Testosterona para mulheres exige prescrição com estrogênio e tem consulta aberta nos EUA

injetáveis, seringa - Anna Hoychuk / shutterstock.com

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A busca por terapia de reposição de testosterona entre mulheres na pós-menopausa registrou forte expansão no Reino Unido e nos Estados Unidos, conforme análise científica publicada pelo bioquímico Daniel Kelly, professor sênior de Bioquímica na Universidade de Sheffield Hallam, em 1 de outubro de 2026. Diante da falta de medicamentos formulados para o organismo feminino na rede pública, pacientes recorrem a géis masculinos adaptados ou a compras pela internet que elevaram os níveis hormonais em até 12 vezes acima do limite seguro.

O alerta sobre a compra irregular foi emitido em setembro de 2026 no País de Gales pela médica consultora em saúde sexual e reprodutiva e especialista em menopausa Michelle Olver. Segundo a especialista, mulheres na menopausa fingiram ser homens em questionários de farmácias online para adquirir o produto devido à dificuldade de acesso pelo sistema público de saúde britânico (NHS). “Nós queremos manter as mulheres na faixa fisiológica feminina para a testosterona. Não queremos que elas tenham níveis altíssimos. Quando você tem níveis muito altos de testosterona de forma persistente, pode ter efeitos colaterais permanentes indesejáveis. Ninguém quer ter calvície, engrossamento da voz ou aumento do clitóris”, afirmou Olver, em tradução livre.

Evidências científicas da testosterona restringem indicação ao desejo sexual

As diretrizes clínicas internacionais estabelecem que o transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH) — caracterizado pela falta persistente de desejo sexual que provoca sofrimento pessoal — é a única condição em mulheres na pós-menopausa com evidências científicas suficientes para recomendar a terapia com testosterona. O hormônio não substitui a terapia de reposição hormonal (TRH) convencional e, quando indicado por médicos para pacientes com sintomas persistentes, costuma ser prescrito em conjunto com o estrogênio e, em casos específicos, com a progesterona, já que o desejo sexual também depende de fatores como saúde mental, fadiga, estresse e relacionamentos.

Foto: Seringa – MR. SOMPHOT KLOMKAMIN/shutterstock.com

A base científica para essa recomendação consolidou-se em 2019, por meio de uma revisão sistemática e meta-análise liderada pelo pesquisador Rakibul M. Islam, que avaliou 36 ensaios clínicos randomizados com 8.480 mulheres na pós-menopausa. O levantamento comprovou que a administração transdérmica em doses ajustadas melhora o desejo sexual, a excitação, o orgasmo e a frequência de eventos sexuais satisfatórios.

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Em setembro de 2024, pesquisadores da clínica britânica especializada em menopausa Newson Health e da University College London conduziram um estudo piloto retrospectivo com 510 mulheres em terapia hormonal tratadas com creme ou gel de testosterona durante quatro meses. As participantes relataram redução média de 34% no escore de sintomas de humor, queda de 22% nas queixas cognitivas e diminuição de 33% no relato de baixa libido, mas o desenho observacional do estudo não comprova relação de causa e efeito devido à possível interferência de outros tratamentos e condições de saúde.

Fisiologia feminina da testosterona e o uso improvisado de gel masculino

No organismo feminino, a testosterona é produzida naturalmente pelos ovários e pelas glândulas suprarrenais, além de resultar da conversão de outros hormônios nos músculos, na pele e no tecido adiposo. Embora as concentrações sanguíneas nas mulheres sejam de 10 a 15 vezes menores do que nos homens, o hormônio atua diretamente nos ossos, músculos, coração, vasos sanguíneos e cérebro, além de servir como base para a produção de estradiol, a principal forma de estrogênio durante a idade reprodutiva. A queda nos níveis desse hormônio ocorre de forma gradual ao longo da vida reprodutiva, sem sofrer um declínio abrupto no momento da menopausa, e as baixas concentrações dificultam a medição precisa em exames de sangue de rotina.

