Os médicos dermatologistas portugueses António Fernandes Massa e Filipa Osório detalharam nesta terça-feira (13) os mecanismos biológicos, as diferenças clínicas entre os sexos e as terapias de primeira linha para a alopécia androgenética, nome técnico da calvície. Considerada a causa mais comum de perda capilar, a condição representa cerca de 90% dos diagnósticos nas consultas especializadas em cabelo e afeta de 30% a 50% dos homens já aos 30 anos de idade.
O esclarecimento foi prestado em Portugal durante um episódio sobre saúde capilar do programa Carecas de Saber, produzido em parceria com a marca ISDIN e com o Grupo Português de Tricologia e Onicologia (GPTO). Presidente do GPTO e vogal da direção da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia, António Massa destacou a importância da intervenção precoce no controle da condição. “Acima de tudo, que é uma patologia que tem tratamento. Quanto mais cedo, melhor o resultado. Não há inevitabilidades, tanto no homem como na mulher”, afirmou o médico.
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Mecanismo biológico da alopécia androgenética e diferenças por sexo
Biologicamente, a alopécia androgenética ocorre por meio de um processo chamado miniaturização progressiva do folículo piloso, estrutura da pele que produz o fio. Devido a uma sensibilidade genética aumentada aos hormônios androgênicos (hormônios sexuais masculinos) em áreas específicas do couro cabeludo, o folículo diminui de tamanho a cada ciclo. “O que acontece é, acima de tudo, uma miniaturização do folículo. Ou seja, o folículo vai ficando mais fininho, mais pequenino, cresce menos o cabelo, até que deixa de crescer”, declarou António Massa.
A manifestação clínica apresenta padrões distintos conforme o sexo do paciente, o que torna a identificação visual mais imediata no público masculino do que no feminino. Enquanto os homens desenvolvem o recuo frontotemporal, popularmente conhecido como entradas, aliado à rarefação na região do vértex (coroa), as mulheres costumam preservar a linha frontal de implantação dos fios e sofrem um afinamento difuso no topo da cabeça, percebido pelo alargamento progressivo da risca central e pela maior transparência do couro cabeludo sob a luz ou durante o banho.
A médica dermatologista Filipa Osório, especialista em tricologia (área da dermatologia dedicada ao estudo dos pelos e cabelos) e transplante capilar no Hospital da Luz Arrábida e na Clínica de Dermatologia Sofia Magina, no Porto, explicou o significado do diagnóstico. “Alopecia só significa queda de cabelo. E alopecia pode ser temporária, pode ser reversível ou pode ser irreversível. Portanto, o termo alopecia acho que não deve amedrontar ninguém. Alopecia androgenética é a calvície”, disse a especialista.
Ação hormonal na alopécia androgenética e prevalência por idade
A incidência da condição aumenta com o avanço da idade em ambos os sexos. Na faixa dos 30 anos, a prevalência estimada entre as mulheres varia de 5% a 15%. Ao longo da vida, os índices chegam a 80% entre os homens aos 80 anos e alcançam 50% das mulheres após a menopausa e em idades avançadas. O registro de falta de estudos populacionais atualizados específicos para a realidade nacional portuguesa limita a precisão absoluta dessas taxas locais, embora a prática clínica confirme a alta frequência nos consultórios.
No organismo masculino, o papel da di-hidrotestosterona (DHT, um derivado ativo da testosterona no couro cabeludo) está bem estabelecido como agente causador da miniaturização nas áreas com maior concentração de receptores hormonais. Já os folículos localizados na região da nuca possuem receptores protegidos e não sofrem a mesma sensibilidade aos androgênios, motivo pelo qual a nuca funciona como área doadora nos procedimentos cirúrgicos de transplante capilar.
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Entre as pacientes do sexo feminino, os exames laboratoriais costumam apontar níveis hormonais sanguíneos normais, uma vez que o problema decorre da sensibilidade localizada no folículo, e não necessariamente do excesso de substâncias circulantes. A principal mudança ocorre na menopausa, período marcado pela queda abrupta dos estrogênios, hormônios que exercem função protetora sobre os fios, gerando um aumento proporcional relativo da ação dos androgênios. Investigação adicional é indicada apenas quando a paciente apresenta sinais de hiperandrogenismo (excesso de ação de hormônios masculinos), como hirsutismo (crescimento excessivo de pelos), mudanças na voz ou alterações musculares.
