Esquema cobrava US$ 20 mil por licenças falsas de treinador da ATFA

Diego Souza - Instagram Foto: Diego Souza - Instagram

O ex-volante Alejandro Mancuso intermediou a venda de licenças falsas de treinador de futebol da Associação de Técnicos de Futebol Argentino, a ATFA, cobrando cerca de US$ 20 mil de jogadores e ex-atletas em atividade no Brasil. A apuração jornalística de dois anos revelou a fraude na emissão das credenciais esportivas na quarta-feira (7).

O esquema montado pelo ex-jogador da seleção argentina prometia um trâmite urgente capaz de burlar os três anos exigidos na formação tradicional da escola argentina. Mancuso oferecia a entrega das credenciais das categorias C, B, A e PRO diretamente pelo correio em um prazo de até dez dias, mediante transferências bancárias internacionais enviadas para uma conta localizada em Miami.

Diego Souza e outros atletas compraram credenciais da ATFA

A lista de nomes procurados ou que adquiriram os certificados inclui Diego Souza, atual técnico do Joinville, Felipe Melo, Thiago Silva, Alexsandro de Souza, Dejan Petkovic, Roberto Carlos, Paulinho, Diego Lugano, Luiz Gustavo e Paolo Guerrero. O zagueiro Thiago Silva obteve os certificados durante o ano de 2023, enquanto outros profissionais relataram terem suspendido o uso dos papéis após notarem irregularidades no processo.

Diego Souza teve o registro profissional de treinador cancelado no Boletim Informativo Diário da Confederação Brasileira de Futebol, a CBF. O próprio treinador do Joinville enviou um comunicado formal para a entidade máxima do futebol nacional solicitando a anulação da licença esportiva após tomar conhecimento da suspeita de fraude documental que envolvia a emissão da documentação da entidade argentina.

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Em entrevista coletiva concedida na quinta-feira (8), Diego Souza detalhou como ocorreu a abordagem inicial e criticou a postura do ex-volante argentino na negociação: “É uma situação que eu realmente fui vítima. Você vê quantas pessoas foram vítimas do Mancuso. Na época eu estava me sentindo privilegiado em ter uma licença terminando de jogar futebol. Mancuso é um cara que jogou em seleção argentina e tinha relação com todos, mas acabou fazendo uma ‘fiasqueira’ dessas com tantas pessoas que acreditaram nele. A gente sabe que ele fez de má-fé, é um estelionatário.”

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O atual treinador do Joinville também confirmou as medidas tomadas diretamente junto à entidade desportiva no Brasil: “Eu mesmo mandei um e-mail para a CBF dizendo tudo o que aconteceu agora, pedindo para que tirassem a minha licença deste registro, pois poderia ter alguma fraude.”

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Detalhes do esquema ilegal apurado nas investigações da ATFA

O funcionamento da negociação irregular de credenciais técnicas envolvia prazos curtos e quantias expressivas em moeda estrangeira:

  • US$ 20.000 (cerca de R$ 100.000) era o valor padrão cobrado por Mancuso via transferência internacional para uma conta bancária em Miami;
  • 10 dias era o prazo prometido para o comprador receber as carteirinhas físicas em casa pelos serviços de correio;
  • 3 anos é o tempo regular de estudos teóricos e práticos exigido pela ATFA para a conclusão das quatro licenças de treinador;
  • 2 anos foi a duração da investigação jornalística independente conduzida pela repórter Joanna de Assis.

Posicionamento da ATFA e defesa de Alejandro Mancuso

O secretário-geral da ATFA, Salvador Pasini, informou de forma oficial que todos os certificados distribuídos por Mancuso são inteiramente falsificados. A associação argentina assegurou que o ex-jogador de futebol não faz parte do quadro de diretores, não mantém nenhuma ligação institucional de trabalho com a entidade e jamais recebeu autorização formal para comercializar diplomas ou representar a escola de treinadores perante atletas de outros países.

Alejandro Mancuso, que atuou profissionalmente por clubes brasileiros como Flamengo e Palmeiras e trabalhou como assistente do técnico Diego Maradona na seleção argentina durante a Copa do Mundo de 2010, negou qualquer envolvimento com venda de credenciais falsas ou recebimento de valores financeiros de atletas. O ex-volante declarou que apenas prestava orientações informais a jogadores que manifestavam interesse em estudar futebol no país vizinho, defendendo-se publicamente: “Eu nunca fui da ATFA, sou apenas um comentarista de rádio.”

Histórico na Justiça argentina e desdobramentos no futebol brasileiro

As suspeitas sobre emissões irregulares de documentos já haviam sido analisadas pelas autoridades da Argentina em 2025. Na ocasião, a Justiça Federal Criminal e Correcional do país realizou diligências de busca e apreensão na sede da ATFA em Buenos Aires para checar denúncias administrativas, contudo os magistrados decidiram arquivar o processo judicial em dezembro de 2025 diante da ausência de provas sobre crimes cometidos por funcionários internos da associação.

Até o momento, a Polícia Federal não confirmou a instauração de inquérito criminal no Brasil contra Alejandro Mancuso para apurar a negociação financeira. Também não está confirmado oficialmente se outros técnicos que exercem atividade no futebol profissional brasileiro utilizaram as credenciais emitidas pelo esquema irregular para obter registros de trabalho válidos perante as federações estaduais e a CBF em 2026.

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