Ronaldo Lemos mostra como recompensas de aplicativos prendem usuários por mais de 9 horas por dia

Menino com celular, excesso de telas - ljubaphoto/ istockphoto.com

Menino com celular, excesso de telas - ljubaphoto/ istockphoto.com

O advogado e especialista em tecnologia Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), alerta que o consumo excessivo de celulares está anestesiando os brasileiros e reduzindo a autonomia sobre a própria vida. Com uma média nacional de 9 horas e 13 minutos diários diante das telas, o tempo acumulado de exposição aos aparelhos chega ao equivalente a 28 anos ao longo da vida de uma pessoa.

De acordo com o especialista, esse volume de horas conectadas coloca o Brasil na segunda posição mundial em tempo de tela e decorre diretamente do formato de funcionamento das plataformas digitais. “Muita gente pode pôr na lápide assim: ‘Passou 28 anos na frente do celular’, o que é a realidade, especialmente com o tempo de tela aqui do Brasil, que é o segundo maior do mundo. Então, o que está acontecendo? Só é possível você ficar 9 horas e 13 minutos por dia olhando para a tela porque você está sendo anestesiado. O seu corpo está recebendo uma anestesia que chega por meio da sua mente e por meio do seu coração”, afirmou Ronaldo Lemos.

Como os aplicativos prendem a atenção segundo Ronaldo Lemos?

Foto: Mulher com celular, iPhone, câmera de celular – anatoliy_gleb / Shutterstock.com

A dependência digital observada entre os usuários não ocorre por acaso, mas é estimulada pela própria arquitetura dos aplicativos instalados nos smartphones. Segundo a análise de Ronaldo Lemos, as ferramentas digitais operam sob uma estrutura técnica desenhada especificamente para evitar que a pessoa se desconecte, utilizando mecanismos psicológicos baseados na imprevisibilidade do conteúdo exibido a cada atualização de tela.

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Esse sistema funciona por meio da entrega irregular de estímulos ao cérebro humano durante a navegação. “A gente vive num mundo das recompensas intermitentes. Como elas não aparecem toda hora, elas são desenhadas para ter essa aleatoriedade, isso faz com que você fique voltando o tempo todo ali na plataforma”, disse o diretor do ITS Rio.

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Proposta de Ronaldo Lemos no livro O Monge, o Iogue e o Faquir

Para discutir alternativas a esse modelo de retenção de atenção, Ronaldo Lemos lançou o livro “O Monge, o Iogue e o Faquir: Corpo, Coração e Mente no Tempo das Máquinas”, publicado pela Editora Todavia. A obra propõe caminhos práticos para que os indivíduos consigam recuperar a autonomia humana e o comando interno diante do avanço das redes sociais, dos algoritmos de recomendação e das ferramentas de inteligência artificial.

O autor estrutura a publicação não como um manifesto contrário ao desenvolvimento ou ao uso da tecnologia, mas como um método de adaptação consciente aos ambientes digitais contemporâneos. Para isso, Ronaldo Lemos recorre a três arquétipos milenares que funcionam como um mapa de equilíbrio frente às máquinas: o monge representa o domínio e a relação com as emoções; o iogue simboliza a condução da mente; e o faquir trata do vínculo direto com o corpo físico. A proposta detalhada no texto consiste em fortalecer o corpo sem que o indivíduo fique prisioneiro da própria imagem, educar as emoções sem se afogar nelas e afiar a capacidade da mente sem se entregar ao culto da produtividade constante.

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  • Título da obra: O Monge, o Iogue e o Faquir: Corpo, Coração e Mente no Tempo das Máquinas
  • Autor: Ronaldo Lemos
  • Editora: Todavia
  • Registro de lançamento: 4 de agosto de 2026
  • Preço de capa no site da editora: R$ 79,90

Índices de tempo de tela no Brasil e comparação global

Os números citados por Ronaldo Lemos sobre o comportamento digital no país têm como base levantamentos internacionais, incluindo o Relatório Digital 2024 (elaborado por DataReportal, We Are Social e Meltwater, com compilação do Electronics Hub) e o estudo Consumer Pulse, divulgado pela consultoria Bain & Company em setembro de 2025. Os relatórios confirmam que o índice brasileiro de 9 horas e 13 minutos diários perde apenas para a média registrada na África do Sul, que lidera o ranking mundial.

No recorte nacional, o período em que o cidadão permanece olhando para dispositivos eletrônicos representa 54,7% de todo o tempo em que uma pessoa passa acordada ao longo do dia. Essa carga horária conectada supera, inclusive, a janela média de sono recomendada para adultos, que varia de 7 a 8 horas por noite.

  • Média diária de tela na África do Sul (1º lugar no mundo): 9 horas e 24 minutos
  • Média diária de tela no Brasil (2º lugar no mundo): 9 horas e 13 minutos
  • Média global diária de uso de internet: 6 horas e 38 minutos
  • Tempo diário que o brasileiro dedica apenas às redes sociais: 3 horas e 37 minutos
  • Proporção de aparelhos no Brasil: 1,2 smartphone por habitante

Desejo de redução do uso de celulares segundo a Bain & Company

Apesar da alta taxa de conectividade no país, o levantamento Consumer Pulse da Bain & Company aponta que uma parcela dos usuários já identifica prejuízos na rotina e tenta alterar esse comportamento. De acordo com a pesquisa de setembro de 2025, 28% dos brasileiros entrevistados afirmam desejar diminuir a quantidade de horas dedicadas ao ambiente digital. Entre os participantes do estudo, a redução do tempo de tela aparece como o hábito número um que eles mais gostariam de mudar no dia a dia, superando preocupações tradicionais relacionadas à melhoria da alimentação e ao combate ao sedentarismo.

O estudo da Bain & Company também mapeou as razões que levam os usuários a tentar frear o uso dos smartphones no Brasil. O motivo mais citado pelos entrevistados é a distração constante provocada pelos estímulos digitais, apontada por 35% das pessoas, seguida pelos efeitos negativos percebidos diretamente na saúde e no bem-estar, com 28% das menções, e pela sensação frequente de culpa gerada pelo uso excessivo dos aparelhos, relatada por 18% dos participantes.