Diagnóstico da alopécia androgenética por tricoscopia e doenças associadas
A confirmação da alopécia androgenética é essencialmente clínica, conduzida pelo dermatologista a partir do histórico médico — que avalia início dos sintomas, uso de medicamentos, cirurgias, estresse, pós-parto e disfunções da tireoide — e do exame físico com dermatoscópio. Essa avaliação por imagem recebe o nome de tricoscopia (dermatoscopia do couro cabeludo com lente que amplia a superfície em dezenas de vezes), método que permitiu o acompanhamento fotográfico padronizado da evolução do paciente e reduziu a necessidade de realização de biópsias cutâneas.
Durante a tricoscopia, o principal marcador observado pelo especialista para fechar o diagnóstico é a anisotricose, termo técnico que define uma variação superior a 20% no diâmetro das hastes capilares avaliadas. De forma isolada, a alopécia androgenética pura provoca apenas a perda gradual de volume e densidade por afinamento, sem causar queda acentuada de fios visíveis no chão ou no ralo do banheiro.
Quando o paciente relata queda intensa de fios ou sintomas como vermelhidão, descamação e dor, o quadro frequentemente envolve a coexistência de outras doenças capilares. Uma associação comum ocorre com o eflúvio telógeno, queda intensa e difusa que costuma surgir cerca de três meses após eventos como o parto ou episódios de estresse agudo, revelando uma calvície preexistente que passava despercebida. Outra condição associada de frequência crescente é a alopécia fibrosante frontal, uma alopécia cicatricial irreversível — porém passível de estabilização médica — que atinge sobretudo mulheres, iniciando-se pela perda das sobrancelhas e pelo recuo da linha frontal, deixando a testa mais alta.
Custo e medicamentos de primeira linha para alopécia androgenética
Diferentemente da percepção comum de parte dos pacientes que buscam os consultórios, a cirurgia de transplante capilar e procedimentos como microagulhamento, mesoterapia ou plasma rico em plaquetas não constituem a abordagem inicial contra a doença. O tratamento de primeira linha para a alopécia androgenética é médico e farmacológico, podendo ser iniciado já na adolescência, aos 16, 17 ou 18 anos em quadros de evolução rápida, ou em pacientes de 60 a 70 anos.
A terapia medicamentosa utiliza substâncias como o minoxidil (em apresentação tópica ou oral) e fármacos antiandrogênicos, grupo que inclui a finasterida, a dutasterida e a espironolactona. Prescrito há quase dez anos na dermatologia em baixa dose, o minoxidil oral consolidou-se como alternativa ou complemento para pacientes que não obtêm resposta suficiente com a loção, que não toleram o aspecto cosmético do produto nos fios ou que apresentam dermatite seborreica (caspa). No início do uso do minoxidil, sobretudo na versão tópica, pode ocorrer o chamado efeito shedding, uma queda transitória inicial de fios que cessa no prazo máximo de dois meses.
Segundo Filipa Osório, o acompanhamento farmacológico prévio por um período de seis meses frequentemente estabiliza e melhora o quadro clínico, permitindo preservar a área doadora da nuca e adiar um eventual transplante capilar em cinco ou dez anos, ou mesmo dispensar a cirurgia. “Olhe, conseguimos fazer um tratamento super eficaz por cinco a €10 por mês”, afirmou a dermatologista sobre o custo mensal estimado dos medicamentos de primeira linha em Portugal.
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Antecedentes do combate à desinformação capilar no GPTO
Formada em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em 2006, com especialização em Dermatologia e Venereologia pelo Hospital de São João em 2013 e estágio em Tricologia no Hospital da Universidade de Miami em 2011, Filipa Osório atua há 15 anos na consulta dedicada a doenças do cabelo. Já António Fernandes Massa assumiu a presidência do Grupo Português de Tricologia e Onicologia em julho de 2026 para o mandato referente ao biênio 2026-2027, estabelecendo como diretriz da gestão o combate à desinformação na área da saúde capilar e das unhas.
Embora novas moléculas e terapias gênicas estejam em fase de pesquisa científica para o tratamento da calvície, ainda não há definição clínica sobre tratamentos definitivos que dispensem o uso contínuo de medicamentos. O programa mensal sobre saúde capilar e das unhas divulgado em 13 de outubro de 2026 terá um novo episódio no mês de novembro, com previsão de abordar detalhadamente as alopécias cicatriciais.
