Culinária da Idade do Bronze tinha tempero de resina em Hama

Panelas antigas, panelas de barro 1 - Alberto Zamorano / Shutterstock.com Foto: Panelas antigas, panelas de barro 1 - Alberto Zamorano / Shutterstock.com

As panelas de cerâmica de Hama, na Síria, preservaram resíduos de 4.500 anos que comprovam a existência de técnicas culinárias refinadas durante a Idade do Bronze Antigo. O estudo identificou restos de gorduras animais, plantas carbonizadas e ossos incrustados nas paredes dos recipientes, demonstrando que cozinheiros da época temperavam as refeições com madeira resinosa e escolhiam panelas específicas com diferentes propriedades térmicas para cada preparo.

A pesquisa científica foi coordenada pelo Museu Nacional da Dinamarca em conjunto com a Universidade de Copenhague e o Centro Nacional de Pesquisa Científica da França. Segundo a arqueobotânica Mette Marie Hald, pesquisadora sênior do museu dinamarquês e autora principal do trabalho, a descoberta permitiu rastrear os hábitos alimentares urbanos no terceiro milênio antes de Cristo: “Esta é a primeira vez que conseguimos identificar os componentes das refeições dentro das panelas de cozimento em Hama”, afirmou a pesquisadora, em tradução livre.

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Resina aromática temperava refeições e exigia marcação nas panelas de Hama

A presença intencional de madeira resinosa como especiaria chamou a atenção dos arqueólogos por funcionar como um aromatizante para intensificar o sabor dos alimentos cozidos. Os pesquisadores notaram que todas as peças cerâmicas com traços de resina continham símbolos gravados ou impressos na argila antes da queima, indicando uma separação visual consciente para que o gosto residual não impregnasse outros tipos de alimentos.

“Curiosamente, todas as panelas que continham vestígios de resina tinham símbolos gravados ou impressos na argila. Talvez essas panelas fossem escolhidas especificamente para refeições aromatizadas com resina, para evitar transferir aquele sabor específico para outros tipos de refeições posteriores”, declarou Mette Marie Hald, em tradução livre. A prática de destinar recipientes exclusivos para condimentos fortes reflete um cuidado com a pureza dos sabores em um ambiente culinário compartilhado.

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Dois tipos de panelas em Hama garantiam controle térmico nos cozimentos

Panelas de cerâmica 1 - Greens and Blues/ shutterstock.com
Panelas de cerâmica 1 – Greens and Blues/ shutterstock.com

Os cozinheiros da antiga cidadela síria utilizavam dois tipos tecnológicos distintos de recipientes de cerâmica para preparar suas receitas diárias. Um modelo era produzido na própria região com argila e calcita, enquanto o segundo modelo era composto por misturas minerais de basalto provenientes das áreas de estepe situadas a leste da cidade, oferecendo capacidades térmicas singulares para diferentes métodos de cocção.

A composição mineral alterava diretamente a retenção e a transferência de calor do fogo para a comida, permitindo que pratos que demandavam fervura rápida ou cozimento lento fossem alocados no recipiente mais adequado. “Os diferentes tipos de panelas de cozimento em Hama mostram que cozinhar na Idade do Bronze envolvia tomadas de decisão ativas, não apenas em termos de ingredientes, mas também em termos de utensílios usados na preparação de refeições específicas. Na verdade, parece um pouco moderno a forma como existiam panelas diferentes e diferentes tipos de utensílios para servir”, avaliou Mette Marie Hald, em tradução livre.

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Variedade de ingredientes em Hama integrava agricultura, criação e caça

A análise molecular confirmou que os moradores de Hama consumiam produtos de vários ecossistemas e redes de trocas comerciais da Idade do Bronze. Foram identificados vestígios de carne suína e uvas cultivadas na própria área urbana da cidade, acompanhados por trigo, cevada, azeitonas e lentilhas colhidos em plantações vizinhas. As panelas também guardavam restos de gorduras vegetais, leite e carne bovina, além de ovelhas e cabras mantidas nas pastagens ao redor, enquanto carnes de gazelas eram obtidas por meio de caçadas nas estepes a leste.

“Podemos ver que alguns ingredientes provavelmente vinham da própria cidade, como a carne de porco e as uvas, enquanto cereais, lentilhas e azeitonas vinham dos campos nas proximidades, ovelhas e gado das pastagens ao redor da cidade, e gazelas da estepe a leste”, explicou Hald, em tradução livre, detalhando como as refeições combinavam agricultura local, pecuária e caça de longa distância.

Dados da pesquisa arqueológica sobre as refeições de Hama

  • Objeto de análise: resíduos lipídicos, plantas carbonizadas e fragmentos ósseos de 4.500 anos
  • Origem dos artefatos: antiga cidadela de Hama, na Síria
  • Instituição coordenadora: Museu Nacional da Dinamarca, em Copenhague
  • Parceiros científicos: Universidade de Copenhague e Centro Nacional de Pesquisa Científica da França
  • Tipos tecnológicos de cerâmica: panelas locais com calcita e recipientes com basalto das estepes

Projeto dinamarquês reavalia coleção arqueológica de Hama

As peças que fundamentaram o estudo foram encontradas durante escavações realizadas por expedições arqueológicas dinamarquesas na cidadela de Hama entre 1931 e 1938. Todo o acervo cerâmico e os sedimentos coletados permaneceram preservados no Museu Nacional da Dinamarca, em Copenhague, até serem integrados às análises laboratoriais contemporâneas.

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O reexame das peças começou em 2021 dentro do projeto Ordinary Lives in Extraordinary Times, criado para investigar o cotidiano de sociedades do passado por meio de tecnologias científicas recentes. A existência de temperos resinosos derivados de árvores como cedro ou cipreste já era mencionada em tabletes antigos de argila com receitas mesopotâmicas e levantinas, mas a investigação em Hama entregou a primeira confirmação física e molecular dessa prática dentro de utensílios de preparo.

Etapas das escavações e descobertas sobre a cerâmica de Hama

  • 1931 a 1938 — Expedições de arqueólogos da Dinamarca realizam escavações e resgatam as cerâmicas na cidadela de Hama
  • 2021 — Início das reavaliações do acervo sírio pelo projeto Ordinary Lives in Extraordinary Times no museu dinamarquês
  • 11 de setembro de 2026 — Agências internacionais registram as primeiras divulgações sobre a composição das refeições na Síria
  • 14 de setembro de 2026 — Museu Nacional da Dinamarca publica o comunicado oficial com as conclusões sobre as propriedades térmicas e os temperos

Os testes laboratoriais ainda não conseguiram determinar a espécie botânica exata utilizada na fabricação do tempero de Hama. A análise química dos lipídios preservados na argila indicou a presença da madeira resinosa, mas a confirmação se o composto foi extraído de cedro, cipreste ou pinheiro depende de novas etapas de testagem dos sedimentos.

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