partir de 1 de novembro de 2026, data estimada pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes, a Abiec. O volume negociado envolverá 1,128 milhão de toneladas com a alíquota preferencial reduzida de 12%.
Negociações preliminares para a venda antecipada dessas cotas começaram a ser firmadas no encerramento de setembro. De acordo com o Cepea, os fechamentos de novos contratos devem ganhar intensidade nos próximos dias, após o fim do período de feriado nacional na China.
