Exoplaneta Beta Pictoris b emite sinais de rádio inéditos na ciência

Exoplaneta Beta Pictoris d - Divulgação/Nasa Foto: Exoplaneta Beta Pictoris d - Divulgação/Nasa

Uma equipe de cientistas liderada pelo Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian (instituição de pesquisa dos Estados Unidos que reúne o Observatório da Faculdade de Harvard e o Observatório Astrofísico Smithsonian) e pela Universidade de Oregon registrou a primeira detecção direta de sinais de rádio emitidos pelo exoplaneta Beta Pictoris b, um gigante gasoso fora do Sistema Solar. A captação inédita foi feita com o radiotelescópio MeerKAT, instalado na região do Karoo, na África do Sul, e permitiu medir diretamente a força do campo magnético de um mundo distante pela primeira vez na história da astronomia.

Os pesquisadores descartam qualquer relação das emissões com vida extraterrestre inteligente e explicam que as ondas têm origem natural, geradas por intensas auroras nos polos do planeta. “Sei que sinais de rádio estão associados a buscas por inteligência extraterrestre. Mas isto é algo muito diferente”, afirmou Edo Berger, coautor do estudo, professor de astronomia na Universidade de Harvard e pesquisador do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian.

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Campo magnético de Beta Pictoris b supera o de Júpiter em mais de 200 vezes

A análise das ondas captadas pelo MeerKAT indicou que o exoplaneta Beta Pictoris b possui um campo magnético com intensidade mínima de 1,25 quilogauss, o equivalente a 1.250 gauss (unidade que mede a densidade do fluxo magnético). Esse valor mínimo é mais de 200 vezes superior ao campo magnético de Júpiter e milhares de vezes mais potente que o registrado na Terra.

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“Para observar ondas de rádio que se estendem até as frequências que observamos, é necessário um campo magnético incrivelmente forte”, declarou o professor Edo Berger. Segundo os cientistas, a potência magnética está ligada às características físicas do planeta, que é um gigante gasoso com rotação rápida em torno do próprio eixo.

As emissões registradas consistem em rajadas de rádio rápidas e recorrentes, acompanhadas de uma emissão persistente e de alta polarização circular (propriedade em que a onda eletromagnética gira em círculo enquanto se desloca pelo espaço). Esses sinais surgem a partir de um fenômeno físico chamado instabilidade maser de cíclotron de elétrons, processo em que elétrons presos no campo magnético do planeta são acelerados em direção aos polos, gerando auroras luminosas e radiação de rádio intensa.

Planeta Júpiter
Planeta Júpiter – Alones/ Shutterstock.com

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Como o radiotelescópio MeerKAT isolou os sinais de Beta Pictoris b

Para comprovar que a radiação vinha especificamente do exoplaneta Beta Pictoris b e não da sua estrela hospedeira ou dos outros dois planetas conhecidos no mesmo sistema, denominados Beta Pictoris c e Beta Pictoris d, a equipe utilizou uma técnica de localização de alta precisão. Os astrônomos usaram as posições exatas de quasares de fundo (núcleos de galáxias distantes e brilhantes que emitem energia intensa) como pontos fixos de referência astrométrica para rastrear a origem exata das ondas no céu.

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O trabalho é assinado pelo autor principal Kevin N. Ortiz Ceballos, pesquisador de doutorado no Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, ao lado de Edo Berger e da coautora Yvette Cendes, pesquisadora afiliada à Universidade de Oregon. “O planeta mais massivo do sistema, Beta Pictoris b, atinge uma separação angular de até 0,55 segundo de arco ao longo de sua órbita de 24 anos, e a estrela hospedeira é magneticamente silenciosa, tornando o sistema um alvo ideal para observações de rádio”, explicaram Kevin Ortiz Ceballos e colegas no documento científico, em tradução livre.

Dados técnicos das observações em Beta Pictoris b

As sessões de monitoramento e o artigo científico resultante da pesquisa reúnem parâmetros temporais e operacionais específicos registrados pelas instituições de Cambridge, no estado norte-americano de Massachusetts, e da África do Sul:

  • Instrumento de captação: conjunto de 64 antenas parabólicas interconectadas do radiotelescópio MeerKAT, na África do Sul.
  • Período das sessões de observação: entre fevereiro de 2025 e maio de 2026.
  • Faixa de frequência das ondas detectadas: de 0,85 GHz a 3,5 GHz.
  • Duração do dia no exoplaneta (período de rotação): entre 8 e 9 horas.
  • Massa da estrela hospedeira Beta Pictoris: 1,75 vez a massa do Sol.
  • Idade estimada do sistema planetário: 23 milhões de anos.
  • Submissão do estudo: 15 de setembro de 2026, às 06h44 no horário universal coordenado (UTC), no repositório de pré-publicações arXiv sob o identificador arXiv:2609.16720.

Descoberta de Beta Pictoris b em 2008 e o histórico de emissões no espaço

Localizado na constelação de Pictor, a uma distância aproximada de 63 anos-luz da Terra, o exoplaneta Beta Pictoris b foi descoberto em 2008 por meio do Very Large Telescope (VLT), conjunto de quatro telescópios ópticos operado pelo Observatório Europeu do Sul (ESO). O planeta orbita sua estrela a uma distância equivalente a oito vezes o espaço entre a Terra e o Sol, levando 24 anos para completar uma volta inteira em um sistema jovem que também abriga um disco circunstelar de gás e poeira.

Antes das medições concluídas em 2026, astrônomos já haviam captado ondas de rádio originadas em sistemas planetários distantes e em estrelas anãs ultrafrias, mas nunca tinham conseguido separar e localizar de maneira inequívoca a emissão em um planeta específico fora do Sistema Solar em vez de sua estrela. Na nossa vizinhança cósmica, a Terra e os quatro gigantes gasosos — Júpiter, Saturno, Urano e Netuno — também emitem radiação de rádio auroral; no caso de Júpiter, partículas carregadas expelidas por vulcões da lua Io interagem diretamente com o campo magnético polar do planeta para produzir esses sinais.

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Revisão científica e novos monitoramentos de Beta Pictoris b

O artigo intitulado “Discovery of radio emission from the exoplanet β Pictoris b” (Descoberta de emissão de rádio do exoplaneta Beta Pictoris b, em tradução livre) encontra-se em formato de pré-publicação na plataforma arXiv e ainda aguarda validação formal pelo processo de revisão por pares, etapa em que cientistas independentes avaliam a metodologia antes da publicação em um periódico científico. Os pesquisadores já solicitaram tempo de observação adicional em telescópios para confirmar o sinal captado e investigar a razão física pela qual o exoplaneta sustenta um campo magnético tão intenso.

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