Estudo com 573 pedestres revela tendência inata de virar à esquerda

Pessoas na rua, trabalhadores - Fernando Frazão/Agência Brasil

Pessoas na rua, trabalhadores - Fernando Frazão/Agência Brasil

Pesquisadores internacionais confirmaram que pedestres têm uma inclinação individual inata de virar à esquerda e caminhar no sentido anti-horário. O estudo envolveu 573 participantes ao longo de cinco anos e comprovou que o padrão motor independe do convívio social, de regras de trânsito ou da lateralidade manual.

A constatação desconstrói modelos tradicionais da física de multidões ao comprovar que a rotação em espiral ocorre mesmo quando uma pessoa se desloca completamente isolada em um espaço aberto. “Neste caso, os dados mostram exatamente o oposto: o padrão já está presente em uma única pessoa caminhando sozinha. De fato, ao inserir apenas esses dados de movimento individual em um modelo, conseguimos reproduzir o redemoinho de toda a multidão”, afirmaram os pesquisadores Iñaki Echeverría Huarte, Ángel Garcimartín Montero e Iker Zuriguel Ballaz, da Universidade de Navarra, na Espanha.

Saiba mais: Vida na Terra teve ambiente favorável há 4,33 bilhões de anos

Como os cientistas testaram o comportamento dos pedestres?

Foto: Multidão na rua, Pessoas andando na rua – ArtPhoto21/ Shutterstock.com

O fenômeno foi registrado inicialmente em 1 de março de 2020, durante a pandemia de covid-19, quando a equipe espanhola conduzia ensaios sobre distanciamento físico em ambientes delimitados. Ao revisar gravações de vídeo, os cientistas notaram que voluntários formavam trajetórias circulares involuntárias para a esquerda. Em 32 de 33 testes preliminares, as pessoas adotaram a rotação no sentido anti-horário sem perceber a própria inclinação motora.

Veja também: Mais de 54 mil vírus desconhecidos são identificados em estudo com participação de São Paulo

Para verificar se o formato das paredes ou a mão dominante influenciavam as curvas, os cientistas organizaram grupos compostos exclusivamente por canhotos e por voluntários com histórico de virar à direita. O movimento coletivo manteve a rotação anti-horária em todas as etapas. A hipótese de interferência de limites arquitetônicos também foi descartada em uma área externa de 3.000 metros quadrados em um pátio escolar, na qual mais de 100 adolescentes intensificaram a trajetória curva para a esquerda mesmo sem barreiras físicas ao redor.

Confira também: Erupção do vulcão Hunga Tonga reduziu metano na atmosfera, revela estudo da Nature Communications

Números dos experimentos sobre o sentido anti-horário

  • 32 de 33: ensaios iniciais em que os voluntários giraram espontaneamente para a esquerda
  • 573: total de participantes testados no conjunto de avaliações da pesquisa
  • 3.000 m²: extensão do pátio escolar aberto onde mais de 100 adolescentes foram avaliados
  • Mais de 200: voluntários que caminharam sozinhos em arenas isoladas
  • 4 metros: raio da arena circular utilizada nos ensaios realizados no Japão
  • 5 anos: período de investigação científica entre o achado de 2020 e a publicação final

As convenções de trânsito também foram testadas no Japão, onde veículos e pedestres circulam pela esquerda da via. Os ensaios conduzidos pelo professor associado Claudio Feliciani, da Universidade de Tóquio, em uma arena circular de 4 metros de raio, reproduziram a mesma rotação anti-horária registrada na Espanha. O mesmo teste foi aplicado a crianças de pré-escola, grupo que registrou a maior intensidade de giro à esquerda entre todas as faixas etárias avaliadas, descartando o aprendizado cultural adulto.

Acompanhe: Neurocientista com 50 estudos defende limite para a inteligência artificial

Ensaios com mais de 200 voluntários caminhando de maneira isolada em arenas vazias confirmaram que a trajetória circular nasce no indivíduo, e não no contato com outros pedestres. “Por décadas, pensamos que esses padrões coletivos surgiam unicamente da interação entre pedestres. Em nosso trabalho, verificamos que uma parte significativa deles não emerge apenas quando as pessoas se reúnem, mas é inerente ao indivíduo”, declarou Iñaki Echeverría Huarte, professor assistente da Universidade de Navarra, em tradução livre. Na natureza, padrões idênticos de rotação à esquerda ocorrem em cardumes e em colônias de formigas-correição.

Leia também: Pareidolia facial ativa áreas do cérebro para identificar rostos em objetos cotidianos

Cronologia da pesquisa da Universidade de Navarra

  • 1 de março de 2020: observação inicial da rotação involuntária em testes de distanciamento físico na Espanha
  • 10 de junho de 2026: publicação do artigo científico completo na revista acadêmica Nature Communications
  • 8 de outubro de 2026: publicação do ensaio de divulgação científica na plataforma The Conversation Brasil
  • 9 de outubro de 2026: divulgação dos resultados da pesquisa na seção de Ciência do portal G1

Aplicação do viés locomotor na segurança de edifícios

A identificação da tendência motora fornece novas bases para a arquitetura e o planejamento de evacuações em pontos de alta circulação, como aeroportos, terminais ferroviários e museus. O entendimento de que o ser humano curva o trajeto à esquerda de forma inata permite projetar saídas de emergência e rotas de escape alinhadas ao comportamento mecânico natural da população, evitando congestionamentos físicos em momentos de perigo. Testes históricos já mostravam que pessoas com olhos vendados perdem a linha reta e formam espirais.

A causa biológica ou neurológica da inclinação individual permanece sem explicação conclusiva. Os cientistas investigaram possíveis vínculos com pé dominante, olho dominante, mão dominante e sexo biológico, sem encontrar correlação estatística com a manobra. A hipótese sob investigação preliminar aponta para assimetrias no sistema vestibular e no ouvido interno, estruturas responsáveis pelo equilíbrio e pela orientação espacial humana.