O vírus do molusco contagioso (MCV) incorporou duas inserções do gene humano BC200 em seu próprio genoma há cerca de 100 mil anos. A descoberta faz parte de um estudo publicado na revista científica Science em 24 de setembro de 2026 por pesquisadores da Universidade Cornell, localizada em Ithaca, no estado de Nova York (Estados Unidos), em parceria com cientistas da Capital Normal University, de Pequim (China), e da Universidade do Texas em Arlington.
A identificação ocorreu durante a análise de bancos de dados de genomas virais conduzida pelo biólogo molecular Cedric Feschotte, professor do Departamento de Biologia Molecular e Genética da Universidade Cornell e autor sênior do trabalho, ao lado do primeiro autor Pu Gao, pesquisador da Capital Normal University, do coautor Cheng Sun, professor de genômica evolutiva na mesma instituição chinesa, e da bióloga Ellen J. Pritham, ex-professora assistente da Universidade do Texas em Arlington. “Simplesmente não consigo acreditar que ninguém não tenha publicado isso antes de nós. Qualquer pessoa pode encontrar esses genes em poucos minutos”, disse Feschotte.
Como o gene humano BC200 saltou para o vírus do molusco contagioso?
O patógeno analisado pelos cientistas é um poxvírus, parente distante do vírus da varíola, que infecta exclusivamente seres humanos — com frequência crianças — e provoca pequenas lesões na pele que costumam desaparecer após alguns meses. Durante o ciclo de infecção nas células cutâneas, os vírus assumem o controle da maquinaria celular para produzir cópias de seus próprios genes e proteínas antes de romper a célula hospedeira. Ao comparar as mutações acumuladas na versão viral do gene BC200 com a versão presente nos seres humanos atuais, a equipe estimou que o código genético saltou de nossos ancestrais para o vírus duas vezes na história humana moderna, há aproximadamente 100 mil anos, marcando um caso inédito de transferência horizontal recente de material genético humano para um patógeno.
Para que esse deslocamento ocorresse dentro das células da pele — as únicas conhecidas por sofrerem infecção pelo vírus do molusco contagioso —, o gene BC200 contou com uma propriedade incomum entre os genes humanos. Ele surgiu há cerca de 40 milhões de anos em primatas a partir de um transposon, tipo de elemento genético móvel também chamado de gene saltitante, e passou a atuar principalmente nos neurônios do cérebro humano produzindo uma molécula de RNA não codificante (ácido ribonucleico que não gera proteína direta, mas regula processos celulares). Embora os elementos transponíveis representem cerca de metade do DNA humano e quase todos permaneçam inativos após assumirem funções celulares, o BC200 manteve a capacidade de se copiar e se reinserir no DNA por meio de um mecanismo conhecido como retrotransposição mediada pelo elemento móvel LINE-1, gerando 178 cópias acumuladas no genoma humano ao longo de milhões de anos.
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“Genes que vêm de elementos transponíveis e que são reaproveitados para funções celulares tipicamente não são mais transponíveis. O BC200 foi criado a partir de um elemento móvel, mas reteve sua mobilidade e, ainda assim, está claramente servindo a uma função celular. De alguma forma, a evolução não conseguiu desvencilhar essas duas coisas”, afirmou Feschotte, em tradução livre.
Vantagem evolutiva do gene BC200 para o poxvírus
Ao vasculhar os registros genéticos disponíveis, a equipe liderada por Feschotte não encontrou nenhuma amostra do vírus do molusco contagioso sem a presença do BC200. A permanência contínua do material genético pelos últimos 100 mil anos
indica que o código capturado dos ancestrais humanos oferece uma vantagem evolutiva direta para a sobrevivência e a multiplicação do microrganismo no hospedeiro.Veja também: Cérebro de cães separa palavras por consoantes como o de humanos
No cérebro humano, a molécula de RNA produzida pelo BC200 está associada à regulação da síntese de proteínas nos neurônios, etapa biológica denominada tradução neuronal. Durante uma infecção viral, as células humanas frequentemente tentam desativar suas próprias estruturas produtoras de proteínas para impedir que o invasor se multiplique. Ouvido como especialista independente sobre os resultados da pesquisa, o biólogo evolutivo Nels Elde, da Universidade de Utah, especulou que o vírus do molusco contagioso utiliza o gene humano capturado justamente para interferir nesse bloqueio celular e reativar a produção de proteínas nas células da pele infectadas. “Os poxvírus adoram interferir na tradução”, afirmou Elde.
Cronologia e dados da publicação sobre o gene BC200 na revista Science
Os primeiros indícios da presença do material humano no poxvírus foram observados antes da publicação oficial na revista Science, que registrou o artigo sob o título original em inglês “Escape of the BC200 gene to a human poxvirus reveals its persistent transposition in primates”. Os marcos temporais e bibliográficos da investigação reúnem os seguintes registros:
- Ano de 2010: identificação inicial do gene BC200 no vírus pelos pesquisadores, período em que Cedric Feschotte atuava na Universidade do Texas em Arlington e Cheng Sun trabalhava como pesquisador de pós-doutorado no laboratório conjunto de Feschotte e Ellen J. Pritham.
- 24 de setembro de 2026: publicação do estudo completo na revista Science (volume 393, edição 6818, páginas 1342 a 1346) e divulgação do comunicado oficial da Universidade Cornell.
- 100 mil anos atrás: período estimado, com base na taxa de mutação genética, em que ocorreram as duas inserções do gene humano no genoma do vírus do molusco contagioso.
- 40 milhões de anos atrás: época aproximada em que o ancestral do gene BC200 foi cooptado em primatas para atuar na regulação da tradução neuronal.
Relação do gene BC200 com tumores e doença de Alzheimer
Além de ser o primeiro caso observado de um gene humano que é simultaneamente móvel e necessário para funções celulares regulares, o BC200 desperta interesse médico fora do campo da virologia. Estudos anteriores mostram que esse gene é expresso de forma anormal em alguns tipos de tumores, como o câncer de mama, e aparece em níveis elevados no cérebro de pacientes diagnosticados com a doença de Alzheimer.
Ainda não está confirmado experimentalmente como o vírus do molusco contagioso utiliza o gene BC200 durante a infecção em células humanas, nem se a capacidade de mobilização desse gene causa mutações diretas em células cancerígenas ou no desenvolvimento da doença de Alzheimer. A verificação experimental desses mecanismos celulares e a busca por outros vírus que tenham incorporado genes humanos compõem os próximos passos da investigação conduzida pelo laboratório de Cedric Feschotte na Universidade Cornell.
