Família denuncia atraso cirúrgico no Hospital do Servidor de SP

Cirurgia - Parilov - shutterstock.com Foto: Cirurgia - Parilov - shutterstock.com

Uma idosa de 74 anos perdeu o movimento das pernas após aguardar uma semana por uma cirurgia de emergência na coluna no Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo (HSPE), na capital paulista. Familiares da paciente denunciaram nesta terça-feira (13) que o procedimento cirúrgico sofreu três adiamentos consecutivos sob a justificativa de falta de funcionários para esterilizar equipamentos e indisponibilidade de aparelho.

Para evitar danos motores permanentes, um médico que realizou o primeiro atendimento informou à família que a operação precisava ocorrer no prazo máximo de 72 horas. O Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual de São Paulo (Iamspe), órgão que administra o hospital, afirmou em nota oficial que a “agenda cirúrgica respeita o critério de gravidade dos pacientes recebidos no pronto-socorro”.

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Cancelamentos seguidos por falha na esterilização no HSPE

Médico, enfermeiro - Divulgação/ Gov.br
Foto: Médico, enfermeiro – Divulgação/ Gov.br

A paciente deu entrada no pronto-socorro da unidade hospitalar após sofrer uma queda que provocou lesões na cabeça e na coluna, já sem conseguir movimentar os membros inferiores. Segundo o relato da filha da idosa, que pediu anonimato, um neurocirurgião avaliou o quadro na noite da internação e pediu exames de imagem por prever a necessidade de intervenção cirúrgica imediata, alertando que a passagem do tempo poderia agravar as sequelas.

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Mesmo diante da indicação médica inicial, a primeira tentativa de operação foi suspensa sob a alegação de que os pinos e parafusos exigidos para a fixação vertebral não estavam esterilizados por falta de pessoal no setor responsável. O procedimento foi reagendado para o dia seguinte, mas voltou a ser cancelado exatamente sob o mesmo argumento de ausência de higienização técnica dos materiais cirúrgicos, ainda de acordo com a família.

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Em uma terceira ocasião, depois de a paciente de 74 anos cumprir todo o protocolo de jejum e preparo pré-operatório exigido pela equipe médica, a cirurgia na coluna foi novamente desmarcada pela direção sob a justificativa de que um aparelho essencial, compartilhado entre diversas especialidades do hospital, estava em uso em outro centro cirúrgico. Diante das suspensões seguidas e do relato de funcionários da própria unidade de que as falhas no setor de esterilização são frequentes, a filha registrou queixas formais na ouvidoria da instituição e buscou auxílio direto no setor de assistência ao paciente do HSPE para destravar o atendimento.

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  • Sábado, 26 de setembro de 2026, às 10h30: entrada da idosa no pronto-socorro do HSPE após queda, realização de tomografia e pedido de ressonância magnética à noite.
  • Segunda-feira, 28 de setembro de 2026: primeira data marcada para a cirurgia, cancelada por falta de esterilização de pinos e parafusos.
  • Terça-feira, 29 de setembro de 2026: segunda tentativa de operação, suspensa novamente pela ausência de material esterilizado.
  • Sexta-feira, 2 de outubro de 2026: realização da cirurgia de descompressão da medula após reclamações na ouvidoria, totalizando 6 dias de espera.
  • Quarta-feira, 7 de outubro de 2026: alta hospitalar da paciente sem a recuperação dos movimentos das pernas.

O que diz o Iamspe sobre o quadro clínico e a espera no HSPE?

A direção do instituto e a família da paciente apresentam versões divergentes sobre a condição clínica da mulher de 74 anos antes do procedimento cirúrgico. Enquanto a filha afirma que a mãe caminhava normalmente antes do acidente doméstico e chegou ao hospital sem conseguir mexer as pernas, o órgão estadual sustenta que a capacidade motora da paciente apresentava comprometimento parcial e sem avanço de gravidade.

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“A cirurgia de trauma raquimedular foi realizada no dia 2 de outubro para descompressão da medula após ela ser diagnosticada com quadro não progressivo e estável de tetraparesia (grau 4) com leve dificuldade para se movimentar devido a trauma vertebral”, declarou o Iamspe em nota oficial. Questionado sobre o limite de 72 horas estipulado pelo médico do primeiro atendimento e sobre a falta de servidores no setor de esterilização, o instituto não respondeu.

A paciente sofreu múltiplas lesões severas no acidente doméstico que motivou a internação na rede estadual de saúde. Os prontuários e comunicados oficiais sobre o caso detalham três condições clínicas principais associadas ao atendimento:

  • Traumatismo cranioencefálico: lesão provocada por impacto ou movimento brusco que atinge o crânio e pode causar danos ao cérebro e a estruturas da cabeça.
  • Trauma raquimedular: lesão na coluna vertebral e na medula espinhal capaz de comprometer a força física e a sensibilidade, exigindo cirurgia para descompressão medular.
  • Tetraparesia grau 4: perda parcial da função motora nos quatro membros, classificada nessa escala específica do instituto como uma condição estável de leve dificuldade de movimentação.

Cortes no orçamento do Iamspe e denúncias de residentes em 2026

O atraso cirúrgico relatado pela família ocorre em meio a uma sequência de questionamentos formais sobre a estrutura de funcionamento do Hospital do Servidor Público Estadual, autarquia vinculada à Secretaria de Gestão e Governo Digital, comandada pelo secretário Caio Paes de Andrade na gestão do governador Tarcísio de Freitas. Requerimentos de fiscalização apresentados na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) em julho de 2026, de autoria da deputada estadual Monica Seixas (Movimento Pretas) e baseados em ofícios do Ministério Público de São Paulo, mostram que a participação do Tesouro Estadual no orçamento do Iamspe caiu de 28% das receitas totais em 2020 para 11% na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026, redução que dificulta a reposição de funcionários e a renovação de equipamentos médicos.

Problemas operacionais e de pessoal já haviam motivado outras apurações ao longo do ano na mesma unidade hospitalar. Em 8 de junho de 2026, médicos residentes acionaram o Conselho Nacional de Residência Médica (CNRM) para denunciar sobrecarga de trabalho, falta de insumos básicos e jornadas de até 90 horas por semana, volume superior ao teto legal de 60 horas semanais.

Pouco depois, em 23 de junho de 2026, familiares de uma paciente em estado terminal denunciaram demora na aplicação de medicamentos contra a dor no HSPE. Naquela ocasião, a administração do Iamspe abriu uma investigação interna para apurar a conduta das equipes de atendimento.

Ainda não há confirmação médica conclusiva se a ausência de recuperação do movimento das pernas da idosa de 74 anos decorre exclusivamente da gravidade do trauma sofrido na queda ou do atraso de seis dias para a descompressão cirúrgica da medula espinhal. Pacientes e familiares que enfrentam cancelamentos de procedimentos ou falta de insumos no Hospital do Servidor Público Estadual podem registrar denúncias presenciais ou remotas na ouvidoria do Iamspe e acionar o setor de assistência ao paciente dentro da própria unidade hospitalar.

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