O consumo diário e moderado de café ou chá com cafeína está associado a uma redução de até 18% no risco de demência ao longo da vida adulta. O dado integra um estudo prospectivo com 131.821 profissionais de saúde conduzido por pesquisadores de Boston, nos Estados Unidos, que acompanhou participantes por até 43 anos.
A investigação foi desenvolvida em conjunto por equipes da Harvard Medical School, da Harvard T.H. Chan School of Public Health, do Mass General Brigham e do Broad Institute. O primeiro autor do artigo científico é o pesquisador Yu Zhang, do Departamento de Nutrição de Harvard, sob orientação sênior de Daniel Wang, cientista associado da Channing Division of Network Medicine no Mass General Brigham e professor assistente na Harvard Medical School.
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Estudo com 131.821 profissionais nos Estados Unidos associa café a risco 18% menor de demência
Para mensurar o impacto das bebidas no sistema nervoso central, os cientistas analisaram registros de dois grandes levantamentos epidemiológicos norte-americanos iniciados na década de 1980. O grupo reuniu 86.606 mulheres cadastradas no Nurses’ Health Study desde 1980 e 45.215 homens monitorados pelo Health Professionals Follow-up Study a partir de 1986. Nenhum dos voluntários apresentava diagnóstico prévio de câncer, doença de Parkinson ou declínio neurodegenerativo no momento do ingresso nos respectivos programas de monitoramento.
Os voluntários responderam a questionários alimentares detalhados periodicamente, atualizados em intervalos regulares de dois a quatro anos, registrando a frequência e o volume de ingestão de alimentos e bebidas. Durante o período de acompanhamento de até 43 anos, os serviços médicos registraram 11.033 diagnósticos confirmados de demência por meio de prontuários clínicos e certidões de óbito. O cruzamento dos dados revelou que o grupo com maior ingestão regular de café com cafeína obteve uma probabilidade 18% menor de desenvolver quadros demenciais quando comparado ao estrato de menor consumo.
No caso do chá com cafeína, os pesquisadores constataram uma redução relativa de 14% no risco da mesma condição clínica. A pesquisa documentou ainda que a ingestão de café descafeinado não gerou nenhuma redução estatística no risco de demência nem na preservação cognitiva, o que colocou a cafeína como o elemento biológico central nas análises laboratoriais e estatísticas.
Números e parâmetros do estudo publicado no periódico JAMA
Os dados completos do estudo foram disponibilizados inicialmente na versão eletrônica do periódico científico JAMA em 9 de fevereiro de 2026 e integraram a edição impressa do periódico em 17 de março de 2026. Os principais indicadores consolidados pela equipe de pesquisa incluem:
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- 131.821 profissionais de saúde monitorados ao longo de até 43 anos de avaliação contínua;
- 86.606 mulheres acompanhadas na coorte do Nurses’ Health Study iniciada em 1980;
- 45.215 homens avaliados na coorte do Health Professionals Follow-up Study desde 1986;
- 11.033 casos clínicos de demência diagnosticados e documentados durante o estudo;
- 18% de redução no risco relativo de demência com ingestão moderada a alta de café cafeinado;
- 14% de redução no risco relativo de demência associada ao consumo regular de chá cafeinado;
- 2 a 3 xícaras diárias de café com cafeína apontadas como o patamar ideal de ingestão;
- 1 a 2 xícaras diárias de chá com cafeína situadas na faixa de benefício máximo;
- 300 miligramas de cafeína diária estimados como a dosagem associada ao efeito protetor;
- 7,8% de taxa de relato de declínio cognitivo subjetivo entre os maiores consumidores de café, contra 9,5% no grupo de menor consumo.
Cafeína diária de até 300 mg atinge o patamar ideal de proteção
A curva de resposta do estudo mostrou que volumes maiores de consumo não aumentaram a proteção neurológica. O benefício estatístico máximo se concentrou na ingestão de duas a três xícaras de café com cafeína por dia ou de uma a duas xícaras de chá com cafeína diárias, o que representa aproximadamente 300 miligramas de cafeína ingeridos por dia. Indivíduos que relataram volumes muito superiores a esse patamar não apresentaram redução adicional no índice de risco.
