Medicamentos agonistas de GLP-1 e GIP entram na mira de pesquisas científicas sobre o controle da impulsividade, mas médicos alertam que essas formulações não tratam o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Embora substâncias como tirzepatida e semaglutida apresentem reflexos em circuitos cerebrais de recompensa e alimentação, não há respaldo técnico para prescrição dessas drogas com finalidade psiquiátrica.
O alerta da comunidade médica surge após ensaios clínicos indicarem que pacientes em tratamento para perda ponderal relatam menor urgência por comida e redução do chamado ruído mental. Médicos e entidades representativas ressaltam que tais achados decorrem de vias metabólicas e não equivalem à remissão de quadros neurobiológicos como desatenção e hiperatividade.
Tirzepatida e os dados do ensaio clínico na Nature Medicine
Um ensaio clínico de fase 1 publicado na revista científica Nature Medicine em 25 de junho de 2025 avaliou a resposta de 114 adultos com sobrepeso ou obesidade submetidos ao uso de tirzepatida. O levantamento acompanhou as respostas dos voluntários diante de estímulos alimentares e identificou alterações comportamentais ligadas à tomada de decisões imediatas.
Os pesquisadores registraram que os participantes apresentaram uma diminuição considerável na impulsividade voltada à alimentação, acompanhada de mudanças objetivas no consumo energético diário. Os parâmetros observados na pesquisa clínica detalham essa resposta:
- 114 adultos com sobrepeso ou obesidade integraram o ensaio clínico de fase 1 avaliado na publicação científica.
- 658 kcal a menos na ingestão energética média durante o almoço em comparação aos padrões basais.
- 72,4% de redução média no consumo calórico durante a refeição monitorada após seis semanas de acompanhamento.
- Diminuição de índices de impulsividade alimentar e menor resposta a gatilhos externos de recompensa imediata.
Os números refletem o controle sobre a ingestão calórica em ambiente monitorado, mas especialistas frisam que os parâmetros medidos no ensaio não espelham o espectro clínico do TDAH em sua totalidade funcional e cognitiva.
Diferença clínica entre impulsividade e o diagnóstico de TDAH
A constatação de menor impulsividade alimentar em pessoas em tratamento para obesidade não habilita o uso das canetas emagrecedoras para distúrbios comportamentais ou atencionais. A manifestação da impulsividade no TDAH integra uma desregulação neurobiológica ampla, associada a disfunções executivas que afetam o planejamento de rotinas, o foco em tarefas não prazerosas e a regulação motora.
“Impulsividade e dificuldade de controle sobre determinados comportamentos podem aparecer no TDAH, mas não podemos concluir que um medicamento trata o transtorno simplesmente porque apresentou algum efeito sobre impulsividade em outro grupo de pacientes. TDAH envolve desatenção e/ou hiperatividade e impulsividade dentro de um quadro clínico muito mais complexo”, afirmou Tales Vilela, médico psiquiatra e especialista em Psiquiatria Infantil.
O médico e presidente da Academia Brasileira de Clínica Médica, Patrick Ferreira, apontou que a percepção individual de alívio pode levar a conclusões equivocadas sobre o mecanismo de ação dos fármacos. Segundo o médico, o arrefecimento da busca compulsiva por comida não significa melhora estrutural nas redes atencionais do cérebro.
“Quando o paciente passa a ter menos fome e menor preocupação constante com comida, ele pode interpretar essa experiência como uma sensação de maior controle. Isso é diferente de afirmar que houve melhora do TDAH. São medicamentos desenvolvidos e indicados dentro de contextos metabólicos específicos, e não devemos ampliar uma indicação apenas com base em percepções individuais”, declarou Patrick Ferreira.
Agonistas de GLP-1 e circuitos neurais de recompensa
As formulações análogas aos receptores de GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon 1) e de GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose) foram originalmente desenvolvidas e aprovadas para o manejo do diabetes tipo 2 e o controle do peso corporal. Essas substâncias atuam na motilidade gastrointestinal e no hipotálamo, promovendo saciedade precoce e reduzindo a velocidade do esvaziamento gástrico.
A neurociência investiga agora como essas moléculas interagem com vias dopaminérgicas associadas à motivação e ao reforço positivo no sistema nervoso central. A redução do interesse incessante por refeições calóricas demonstra que essas vias periféricas e centrais conversam de maneira direta, mas esse efeito fisiológico não transforma os medicamentos em estabilizadores comportamentais universais.
“Estamos descobrindo muito sobre essas moléculas, e provavelmente ainda veremos novas aplicações sendo estudadas. Mas existe uma distância importante entre um mecanismo biologicamente interessante, um resultado inicial de pesquisa e uma indicação terapêutica comprovada. O entusiasmo não pode correr mais rápido do que a evidência”, ressaltou Patrick Ferreira sobre o estágio atual dos dados científicos.
Orientações para pacientes que tratam TDAH e obesidade
A coexistência clínica de obesidade e TDAH ocorre com relativa frequência na prática médica, demandando supervisão contínua para evitar interferências farmacológicas entre substâncias psicoestimulantes e fármacos de ação metabólica. Profissionais de saúde alertam que nenhuma medicação psiquiátrica em uso deve ser suspensa com a expectativa de substituição por canetas aplicadoras.
A recomendação é que pacientes diagnosticados com TDAH mantenham contato regular com o médico assistente e informem qualquer oscilação de sintomas após o início de terapias para emagrecimento, garantindo que as duas condições sejam tratadas por suas respectivas diretrizes clínicas validadas.
“Se um paciente com TDAH percebe mudança no foco, na impulsividade, no sono, no humor ou no comportamento depois de iniciar outro medicamento, essa informação é relevante e deve ser levada ao médico. O que não devemos fazer é interromper o tratamento do TDAH ou começar uma caneta esperando obter esse efeito”, orientou Tales Vilela.
Até o momento, não existem ensaios clínicos randomizados em humanos concluídos que comprovem a eficácia ou a segurança do uso de tirzepatida ou semaglutida especificamente para o tratamento diagnóstico do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. Qualquer ajuste em planos terapêuticos depende de avaliação em consultório médico.
