Flávia Lanat, fundadora da startup de educação financeira Manas Investem, e Carice Weber, diretora executiva corporate da MAG Seguros, apontam sete fatores fundamentais para o planejamento da aposentadoria das mulheres no Brasil. O mapeamento elaborado pelas executivas considera que o público feminino recebe salários menores no mercado formal, enfrenta pausas na carreira para o cuidado familiar e vive por mais tempo após os 60 anos de idade.
As diretrizes resultam de um fórum de debates sobre autonomia financeira, investimentos e previdência realizado pelas duas instituições na cidade de São Paulo. Na avaliação de Flávia Lanat, que é advogada de formação, o público feminino costuma dividir-se entre dois comportamentos distintos em relação ao tema: as mais jovens consideram cedo demais para iniciar os aportes, enquanto as mulheres mais maduras receiam ter ultrapassado a idade adequada para começar a acumular recursos. “Quem vive mais tem mais anos de aposentadoria para sustentar sem o dinheiro do salário que recebia quando tava ativa no mercado de trabalho”, afirmou Flávia Lanat.
Sobrevida de 24,2 anos na aposentadoria das mulheres e impacto salarial
O primeiro ponto de atenção destacado pelas especialistas é a duração do período pós-carreira, uma vez que a demografia brasileira exige que o orçamento feminino cubra um intervalo maior de anos sem renda do trabalho. De acordo com os dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), órgão federal responsável pelas estatísticas oficiais do país, as mulheres vivem mais do que os homens tanto na medição feita a partir do nascimento quanto na contagem que parte do início da terceira idade. “É importante que a gente olhe para cada pessoa, entenda o momento que ela tá vivendo”, disse Carice Weber.
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Além de precisar sustentar o custo de vida por mais tempo, a trabalhadora dispõe de uma capacidade financeira reduzida no presente para formar a sua reserva patrimonial, reflexo direto da desigualdade nos contracheques e nos valores direcionados aos fundos previdenciários. Números da Superintendência de Seguros Privados (Susep), autarquia que fiscaliza o setor de seguros e previdência complementar aberta, e dos ministérios do Trabalho e Emprego (MTE) e das Mulheres demonstram a distância financeira entre os gêneros no país, embora o levantamento da autarquia não identifique as causas específicas dessa diferença nos planos privados.
- Expectativa de sobrevida aos 60 anos (IBGE, dados de 2024): mais 24,2 anos em média para as mulheres, contra mais 20,8 anos para os homens, dentro de uma média geral nacional de mais 22,6 anos.
- Expectativa de vida ao nascer (IBGE, dados de 2024): média de 79,9 anos para o público feminino e de 73,3 anos para o masculino, com índice geral de 76,6 anos no país.
- Diferença salarial no setor privado (5º Relatório de Transparência Salarial do MTE e do Ministério das Mulheres): a remuneração média feminina é 21,3% inferior à masculina nas empresas privadas com 100 ou mais empregados, índice que subiu frente aos 20,7% registrados no levantamento anterior.
- Volume do mercado formal analisado pelo governo federal: cerca de 53,5 mil estabelecimentos, cenário em que a participação feminina cresceu 11% e atingiu a marca de 8 milhões de trabalhadoras.
- Contribuição média anual na previdência privada aberta (Susep, dados de 2024): R$ 13.187 por pessoa entre as mulheres, frente a R$ 17.218 por pessoa entre os homens, o que representa um aporte masculino cerca de 30% superior.
- Presença feminina na bolsa de valores brasileira (B3, dados de agosto de 2026 compilados pela Manas Investem): cerca de 1,7 milhão de mulheres investidoras pessoa física com ativos financeiros, o equivalente a aproximadamente 26% do total de 6,6 milhões de investidores.
Pausas na carreira e apoio familiar no cálculo da aposentadoria das mulheres
A trajetória profissional feminina sofre interferências diretas das demandas domésticas, que compõem do terceiro ao quinto motivo listados pelas executivas para antecipar a organização das finanças pessoais. O afastamento temporário do mercado de trabalho para cuidar de filhos ou de pais idosos reduz a geração de renda e costuma paralisar os depósitos mensais voltados ao longo prazo, exigindo que a família discuta não apenas o pagamento das despesas imediatas, mas a recomposição do patrimônio de quem deixou de trabalhar. “Alguém vai ter que cuidar dos filhos, alguém vai ter que cuidar dos pais idosos, mas a gente precisa conversar sobre isso”, declarou Flávia Lanat.
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Segundo a fundadora da Manas Investem, esse ajuste financeiro deve ser planejado em conjunto dentro da residência para diluir os prejuízos futuros. “Podemos equacionar isso conversando com os nossos pares dentro de casa sobre como fazer para equacionar o impacto que essa pausa vai trazer daqui a 20, 30, 40 anos quando a mulher decidir se aposentar”, afirmou. Mesmo quando a trabalhadora mantém o vínculo empregatício, a necessidade de conciliar o expediente com a rotina da casa leva parte das profissionais a recusar subidas de cargo, o que trava a evolução dos rendimentos e limita a margem disponível para investir. “Se você tá declinando promoção, você tá declinando uma chance de estar ganhando mais”, disse a executiva.
Outro fator que pressiona o orçamento na maturidade é a continuidade do suporte financeiro prestado aos ascendentes. De acordo com a análise apresentada, o encerramento da carreira profissional da mulher não significa o fim das despesas com os pais idosos, que podem demandar auxílio justamente na fase em que a filha passa a depender das próprias reservas. “Se você chegar lá e os seus pais precisarem de você, isso quer dizer que […] a sua reserva para aposentadoria vai ter que ser maior”, explicou Flávia Lanat, pontuando a necessidade de incluir gastos de terceiros na conta previdenciária.
Como estruturar a aposentadoria das mulheres com INSS, previdência e seguro
Para enfrentar a combinação de vida mais longa e salários menores, o sexto e o sétimo fatores de planejamento orientam as trabalhadoras em atividade ou em transição de carreira a diversificar as fontes de custeio e proteger o capital em formação. A recomendação técnica é tratar a renda futura como um pacote integrado, ajustado conforme a idade e a disponibilidade de orçamento de cada cidadã, sem depender de uma única modalidade financeira. “É preciso falar de um plano completo, seja quando a gente é jovem, seja quando tem um pouco mais de idade”, afirmou Carice Weber.
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Na prática, a construção dessa estrutura financeira voltada ao público feminino envolve a combinação de três frentes complementares de acumulação e resguardo patrimonial: o benefício público pago pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), autarquia federal responsável pela previdência oficial dos trabalhadores brasileiros; os planos de previdência privada e demais ativos de investimento para complementar o valor mensal; e a contratação de apólices de seguro de vida. O objetivo do seguro é evitar que imprevistos de saúde, como doenças graves ou acidentes durante a fase produtiva, forcem a trabalhadora a resgatar antecipadamente o dinheiro poupado para a velhice. “O seguro de vida ajuda você a proteger aquele patrimônio que você está construindo para sua aposentadoria”, declarou Flávia Lanat, ressaltando que a contratante deve verificar previamente na apólice quais eventos garantem o pagamento de indenização.