Além da incidência formal de demência, a equipe avaliou o chamado declínio cognitivo subjetivo, caracterizado pela percepção individual de perda de memória e lentidão de raciocínio no cotidiano. O índice de queixas de memória alcançou 7,8% entre os profissionais com maior consumo habitual de café cafeinado, enquanto a taxa subiu para 9,5% entre aqueles que consumiam as menores quantidades da bebida ao longo do período observado.
“Ao procurar possíveis ferramentas de prevenção da demência, pensamos que algo tão comum quanto o café poderia ser uma intervenção dietética promissora, e nosso acesso a dados de alta qualidade por meio de estudos em andamento há mais de 40 anos nos permitiu levar essa ideia adiante”, afirmou Daniel Wang, autor sênior do estudo, em declaração traduzida livremente do inglês.
Cafeína atua em receptores do cérebro, mas pesquisa não comprova causa direta
A cafeína atua no organismo humano como um antagonista não seletivo dos receptores de adenosina, com ação marcante sobre os receptores do subtipo A2A. Na literatura médica internacional, esse mecanismo biológico é apontado por sua interferência direta em processos de neuroinflamação, na redução da toxicidade das sinapses cerebrais e no controle do acúmulo patológico da proteína tau, alterações celulares frequentemente detectadas em pacientes com doença de Alzheimer e outros subtipos de demência.
Apesar da base biológica plausível, os autores enfatizam que a metodologia utilizada é de natureza observacional e mede associações estatísticas, sem estabelecer relação de causa e efeito definitiva. Indivíduos que preservam o hábito de tomar café na meia-idade podem compartilhar hábitos de rotina, ocupações intelectuais ou condições socioeconômicas que interfiram na preservação cerebral de forma independente da dieta.
Susan Kohlhaas, diretora executiva de pesquisa da entidade britânica Alzheimer’s Research UK, declarou que o menor risco de demência foi observado em pessoas que bebiam cerca de duas a três xícaras de café ou uma a duas xícaras de chá por dia. A especialista acrescentou, em tradução livre, que “essa pesquisa não prova que o café ou o chá protejam o cérebro”.
O psicólogo Mark Travers publicou uma análise detalhada sobre os resultados na Forbes em 17 de setembro de 2026, com veiculação brasileira no dia 18 de setembro de 2026. A abordagem destacou que pessoas que toleram bem a cafeína não necessitam eliminar a bebida de suas dietas por receio de danos neurológicos tardios, embora o hábito não anule contraindicações clínicas específicas ligadas a distúrbios de ansiedade, arritmias cardíacas ou insônia.
“Embora nossos resultados sejam encorajadores, é importante lembrar que o tamanho do efeito é modesto e que existem muitas maneiras importantes de proteger a função cognitiva à medida que envelhecemos. Nosso estudo sugere que o consumo de café ou chá com cafeína pode ser uma peça desse quebra-cabeça”, disse Daniel Wang, em tradução livre.
Testes cognitivos presenciais não foram aplicados aos 45.215 homens da pesquisa
A pesquisa apresenta limites declarados pelos próprios cientistas de Harvard. A avaliação cognitiva objetiva direta não foi aplicada presencialmente na totalidade dos 45.215 homens da coorte do Health Professionals Follow-up Study, tendo ficado restrita a baterias de testes aplicadas por chamada telefônica em uma parcela de voluntárias do Nurses’ Health Study. Além disso, não há determinação laboratorial direta sobre qual dosagem isolada de cafeína atuaria de modo uniforme em cada organismo humano.
Pessoas com sinais de perda progressiva de memória, desorientação temporal ou histórico familiar de quadros neurodegenerativos devem buscar atendimento em unidades básicas de saúde ou ambulatórios de neurologia e geriatria. O acompanhamento médico formal e a manutenção de hábitos como atividade física regular, controle da pressão arterial e sono adequado permanecem como as medidas clínicas recomendadas para a saúde neurológica, enquanto novos ensaios clínicos prospectivos analisam compostos isolados da cafeína em laboratório.
