Estimulação cerebral reduz desejo por comida em mulheres com obesidade

Obesidade, alimentos ultraprocessados, má alimentação - Studio Romantic/ shutterstock.com

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Pesquisadores da Universidade de São Paulo comprovaram que a estimulação transcraniana por corrente contínua reduz o desejo intenso por comida em mulheres com obesidade. O estudo-piloto combinou a aplicação elétrica de baixa intensidade com sessões de educação nutricional ao longo de cinco dias consecutivos em voluntárias atendidas em Ribeirão Preto, no interior paulista.

Os efeitos positivos foram observados logo após o término da intervenção e permaneceram durante o acompanhamento de seis meses. A pesquisa foi desenvolvida no Laboratório de Estudos em Nutrição, Neurociências e Metabolismo da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, com apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, e teve os resultados divulgados na revista Physiology & Behavior nesta terça-feira (13).

Ficha técnica do estudo da USP sobre estimulação transcraniana

Foto: Cérebro – Wirestock Creators/shutterstock.com
  • Instituição responsável: Laboratório de Estudos em Nutrição, Neurociências e Metabolismo da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP
  • Local de realização: Ribeirão Preto, São Paulo
  • Apoio e publicação: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e revista Physiology & Behavior
  • Público examinado: 22 mulheres de 20 a 40 anos com obesidade grau 1 e 2
  • Período de avaliação: medições imediatas e retornos com um, três e seis meses

Como a estimulação cerebral atua no controle alimentar

A técnica não invasiva e indolor utilizou eletrodos esponjosos umedecidos em soro fisiológico colocados sobre a cabeça das voluntárias para aplicar uma corrente elétrica contínua de 2 miliamperes. O alvo anatômico foi o córtex pré-frontal dorsolateral, estrutura cerebral responsável por processos cognitivos cruciais, como tomada de decisões, planejamento, autorregulação e inibição comportamental diante de alimentos altamente palatáveis.

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Estudos anteriores de neuroimagem revelam que indivíduos diagnosticados com obesidade frequentemente apresentam menor ativação funcional ou desequilíbrios nessa região frontal do cérebro, o que diminui a capacidade de frear impulsos alimentares. Ao aplicar a corrente elétrica de baixa intensidade, o procedimento visa modular a excitabilidade neuronal e restaurar a capacidade inibitória das pacientes, operando como suporte aos mecanismos conscientes de regulação da ingestão.

“A estimulação ativa reduziu o desejo por comida, tanto logo após a intervenção quanto a longo prazo”, afirmou a nutricionista Marina Rodrigues Giuliani, primeira autora do estudo científico. Ela explicou que os achados reforçam a viabilidade do método: “Os resultados sugerem que a neuromodulação pode influenciar esse aspecto do comportamento alimentar, mesmo sem produzir alterações significativas no peso.”

Educação nutricional e estabilidade do peso corporal na USP

O experimento dividiu 22 mulheres de 20 a 40 anos com obesidade grau 1 ou 2 em duas turmas iguais. Metade passou pelo procedimento real e a outra metade recebeu estimulação simulada como grupo de controle. O protocolo consistiu em três aplicações diárias de 20 minutos, totalizando 15 sessões ao longo de cinco dias. Nos intervalos de 20 minutos entre as sessões, todas as voluntárias participavam de oficinas sobre alimentação consciente, nutrientes, saciedade, leitura de rótulos, hidratação, controle de porções e diferenciação entre fome física e fome emocional.

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O treinamento educativo proporcionou melhorias expressivas no controle consciente da ingestão de alimentos e na redução dos episódios de comer descontrolado em ambos os grupos analisados. Essa resposta comum confirmou a utilidade das oficinas teóricas. Por outro lado, a intervenção de cinco dias não alterou peso, índice de massa corporal ou proporções de gordura e massa magra, desfecho plenamente esperado pela equipe porque o estudo não impôs dietas com restrição calórica.

Projeções globais da obesidade segundo o World Obesity Atlas até 2030

  • Mulheres com obesidade grau 1 no mundo: 399 milhões de pessoas
  • Mulheres com obesidade grau 2 ou superior no planeta: 244 milhões de pessoas
  • Homens com obesidade grau 1 em escala global: 346 milhões de pessoas
  • Homens com obesidade grau 2 ou superior no mundo: 141 milhões de pessoas

Papel complementar da neuromodulação e próximos passos da USP

A obesidade permanece classificada como uma enfermidade crônica complexa e com altos índices de reincidência, inclusive após intervenções cirúrgicas ou farmacológicas convencionais. O recurso da estimulação transcraniana por corrente contínua já possui emprego consolidado no tratamento de distúrbios neuropsiquiátricos, como depressão e dor crônica, e passa agora a ser delineado como terapia complementar para auxiliar pessoas que enfrentam impulsos alimentares desmedidos.

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“A obesidade ainda é uma doença muito prevalente e de difícil tratamento – mesmo quando há perda de peso com tratamento médico ou cirúrgico, o risco de recidiva é alto”, declarou a professora Vivian Marques Miguel Suen, do Departamento de Clínica Médica da FMRP-USP e orientadora da pesquisa. “A ideia é que a estimulação possa funcionar como uma ferramenta complementar, ajudando a controlar o desejo por comida e, eventualmente, potencializando o efeito de outras terapias.”

O estudo piloto não registrou nenhum evento adverso importante entre as voluntárias submetidas à corrente contínua. Contudo, ainda não se sabe se os resultados obtidos se repetem de maneira idêntica em grupos populacionais maiores, em homens ou em indivíduos diagnosticados com graus mais severos de excesso de peso corporal.

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Para a próxima etapa da investigação em 13 de outubro de 2026, a equipe da Universidade de São Paulo planeja aplicar a estimulação magnética transcraniana, modalidade que utiliza pulsos magnéticos concentrados para induzir atividade cerebral mais profunda, em voluntários diagnosticados com obesidade e transtorno de compulsão alimentar periódica.