Novas espécies marinhas somam 1.121 descobertas pelo Ocean Census em mapeamento global

tubarão fantasma

tubarão fantasma - Heine Jensen/Shutterstock.com

O consórcio científico global Ocean Census confirmou a descoberta e a descrição formal de 1.121 novas espécies marinhas ao longo de 12 meses de pesquisas. O balanço foi apresentado em Londres, no Reino Unido, após expedições realizadas em ecossistemas que variam de cavernas rasas a zonas abissais com até 6.575 metros de profundidade.

A taxa representa um salto de 54% no ritmo anual de catalogação biológica nos oceanos, integrando organismos coletados entre 1º de abril de 2025 e 31 de março de 2026. “Com muitas espécies em risco de desaparecer antes mesmo de serem documentadas, estamos em uma corrida contra o tempo para entender e proteger a vida marinha. Por muito tempo, milhares de espécies permaneceram em um ‘limbo’ científico porque o ritmo das descobertas não conseguia acompanhar a demanda. Estamos agora quebrando esse gargalo”, declarou Michelle Taylor, diretora de Ciência do Ocean Census, em tradução livre.

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Ocean Census detalha animais descobertos em fossas e cavernas

Entre os organismos catalogados pela rede científica internacional está uma nova espécie de quimera, animal popularmente chamado de tubarão-fantasma e classificado preliminarmente como Chimaera sp. 1. O peixe cartilaginoso foi capturado no Coral Sea Marine Park, na costa da Austrália, em profundidades situadas entre 802 e 838 metros, pelo taxonomista William White, especialista em peixes da agência australiana CSIRO.

Foto: tubarão fantasma – Heine Jensen/Shutterstock.com

As coletas em profundidade também revelaram o verme poliqueta Dalhousiella yabukii, localizado a 791 metros no monte submarino Shichiyo, no Japão. O anelídeo marinho vive abrigado no interior de uma esponja-de-vidro, estrutura que possui esqueleto rígido formado por espículas de sílica. O nome científico homenageou o pesquisador Akinori Yabuki, líder da agência japonesa JAMSTEC. Sobre a relação ecológica observada entre os dois seres vivos, Michelle Taylor afirmou, em tradução livre: “O poliqueta ganha proteção contra as espículas de sílica afiadas que formam a arquitetura da esponja, e a esponja ganha nutrientes do poliqueta. Uma combinação perfeita nas profundezas oceânicas”.

Ambientes costeiros e litorâneos também abrigaram novos registros biológicos antes ignorados pela taxonomia formal. Na costa de Timor-Leste, a taxonomista Svetlana Maslakova identificou uma espécie de verme-fita pertencente à família Drepanophoridae, animal de águas rasas com menos de três centímetros de comprimento e coloração viva ligada a mecanismos de defesa química. Em uma caverna marinha próxima à cidade de Marselha, na França, o taxonomista Hossein Ashrafi documentou o camarão Caridion sp. 1, dotado de listras alaranjadas, confirmando a existência de organismos desconhecidos inclusive nas proximidades de áreas densamente povoadas.

Plataforma aberta NOVA reduz espera histórica na taxonomia

O avanço no volume de espécies descritas decorre de uma alteração no método tradicional de análise biológica. Historicamente, o intervalo médio entre a coleta de um espécime no mar e a publicação científica definitiva de seu nome e classificação alcança 13,5 anos. Muitas amostras permaneciam armazenadas em gavetas de museus sem sequenciamento genético ou equipe técnica disponível para fechar o diagnóstico.

Para contornar esse atraso acumulado, a mobilização apoiou-se na plataforma aberta NOVA, um sistema operacional compartilhado que distribui dados morfológicos de alta resolução e sequenciamentos de DNA para equipes conectadas em diferentes continentes. Esse fluxo digital permitiu validar diagnósticos taxonômicos em semanas ou dias, processo que no modelo acadêmico convencional exigia anos de troca física de materiais biológicos preservados.

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Números e metas da iniciativa Ocean Census até 2030

As atividades científicas coordenadas pela coalizão concentram um esforço multinacional estabelecido para mapear a biodiversidade antes que pressões provocadas por perturbações climáticas, pesca excessiva ou mineração em mar profundo levem ecossistemas marinhos ao colapso. O consórcio The Nippon Foundation-Nekton Ocean Census foi fundado em abril de 2023 pela fundação filantrópica japonesa The Nippon Foundation e pelo instituto britânico Nekton. Ao longo dos primeiros três anos de atividades, entre 2023 e 2026, a iniciativa superou a marca de 2.000 espécies marinhas adicionadas aos registros científicos formais.

O balanço oficial das operações realizadas entre abril de 2025 e março de 2026 reúne os seguintes parâmetros de atuação:

  • 1.121 novas espécies descritas formalmente no período de 12 meses
  • 54% de expansão no ritmo anual de catalogação científica marinha
  • 6.575 metros de profundidade máxima atingida nos pontos de amostragem
  • 1.433 pesquisadores integrados à Science Network
  • 660 instituições científicas de pesquisa associadas
  • 85 países participantes das frentes de trabalho taxonômico
  • 13 expedições oceânicas executadas em escala global
  • 9 oficinas taxonômicas intensivas organizadas para identificação biológica
  • 100.000 novas espécies marinhas estipuladas como meta global até 2030

Ciência busca reduzir os 90% da vida marinha ainda desconhecida

Apesar da marca anual de 1.121 animais descritos, biólogos estimam que até 90% de toda a biodiversidade marinha global permanece oculta à ciência, sem nomes oficiais ou registros de funções ecológicas na árvore da vida. Essa lacuna de dados dificulta a formulação de áreas de proteção ambiental, a delimitação de santuários oceânicos e a fiscalização de impactos industriais de grande escala em bacias oceânicas pouco exploradas.

A atuação conjunta articulou embarcações e laboratórios de instituições parceiras, como o Schmidt Ocean Institute, a agência governamental australiana Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation e a Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia Marinha e da Terra. “Neste ano, o Ocean Census mostrou o que é possível quando ambição, parceria e ciência se unem. Mais de mil novas espécies marinhas descobertas em um único ano não é apenas uma conquista científica, é um lembrete de quanto ainda temos a conhecer e de por que descobrir importa agora”, afirmou Mitsuyuki Unno, diretor executivo da The Nippon Foundation, em tradução livre.

Os pesquisadores concentram agora os trabalhos nas próximas remessas de amostras colhidas em fossas oceânicas, com novas etapas de triagem genética programadas para abastecer a plataforma pública do projeto nos meses seguintes.