O rover Curiosity registrou um panorama inédito da luz do amanhecer incidindo sobre cristas escarpadas esculpidas pelo vento no Monte Sharp, no interior da Cratera Gale, em Marte. A divulgação oficial das imagens e do artigo científico sobre o registro foi realizada pela Nasa na terça-feira (6 de outubro de 2026).
O mosaico visual exibe formações geológicas pontiagudas conhecidas como yardangs sob os primeiros raios solares, preservando a coloração natural do céu alaranjado e os reflexos azulados característicos da alvorada no planeta vizinho. O material foi processado intencionalmente pelos engenheiros sem o balanço de branco tradicional para reter a iluminação atmosférica original.
Mastcam documenta o início do dia marciano na Cratera Gale
A captura dos dados visuais ocorreu na terça-feira, 11 de agosto de 2026, às 8h30 pelo horário solar local de Marte, aproximadamente uma hora após o nascer do sol na região equatorial da Cratera Gale. O momento correspondeu ao 4.982º sol, termo técnico que designa a contagem de dias marcianos transcorridos desde o início das operações do veículo em solo extraterrestre.
📍Gale Crater, Aug. 11, 2026, 8:30 a.m. local Mars time. The Curiosity rover captures the Sun rising on crags known as yardangs, a scene that scientists have long been waiting to see up close. 1/2 https://t.co/NJQH9yNEYR— NASA Mars (@NASAMars) October 6, 2026
Para gerar o panorama completo, a câmera Mastcam instalada no mastro da sonda tirou seis fotografias individuais que foram enviadas à Terra e alinhadas pela equipe de cientistas. O Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, localizado em Pasadena, na Califórnia, coordena as operações do robô explorador, que conta com seis rodas e dimensões semelhantes às de um carro terrestre.
Ashwin Vasavada, cientista de projeto da missão Curiosity no JPL da Nasa, descreveu a sensação transmitida pelo registro matinal obtido pelo equipamento em solo marciano.
“Essa cena tem uma natureza selvagem que me lembra uma viagem de carro pelo Monument Valley, no Arizona. Dá quase para sentir o silêncio e o espaço aberto infinito sob o céu. Mas, por mais familiar que isso pareça, o céu é alaranjado e o nascer do Sol tem tons de azul. É como a Terra, mas é definitivamente Marte”, disse Ashwin Vasavada.
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Yardangs do Monte Sharp guardam registros de 3 bilhões de anos
As estruturas rochosas destacadas na imagem estendem-se por uma faixa contínua de aproximadamente 16 km (10 milhas) na vertente noroeste do Monte Sharp, elevação central que atinge cerca de 5 km (3 milhas) de altura no leito da cratera. Pesquisadores estimam que os sedimentos que originaram essa camada acumularam-se há cerca de 3 bilhões de anos, período em que o planeta passava por profundas transformações climáticas e ambientais.
Diferente de outras seções da montanha, a faixa de yardangs situa-se imediatamente acima de uma discordância geológica, termo que define uma lacuna de tempo na estratigrafia em que rochas antigas sofreram severa erosão antes que novos detritos fossem assentados e compactados sobre a superfície.
“Os picos escarpados e brilhantes à distância são uma camada rochosa cuja aparência é bem diferente de todas as camadas pelas quais a sonda já passou até agora. Acreditamos que, em algum momento, tenha sido um sedimento transportado pelo vento — talvez areia ou até mesmo cinzas — que foi levado para dentro da cratera a partir de atividades vulcânicas nas proximidades. Depois que o sedimento se solidificou, transformando-se em rocha, eras de vento esculpiram a camada rochosa, formando cristas chamadas yardangs”, afirmou Ashwin Vasavada.
Em outra declaração em tradução livre do inglês sobre o aspecto atípico dessas rochas, o cientista complementou as peculiaridades da formação observada pela sonda.
“A camada de yardangs parece fora do lugar. Tem a cor errada, as camadas inclinam-se em um ângulo estranho e quase parece ter sido colada por cima. Mas é isso que torna emocionante alcançá-la. Ninguém tem certeza do que exatamente criou essa camada, mas uma ideia é que possam ser cinzas depositadas por erupções vulcânicas antigas”, declarou Ashwin Vasavada.
Dados técnicos e cronologia da missão Curiosity
As medições e os marcos temporais confirmados pela equipe da missão espacial reúnem os seguintes dados:
- 6 de agosto de 2012: pouso do veículo espacial Curiosity na Cratera Gale;
- 11 de agosto de 2026: registro das fotografias na montanha marciana;
- 6 de outubro de 2026: publicação oficial da imagem e dos dados técnicos pela Nasa;
- 6 imagens: número de registros fotográficos da câmera Mastcam que formam o panorama;
- 8h30: horário solar local em Marte durante a captura matinal;
- 4.982 sóis: tempo de operação em dias marcianos acumulado no momento da foto;
- 1 km (0,6 milha): elevação vertical acumulada pelo rover desde a base da montanha;
- 5 km (3 milhas): altura total calculada para o Monte Sharp na Cratera Gale;
- 16 km (10 milhas): extensão horizontal da faixa rochosa de yardangs;
- 3 bilhões de anos: idade estimada da formação sedimentar registrada.
Curiosity mantém escalada e investiga passado hídrico marciano
Desde que iniciou a subida pelas encostas do Monte Sharp em 2014, o Curiosity acumulou mais de 1 km (0,6 milha) em ganho de altitude em relação à planície da Cratera Gale, marcando o recorde de maior elevação escalada por qualquer veículo terrestre em outro planeta. Cada camada rochosa transposta funciona como um registro físico do passado ambiental marciano, revelando períodos antigos em que bacias fluviais e lagos continham água líquida estável, em contraste com o ambiente seco e desértico predominante nos tempos atuais.
Os instrumentos do rover dedicam-se a rastrear faixas ricas em minerais como sulfatos e carbonatos para entender detalhadamente o processo de ressecamento de Marte e apurar se o ambiente já sustentou condições propícias à vida microbiana. Enquanto o Curiosity avança na Cratera Gale, a agência espacial norte-americana opera concomitantemente o rover Perseverance, encarregado de examinar a Cratera Jezero no hemisfério norte do planeta.
Próximos passos da análise científica em Marte
A composição química exata do sedimento que gerou os yardangs permanece indefinida pela equipe científica da agência espacial, havendo a hipótese de tratar-se de areia trazida por correntes de vento ou cinzas derivadas de erupções vulcânicas do passado remoto do planeta. A confirmação dependerá do contato direto de instrumentos científicos com a rocha.
A equipe da missão espacial projeta que o Curiosity conseguirá alcançar a base da camada de yardangs entre 2027 e 2028, ocasião em que usará os instrumentos perfuradores e analíticos de seu braço robótico para colher amostras e determinar a constituição geológica do local.