Na ausência de medicamentos femininos acessíveis na rede pública, o tratamento recorre ao uso off-label — fora das indicações previstas em bula — de géis de testosterona desenvolvidos para homens. Nessa modalidade, as pacientes precisam medir visualmente e aplicar cerca de um décimo (1/10) de um sachê masculino, método impreciso para uma dose terapêutica reduzida que favorece a superdosagem e o surgimento de efeitos colaterais androgênicos, como acne, crescimento de pelos faciais ou corporais e queda de cabelo.

Aumento de 10 vezes nas prescrições de testosterona e regulação internacional

A demanda pelo tratamento no sistema público britânico cresceu de forma contínua antes mesmo da disponibilização de fórmulas específicas. Na Inglaterra, o volume de prescrições de gel de testosterona pelo NHS aumentou cerca de 10 vezes entre novembro de 2015 e novembro de 2022, saltando de 429 para 4.675 mulheres na faixa etária de 50 anos ou mais, e passando de 228 para 2.913 pacientes no grupo de até 49 anos.

Enquanto o estrogênio e a progesterona contam com medicamentos amplamente licenciados para o público feminino, a regulamentação da testosterona para mulheres avança em estágios distintos pelo mundo:

  • Em 2020, a Austrália registrou formalmente o creme de testosterona feminino AndroFeme, com concentração de 10 mg/mL (ou 1%).
  • Em 25 de julho de 2025, a agência reguladora de medicamentos do Reino Unido (MHRA) concedeu autorização de comercialização ao AndroFeme para tratar o TDSH na pós-menopausa, mas o produto segue restrito a receitas privadas enquanto aguarda avaliação do Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados (NICE) para entrar no NHS.
  • Em 18 de agosto de 2026, a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA), onde nenhum produto de testosterona é aprovado para mulheres, publicou o aviso de abertura de consulta pública e convocação de reunião técnica sobre o tema.
  • Em 17 de setembro de 2026, das 9h às 16h30 (horário da Costa Leste dos EUA), a FDA realizou em Silver Spring, Maryland, o workshop público híbrido “Uso de Testosterona em Mulheres na Menopausa”, organizado pelo Escritório de Saúde da Mulher (OWH), dirigido pela comissária associada Kaveeta Vasisht, e pela Divisão de Urologia, Obstetrícia e Ginecologia do Centro de Avaliação e Pesquisa de Medicamentos (CDER), sob direção de Christina Chang.
  • Até 21 de setembro de 2026, o processo regulatório da agência norte-americana já havia recebido mais de 1.320 comentários de pacientes, médicos e pesquisadores.

Lacunas de segurança a longo prazo e prazo da FDA até 19 de outubro

Em comunicado oficial sobre o encontro de setembro, a agência reguladora norte-americana definiu as exigências para a indústria farmacêutica. “O objetivo do workshop é examinar as evidências científicas atuais e as lacunas críticas de conhecimento relacionadas ao uso de testosterona em mulheres na menopausa para ajudar a informar pesquisas futuras e o potencial desenvolvimento de medicamentos nesta área”, informou a FDA, em tradução livre.

Ainda não há confirmação científica por grandes ensaios clínicos randomizados sobre a eficácia causal da testosterona para tratar sintomas como fadiga, alterações de humor e déficit cognitivo, nem dados definitivos de segurança a longo prazo — além de 24 meses de uso — relativos ao risco de doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral (AVC) e câncer de mama, já que estudos anteriores tiveram curta duração e excluíram pacientes de maior risco.

O processo de consulta pública aberto pela FDA sob o código FDA-2026-N-5479 para recolher manifestações sobre riscos e benefícios da reposição hormonal permanece aberto até a próxima segunda-feira (19), às 23h59 no horário da Costa Leste dos Estados Unidos.