A Organização Mundial do Comércio elevou a estimativa de crescimento do volume do comércio global de mercadorias para 3,9% em 2026, em relatório divulgado em Genebra, na Suíça. O número revisado mais que dobra a previsão anterior de 1,9%, calculada em março, apoiado pela forte expansão na fabricação e compra de infraestrutura voltada à inteligência artificial.
O economista-chefe da entidade, Robert Staiger, avaliou a resistência dos fluxos internacionais diante das crises geopolíticas recentes. “É de certa forma surpreendente que [o crescimento do comércio de mercadorias] seja tão resiliente a todos os choques que vêm ocorrendo”, afirmou o economista, em tradução livre. Para 2027, a OMC também ampliou a perspectiva de alta de 2,6% para 4,1%.
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Participação de bens de inteligência artificial no comércio internacional
Os produtos que viabilizam o avanço dos sistemas digitais, como semicondutores, processadores, servidores de grande porte e equipamentos de conexão de rede, responderam por 47% de todo o crescimento em valor do comércio mundial de mercadorias no primeiro semestre de 2026. A procura por esses insumos acelerou o trânsito de cargas entre as economias desenvolvidas e os polos produtores, superando impactos logísticos negativos gerados por conflitos militares.
O intercâmbio direto desses itens tecnológicos disparou 67% nos primeiros seis meses deste ano na comparação com o mesmo intervalo de 2025. Esse ritmo marca uma aceleração frente aos ciclos recentes da cadeia de suprimentos, uma vez que o segmento havia avançado 16% em 2024 e 31% em 2025. Com a corrida corporativa para estruturar centros de dados, a participação dos bens de inteligência artificial atingiu 14,8% de todo o comércio mundial de mercadorias no primeiro semestre de 2026, patamar que supera com folga a média histórica de 7% a 8% apurada de 2016 a 2023.
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Indicadores do relatório Perspectivas e Estatísticas do Comércio Global
- 3,9%: projeção atual da OMC para a alta do comércio global de mercadorias em 2026
- 4,1%: projeção de expansão do comércio de bens para 2027
- 2,6%: estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto mundial em 2026
- 2,9%: previsão de crescimento do PIB mundial para 2027
- 3,3%: taxa prevista para o comércio internacional de serviços em 2026
- 4,7%: estimativa da inflação global para 2026, revista ante os 3,7% anteriores
- 67%: salto no comércio de bens habilitadores de IA no primeiro semestre de 2026
- 14,8%: fatia ocupada pelos itens de infraestrutura de IA no comércio global no semestre
Guerra no Oriente Médio e impacto no setor de serviços
Enquanto a circulação física de peças eletrônicas sustentou a atividade fabril, as tensões armadas no Oriente Médio forçaram a revisão para baixo no comércio internacional de serviços. A OMC reduziu a projeção de avanço desse setor de 4,8% para 3,3% em 2026. O fechamento parcial de rotas no espaço aéreo regional e o custo elevado do combustível de aviação limitaram o turismo e as viagens internacionais, com previsão de crescimento de apenas 0,2% para o segmento de viagens e 0,9% para transportes.
As restrições de navegação no estreito de Ormuz provocaram fortes perdas para os países da região, cujas exportações de mercadorias devem encolher 17,2% em 2026, acompanhadas por uma retração de 15,4% nas importações. No mercado de energia, os embarques de gás natural liquefeito do Oriente Médio tombaram 47% no primeiro semestre. Esse recuo foi parcialmente absorvido por outros fornecedores, limitando a queda no volume global de gás a 1%.
Ásia lidera fornecimento e Brasil amplia exportação de petróleo
A Ásia deve responder por aproximadamente quatro pontos percentuais da taxa global de 3,9% prevista para o comércio de bens em 2026, impulsionada pelo fornecimento de componentes avançados da Ásia Oriental e do Sudeste Asiático para a América do Norte. Em contrapartida, as economias da América do Sul, Central e Caribe devem registrar expansão de 3,4% nas exportações e alta de 4,6% nas compras externas de produtos industrializados.
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O Brasil foi citado no levantamento entre as nações que aumentaram a extração e a venda externa de petróleo, atuando ao lado de Noruega e Estados Unidos para atenuar o corte de oferta resultante da crise no Golfo. No setor tecnológico, o país teve destaque pelo avanço de 13% nas exportações de serviços de computação durante o segundo trimestre de 2026, figurando entre os mercados emergentes com crescimento acelerado na área.
Histórico das projeções e riscos para 2027
A publicação do relatório Perspectivas e Estatísticas do Comércio Global em 8 de outubro de 2026 reverte a postura cautelosa adotada pela organização chefiada pela diretora-geral Ngozi Okonjo-Iweala. Em 19 de março de 2026, a OMC havia cortado a estimativa de avanço comercial para 1,9% devido aos choques iniciais do conflito no Oriente Médio sobre energia e insumos agrícolas. No ano anterior, em 2025, o comércio de mercadorias havia avançado 4,6%, sustentado pela montagem inicial de servidores e antecipação de estoques.
A continuidade do ciclo de investimentos em inteligência artificial e o desfecho das disputas geopolíticas permanecem como as principais incógnitas para a sustentação das taxas comerciais calculadas para 2027.
